Oxalá na umbanda é o maior dos orixás nas casas e pesquisas consultadas, e a ligação com Jesus Cristo é um sincretismo que cada casa explica de um jeito.
Para umas casas os dois são o mesmo ser, para outras não são exatamente. Cada resposta abaixo leva o nome da casa, da federação ou do autor, e nenhuma vale pela umbanda inteira.
Oxalá é Jesus na umbanda? Seis casas, seis respostas
Depende da casa. A ficha do orixá está em quem é Oxalá; aqui ficam as seis posições que as fontes abertas registram.
- FUCESP (federação de São Paulo): “Sincretizado com Jesus Cristo, é o maior dos Orixás cultuados na Umbanda”.
- NUSS (casa de São Paulo e Itanhaém): para a casa, o sincretismo é perfeito e pode-se dizer que são “o mesmo ser com nomes diferentes”. Mas, “dentro de uma análise lógica”, não são, porque um orixá nunca encarnou e Jesus “esteve entre nós há dois mil anos”.
- TUCTVC (casa): o sincretismo aproxima símbolos e valores, mas “não significa que as duas figuras sejam exatamente a mesma divindade”.
- Pai Maneco (Curitiba): o estudo da casa escreve que “Oxalá não é Jesus Cristo e nem Jesus Cristo é Oxalá”. Na mesma casa, o preto-velho Pai Miquimba diz: “Na verdade Jesus é Oxalá”.
- Templo de Umbanda Pai Oxalá (Aquidauana): Constantino descreve que Oxalá “assume a figura de Jesus Cristo na Umbanda e é considerado o Pai Maior”.
- Terreiro Pai Oxalá (Seara, SC): Lazaroto registra Oxalá como “assemelhado a Jesus, mas como um plano espiritual”.
Os pesquisadores leem de outro modo. Gaia e Scorsolini-Comin, da USP, entendem que o Jesus da umbanda “se diferenciaria tanto de suas ressonâncias no universo do Candomblé quanto do catolicismo”. O estudo do Pai Maneco resume: “o tema não está sedimentado para todos os umbandistas”.
O Jesus de braços abertos no congá
Quatro pesquisas descrevem o mesmo desenho de Jesus no congá, com os braços abertos ou soltos. Bairrão, da USP, estudou duas casas de Ribeirão Preto, onde “Oxalá/Jesus Cristo ocupa o lugar mais alto”, e descreve a figura assim:
“Em vez de moribundo, em geral este se apresenta com as pernas e braços soltos, cheio de vida.”
Na casa de Pagliuso e Bairrão, a imagem de Oxalá “é a de Jesus Cristo com os braços abertos, usando vestes brancas”. Para a FUCESP, a imagem fica no centro do congá “de quase todos os terreiros”.
São descrições de casas, e não regra: cada casa monta o próprio congá, como mostra como montar um altar de umbanda. Quem vai escolher a imagem de Oxalá confere com o dirigente da casa, e a Joice tira dúvida sobre as imagens da loja pelo WhatsApp.

A linha de Oxalá e as sete linhas
Em 1933, Leal de Souza descreveu no Rio de Janeiro a “Linha Branca de Umbanda e Demanda”, com sete linhas, e a primeira era a de Oxalá. Para ele, a primeira linha era “Jesus, em sua invocação de N. S. do Bonfim”, ou seja, Nosso Senhor do Bonfim, e a cor era o branco.
A lista não ficou fechada. Pereira, em dissertação do CEFET/RJ, anota que a divisão “não encontra consenso, variando as linhas de acordo com o autor ou o terreiro”. Para a NUSS, a linha de Oxalá “é chefiada por Jesus Cristo”, para ela “convergem todas as demais linhas” e é “principalmente uma linha de cura”.
Um resumo do Pai Maneco parte de Cumino, em segunda mão. Na “Umbanda Sagrada”, “Jesus Cristo é um Trono da Fé de nível intermediário dentro da hierarquia de Oxalá”. A comparação completa está em as 7 linhas da umbanda e nas vertentes da umbanda.
Oxalá incorpora na umbanda?
Depende da casa. A TUCTVC escreve: “Na Umbanda, não incorporamos o Orixá em si, mas entidades espirituais que trabalham sob sua irradiação”.
O Pai Maneco diz que a manifestação de Oxalá “não se faz através da incorporação”, mas ressalva que “há casas onde ocorrem essas incorporações”. Um representante da AumBhanDhan de Curitiba, ouvido no mesmo estudo, responde quem tem razão: “Os dois, cada um dentro da sua verdade individual”.
A NUSS descreve outro arranjo: Caboclos, Pretos Velhos, Crianças e outros trabalhadores “demonstram grande obediência” à linha de Oxalá.
