Toda segunda quinta-feira de janeiro, uma escadaria em Salvador amanhece coberta de água de cheiro. Quem lava não está limpando pedra. Senhor do Bonfim e Oxalá dividem aquela colina há quase três séculos, e a escadaria é o lugar exato onde as duas fés se encontram.
Este artigo conta como um Cristo trazido de Portugal em 1745 passou a ser reconhecido pelo povo negro como o mais velho dos Orixás. Também mostra o que é a Lavagem, de onde vem a fitinha e, principalmente, o que a teologia mantém separado apesar de toda a proximidade.
Quem é o Senhor do Bonfim
Primeiro, uma correção que muda tudo: o Senhor do Bonfim não é um santo. É o próprio Jesus Cristo crucificado, sob a invocação do “bom fim”, ou seja, a boa morte na cruz.
A devoção nasceu em Setúbal, Portugal. Chegou à Bahia pela promessa de um capitão de mar e guerra, Theodózio Rodrigues de Faria, feita durante uma tempestade no oceano. A imagem desembarcou em Salvador no domingo de Páscoa de 1745.
A obra da igreja começou naquele mesmo ano, no alto da colina do Bonfim. O interior ficou pronto em 1754 e as torres em 1772. O papa Pio XI elevou o templo a basílica menor em 1927, e o IPHAN tombou o conjunto em 1985.
Guarde três detalhes: a colina, o branco e a promessa. É neles que a história vira.
Por que o Senhor do Bonfim foi associado a Oxalá
Oxalá (Obatalá, no iorubá) é o Orixá mais velho e mais respeitado do panteão. Olodumare o encarregou de moldar os seres humanos, e por isso ele responde pela criação. Sua cor é o branco, seu dia é a sexta-feira, e sua saudação é Epa Babá.
O antropólogo Vilson Caetano, da UFBA, resume em três pontos de contato o que as pessoas escravizadas enxergaram ali, conforme explicou ao portal iBahia:
- Altura: os dois são cultuados em lugar alto, na colina e no alto do céu.
- Criação: um é o Cristo criador, o outro molda a humanidade.
- Promessa: os dois recebem o pagamento de votos e pedidos cumpridos.
Some a isso o branco das vestes e a paciência diante do sofrimento injusto. No candomblé ketu, o Oxalufã é o Oxalá ancião, curvado sobre o opaxorô, que foi preso e humilhado em Oyó sem ter culpa. Xangô o resgatou, calou o reino inteiro e o banhou três vezes em água pura antes de vesti-lo de branco novo.
Esse mito é a origem das Águas de Oxalá, ritual feito em silêncio absoluto pelas casas ketu tradicionais de Salvador. A semelhança com a Paixão é evidente, e foi ela que abriu a porta.
Vale registrar uma diferença de nação: na nação angola não se cultuam orixás, e sim inquices. A energia correspondente aparece como Lemba, não como Oxalá. Candomblé nunca foi bloco único.
A Lavagem do Bonfim: a festa que nasceu do trabalho forçado
A Lavagem não começou como celebração. Começou como serviço. Pessoas escravizadas eram mandadas lavar a igreja e o entorno antes da festa, e nesse trabalho reconheceram o próprio culto ao velho Oxalá.
O rito se fixou na segunda quinta-feira de janeiro no início do século XIX. O cortejo sai da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia por volta das 10h. Dali sobe até a Colina Sagrada num percurso que as fontes oficiais medem entre 6,8 e 8 km, segundo a prefeitura de Salvador.
Em algum momento a Igreja proibiu a lavagem dentro do templo. As baianas adaptaram: passaram a lavar o adro e a escadaria, e é assim até hoje. Em 2025, a festa reuniu cerca de 2 milhões de pessoas, segundo reportagem do Brasil de Fato.
O reconhecimento oficial veio em 5 de junho de 2013, quando o IPHAN registrou a Festa do Senhor Bom Jesus do Bonfim no Livro das Celebrações. A ficha do órgão diz com todas as letras que baianas e filhas de santo lavam a escadaria. E que esse gesto expressa, ao mesmo tempo, devoção cristã e tradições do candomblé ligadas a Oxalá.
Note a inversão: o que era tarefa imposta virou a maior manifestação de fé popular do país.
A fitinha do Bonfim e a sexta-feira de branco
A fitinha apareceu em 1809, na irmandade de devoção do Bonfim, com o nome de “medida do Bonfim”. Ela tem 47 cm, a distância do braço direito ao coração da imagem do altar-mor.
No começo era de seda, usada no pescoço como colar, com medalhas e santinhos pendurados. Só depois migrou para o pulso, onde ganhou o costume das duas voltas e dos três nós, um pedido silencioso por nó. A fita cai sozinha quando os pedidos se cumprem.
