Você visita dois terreiros de umbanda na mesma semana. Num deles o atabaque não para; no outro, o trabalho corre em silêncio, com todo mundo de branco em volta de uma mesa. A pergunta vem sozinha: algum dos dois está errado?
Nenhum dos dois. O que você viu foram vertentes da umbanda diferentes, e essa diversidade tem explicação histórica. Este guia mostra quais são as principais, o que muda de uma para outra e por que elas existem.
Linha não é vertente
Antes de tudo, é preciso desfazer a confusão mais comum do assunto.
Linha é como o trabalho se organiza dentro do terreiro. São campos de irradiação regidos por orixás, com suas falanges de caboclos, pretos-velhos e crianças. Toda casa de umbanda trabalha com linhas, e o blog já explica isso em as 7 linhas da umbanda.
Vertente é o jeito que aquela casa faz umbanda. É o que distingue um terreiro do outro: se tem atabaque, se cultua orixá com fundamento, se abre gira de esquerda.
Uma casa de umbanda branca e uma casa de omolokô trabalham as mesmas sete linhas, e mesmo assim fazem giras muito diferentes.
Por que a umbanda tem vertentes
A resposta curta: porque a umbanda nunca teve um comando único que impusesse um jeito só.
A tradição conta que tudo começou em 15 de novembro de 1908, quando o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou pela mediunidade de Zélio Fernandino de Moraes, em Niterói. Pesquisadores apontam que a codificação documental veio décadas depois, o que não retira o valor do relato para quem o vive.
Em 1941 aconteceu o Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, no Rio de Janeiro. A intenção era fixar uma doutrina única. Não funcionou, e a existência das vertentes é a prova disso.
Nos anos 1940 e 1950 a disputa ficou clara. De um lado, as federações puxavam a umbanda para perto do espiritismo e do cristianismo. De outro, o Tata Tancredo da Silva Pinto defendia publicamente a raiz africana, o atabaque e a imolação ritual.
A umbanda não se dividiu por uma briga administrativa. Ela se espalhou num gradiente, e cada casa se firmou no ponto desse gradiente onde encontrou seu jeito de trabalhar.
O sociólogo Renato Ortiz descreveu esse processo em A morte branca do feiticeiro negro, de 1978. Para ele, a umbanda nasce do encontro de dois movimentos: o embranquecimento da cultura negra e o enegrecimento da doutrina kardecista. Reginaldo Prandi organizou a mesma leitura em três chaves: sincretismo, branqueamento e africanização.
As principais vertentes da umbanda
Não existe taxonomia oficial. O próprio verbete sobre a umbanda registra que não há tipologia única ou universalmente reconhecida. O que existe são famílias de prática, nomeadas pelas próprias casas.
| Vertente | Referência | Atabaque | Imolação | Gira de esquerda | Aproximação |
|---|---|---|---|---|---|
| Branca (de mesa) | Federações, anos 1930-40 | Em geral não | Não | Em geral não | Kardecismo |
| Popular (de caboclo) | Prática anterior a 1908 | Sim | Varia | Sim | Cura e incorporação |
| Omolokô | Tancredo da Silva Pinto | Central | Sim | Sim | Candomblé de angola |
| Traçada | Termo das casas | Sim | Sim | Sim | Candomblé, em sessões separadas |
| Cruzada | Termo das casas | Sim | Varia | Central | Quimbanda |
| Esotérica | Matta e Silva, 1956 | Pouco ou nenhum | Não | Reinterpretada | Ocultismo |
| Umbanda Sagrada | Rubens Saraceni, 1996 | Varia | Não | Sim | Doutrina própria |
| Almas e Angola | Pai Luiz d’Ângelo, anos 1930 | Sim | Sim | Sim | Candomblé de angola |
Umbanda branca, também chamada de mesa, é a mais próxima do kardecismo. Médiuns de branco, foco em caboclos e pretos-velhos, pouca presença de orixá com fundamento africano.
Umbanda popular, ou de caboclo, é a que menos escreveu livros e mais existe na prática. Vem da continuidade das práticas afro-brasileiras cariocas do início do século XX, com atabaque e incorporação no centro.
Umbanda omolokô foi organizada por Tancredo da Silva Pinto no Rio de Janeiro. É a vertente que assumiu a raiz bantu e a aproximação com o candomblé de angola, tema tratado em nações do candomblé.
Umbanda traçada, às vezes chamada de umbandomblé, é o nome que as casas dão quando o mesmo sacerdote atende umbanda e candomblé, em dias e liturgias separados. As duas religiões continuam distintas, como explica umbanda e candomblé: a diferença.
Umbanda cruzada é a casa que abre gira de umbanda e gira de esquerda em dias distintos. Como o assunto já tem artigo próprio, vale ler diferença entre umbanda e quimbanda.
Umbanda esotérica foi sistematizada por W. W. da Matta e Silva, que abriu a Tenda de Umbanda Oriental e publicou Umbanda de Todos Nós em 1956. Ele se opunha à imolação e ligou a umbanda ao ocultismo ocidental.