Cor, dia, saudação e data de Oxalá na umbanda
Cor: branca | Dia: sexta-feira ou domingo, conforme a casa | Saudação: Êpa Babá | Data: 25 de dezembro, em algumas casas
O branco aparece em todas as casas abertas. Para Pagliuso e Bairrão, Oxalá “integra, no branco de sua cor, todas as cores da umbanda”. Na TUCTVC, a guia de Oxalá é “branca leitosa”.
O dia varia. A FUCESP escreve “Sexta-feira ou domingo” na ficha e, no texto, “o seu dia é a sexta-feira”. A TUCTVC e o terreiro de Seara dão o domingo. O quadro dos outros orixás está em dias da semana dos orixás.
O 25 de dezembro aparece como “data de culto” na TUCTVC, e em Seara Oxalá é “comemorado no dia 25 de dezembro”. As datas do ano, com a fonte de cada uma, estão em dia de Oxalá.
O que cada casa oferece a Oxalá e como abre a gira
Oferta é regra de casa, e quem quer saber o que levar pergunta ao dirigente da própria. A FUCESP lista “vela branca, rosa e flores brancas”, com canjica branca cozida, acaçá e massa de inhame. O Pai Maneco escreve que o amalá leva “14 velas brancas, água mineral, canjica branca dentro de alguidar de louça branca, fitas e flores brancas”. No Zambi-Iris, em Bocaiuva (MG), a canjica vai “regada com mel”.
A NUSS ensina outra coisa: “Orixás não comem”, e por isso “não há necessidade de oferendas para Oxalá com frutas, canjicas, manjares, arroz doce”. A casa orienta velas brancas, cravos brancos, água pura e mel. Mais em oferenda para Oxalá.
Na abertura da gira, as casas pedem licença a Oxalá. Num terreiro de Goiânia, segundo Carrer, os pontos “pedem permissão a Oxalá, Iemanjá, Ogum e outras entidades para dar início aos trabalhos”. Em Seara, o passe abre com um ponto dirigido a ele.
Na umbanda e no candomblé: o que as fontes separam
No candomblé de rito queto, Prandi põe “Jesus (Menino)” para Oxaguiã e “Jesus (Crucificado ou Redentor)” para Oxalufã. No candomblé ketu, Gaia e Scorsolini-Comin escrevem que “parece não haver relações de Òṣàlá com as figuras cristãs de Jesus Cristo ou com nosso Senhor do Bonfim”.
As duas formas do orixá estão em qualidades de Oxalá. A história do Bonfim está em Senhor do Bonfim e Oxalá, e as duas religiões lado a lado, em diferença entre umbanda e candomblé.
Perguntas frequentes
Oxalá é Deus na umbanda?
Nas casas que tratam do assunto, Oxalá não é o Deus supremo. A TUCTVC escreve que “Deus é único” e que os orixás são “irradiações ou emanações da Energia Divina”. Uma médium do Pai Maneco diz que “Oxalá é filho de Zambi”.
Oxalá e Jesus são a mesma coisa?
Depende da casa. Para a NUSS, em nome são “o mesmo ser”, mas não numa análise lógica. Para a TUCTVC, não são “exatamente a mesma divindade”. Para o estudo do Pai Maneco, Oxalá não é Jesus. As seis posições estão no primeiro bloco.
Qual é o dia de Oxalá na umbanda?
Sexta-feira ou domingo, conforme a casa. A FUCESP dá os dois, e a TUCTVC dá o domingo. No ano, a TUCTVC dá 25 de dezembro como data de culto. O dia da sua casa vale mais.
Qual é a saudação de Oxalá na umbanda?
A FUCESP escreve “Êpa Êpa Babá! (Viva o Pai)”, e a NUSS ensina “Zambi é meu pai, ou Epa Babá Oxalá”. Em Seara, o registro é “Êpa-Bába” e “Epaô-Babá”. A grafia varia de casa para casa.
Referências
- FUCESP: Oxalá
- TUCTVC: Oxalá, fé, criação e paz divina
- NUSS: Oxalá é Jesus Cristo e Linha de Oxalá
- Terreiro Pai Maneco: Oxalá na Umbanda e Oxalá
- Gaia e Scorsolini-Comin, Memorandum (UFMG): Candomblé Ketu e o sincretismo religioso
- Pagliuso e Bairrão, Afro-Ásia (UFBA): Luz no caminho
- Bairrão, Memorandum (UFMG): Mestres Bantos da Alta Mogiana
- Constantino, UFMS: Corpo encantado
- Pereira, CEFET/RJ: História e memória da umbanda
- Leal de Souza: As Sete Linhas de Umbanda, 1933
- Prandi, Horizontes Antropológicos (UFRGS): Deuses africanos no Brasil contemporâneo
- Gonçalves, UFMG: A comida nos terreiros de Bocaiuva
- Lazaroto, UFFS: A terreira Pai Oxalá
- Carrer, UFG: Umbanda em Goiânia