A cor original é o branco, a cor de Oxalá. As outras vieram depois e seguem o mapa de correspondências do sincretismo, como registra o portal Metro1:
- Branca: Oxalá, a cor da fita de origem
- Vermelha: Iansã
- Verde: Oxóssi
Nas bancas de hoje entram ainda o azul e o amarelo, ligados pelo costume popular a Iemanjá e a Oxum.
O branco também explica a sexta-feira. Sexta é o dia de Oxalá, e o hábito de vestir branco saiu do terreiro, alcançou filhos de santo de todos os Orixás e virou costume geral em Salvador. Se você quiser entender melhor as datas de cada Orixá, vale ver o calendário dos Orixás.
O que separa o santo do Orixá
Aqui está o ponto que quase nenhum texto enfrenta. Proximidade não é igualdade.
Na teologia católica, Cristo é o próprio Deus encarnado, com morte e ressurreição históricas e função de salvar a humanidade. Na cosmologia iorubá, quem ocupa o lugar de deus supremo é Olodumare, não Oxalá. O Orixá é criatura, encarregado de moldar os seres humanos, não o criador de tudo.
Os enredos também são outros. Oxalufã sofre uma prisão injusta e é lavado por Xangô. Cristo é julgado, crucificado e ressuscita. As histórias rimam, mas não contam a mesma coisa. Um estudo publicado na revista Memorandum, da UFMG, analisa justamente como as representações de Oxalá se transformam nesse trânsito entre tradições.
Vale dizer com clareza: quem lava a escadaria hoje não acredita que Cristo e Oxalá sejam a mesma pessoa. O sincretismo foi estratégia de sobrevivência, não fusão de crenças. O culto ao Orixá seguiu vivo atrás da imagem do santo enquanto ser africano era motivo de perseguição.
Desde os anos 1980, parte das casas de santo defende a dessincretização, isto é, separar de novo o que a história juntou por necessidade. É um debate legítimo e interno, e a Joia Mística não toma partido nele. O mesmo movimento aparece em outros pares da série, como São Jorge e Ogum e Santa Bárbara e Iansã.
Perguntas frequentes
Senhor do Bonfim é qual Orixá?
O Senhor do Bonfim foi associado a Oxalá, o Orixá da criação, no candomblé ketu da Bahia. A associação não significa que sejam a mesma entidade. São duas devoções distintas que passaram a dividir a mesma data, a mesma colina e a mesma cor branca.
Quando é a Lavagem do Bonfim?
A Lavagem acontece na segunda quinta-feira de janeiro, contada a partir do Dia de Reis. O cortejo sai da Igreja da Conceição da Praia por volta das 10h e sobe até a Colina Sagrada, no Alto do Bonfim, em Salvador.
Por que a lavagem não é feita dentro da igreja?
A Igreja Católica vetou o rito no interior do templo. As baianas então passaram a lavar o adro e a escadaria, do lado de fora, e a prática se firmou assim. Hoje a escadaria lavada é a imagem mais conhecida da festa.
Qual o significado da fitinha do Bonfim?
A fitinha é a “medida do Bonfim”, criada em 1809 com 47 cm. Amarrada no pulso com três nós, carrega um pedido por nó. A cor branca é a de Oxalá, e as demais seguem as correspondências de outros Orixás.
Posso usar branco na sexta-feira sem ser do candomblé?
Pode. A sexta-feira é o dia de Oxalá e o costume de vestir branco extrapolou o terreiro há muito tempo. Feito com respeito e sem fantasia, o gesto é entendido como saudação à paz, não como apropriação.
Onde encontrar os artigos de Oxalá
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que a devoção ao velho Orixá pede:
- Velas brancas de sete dias: para a firmeza da sexta-feira
- Guias de Oxalá em contas leitosas: o colar branco tradicional
- Alfazema e águas de cheiro: as mesmas usadas nas lavagens
- Ervas de Oxalá: alecrim, lavanda e boldo para banhos de paz
- Pano e roupa branca: para o dia do Orixá e para os trabalhos da casa
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Para preparar o banho da sexta-feira, veja também o guia do alecrim, erva de Oxalá e a ficha completa de quem é Oxalá.
Referências
- iBahia: explicação do antropólogo Vilson Caetano sobre o sincretismo entre o Senhor do Bonfim e Oxalá
- Saltur (Prefeitura de Salvador): informações oficiais sobre o percurso da Lavagem do Bonfim
- Brasil de Fato: reportagem sobre a Lavagem do Bonfim de 2025
- IPHAN: ficha de registro da Festa do Senhor Bom Jesus do Bonfim no Livro das Celebrações
- Metro1: origem e tradição das fitinhas do Bonfim
- Revista Memorandum (UFMG): estudo acadêmico sobre as representações de Oxalá em trânsito entre tradições