Umbanda Sagrada é a linha de Rubens Saraceni, que fundou o Colégio de Umbanda Sagrada Pai Benedito de Aruanda em São Paulo, em 1996. A doutrina se declara independente das demais matrizes.
Almas e Angola tem codificação atribuída a Pai Luiz d’Ângelo, no Rio dos anos 1930, e se firmou na Grande Florianópolis com Mãe Ida de Xangô. Usa jogo de búzios, recolhimento e obrigações de 7, 14 e 21 anos, mas mantém pontos cantados em português.
Os critérios que separam uma casa da outra
Na prática, cinco perguntas resolvem quase toda a classificação.
- Tem atabaque? O tambor marca a proximidade com a matriz africana. A curimba na umbanda muda bastante de uma vertente para outra.
- Faz imolação ritual? É um dos divisores mais firmes. Vertentes africanizadas mantêm o fundamento; as espiritizadas não trabalham assim.
- Abre gira de esquerda? Exus e Pombagiras em dia próprio indicam casa cruzada ou africanizada.
- Cultua orixá com fundamento ou como vibração? Na branca e na esotérica o orixá aparece como energia; na omolokô e no Almas e Angola há assentamento.
- Tem iniciação com recolhimento? Obrigações longas aproximam a casa da estrutura do candomblé.
O funcionamento geral de uma sessão, que vale para todas elas, está em o que é gira de umbanda.
Umbanda branca não quer dizer umbanda mais pura
Esse é o ponto mais delicado do tema, e merece ser dito com todas as letras.
O adjetivo branca é histórico e descritivo. Ele aponta o processo de aproximação com o espiritismo e o cristianismo que Ortiz estudou, num Brasil onde a prática africana era perseguida pela polícia. Não é medida de pureza, de limpeza nem de evolução espiritual.
Tratar a umbanda branca como superior reproduz o racismo religioso que empurrou os terreiros para a clandestinidade. E o erro inverso vale igual: dizer que a omolokô é a única verdadeira e a branca é umbanda aguada é o mesmo preconceito com o sinal trocado.
Termos como traçada, cruzada e umbandomblé também são nomes de uso interno das casas. O sentido muda de região para região, e nenhum deles é categoria acadêmica fechada.
Como se situar na casa que você frequenta
Se a intenção é entender onde a sua casa se posiciona, observe sem julgar. Estes sinais bastam:
- A roupa. Branco fechado, sem guias visíveis, costuma indicar casa de mesa.
- O som. Atabaque e curimba puxam para o polo africanizado.
- O calendário. Casa que separa dia de esquerda trabalha cruzada.
- O vocabulário. Falar em assentamento e obrigação indica fundamento de candomblé de angola.
- A entrada dos guias. Caboclos e pretos-velhos aparecem em todas, e o blog explica quem são em guias da umbanda.
A pergunta mais honesta não é qual vertente é a melhor. É qual casa acolhe você, trata bem o seu desenvolvimento e tem responsabilidade com quem atende.
Perguntas frequentes
Quantas vertentes tem a umbanda?
Não existe número oficial. As listas mais usadas citam entre cinco e oito famílias de prática, como branca, popular, omolokô, traçada, cruzada, esotérica, Umbanda Sagrada e Almas e Angola. Cada casa se posiciona num gradiente, e muitas combinam características de mais de uma.
Qual a diferença entre umbanda branca e umbanda traçada?
A branca fica perto do espiritismo, com médiuns de branco, pouco ou nenhum atabaque e sem imolação. A traçada é a casa onde o mesmo sacerdote atende umbanda e candomblé, em sessões separadas, com atabaque, assentamento e fundamento de nação.
O que é umbanda cruzada?
É a casa que mantém gira de umbanda e gira de esquerda, com Exus e Pombagiras, em dias distintos do calendário. Hoje é o arranjo mais comum no Brasil. O blog trata o assunto em profundidade no artigo sobre umbanda e quimbanda.
Existe umbanda certa e umbanda errada?
Não em termos de vertente. Todas nasceram de caminhos históricos legítimos e são vividas por milhões de pessoas. O que existe é casa séria e casa mal conduzida, e isso não se mede pela vertente, e sim pela responsabilidade de quem dirige o terreiro.
Qual vertente é mais próxima do candomblé?
A omolokô e o Almas e Angola são as mais africanizadas, ambas ligadas ao candomblé de angola, de raiz bantu. Mesmo assim seguem sendo umbanda, com pontos cantados em português, caboclos, pretos-velhos e a caridade no centro da prática.
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Referências
- Revista Transversos (UERJ): artigo de Joana Bahia e Farlen Nogueira sobre a umbanda omolokô e os usos da África
- Revista Brasileira de História das Religiões (UEM): estudo biográfico sobre Matta e Silva e a umbanda esotérica
- Repositório da USP: registro do texto de Reginaldo Prandi sobre sincretismo, branqueamento e africanização
- Wikipédia: verbete Umbanda, com a ressalva de que não há tipologia única de vertentes
- Wikipédia: verbete Almas e Angola, com a codificação e as obrigações