Vodu é uma religião de matriz africana nascida entre os povos fon e ewe do antigo reino do Daomé, onde hoje ficam o Benim e o Togo. Na língua fon, a palavra quer dizer espírito ou divindade. São essas divindades, os voduns, que o culto serve, ao lado dos ancestrais da família, que continuam presentes depois da morte. A página do Vodu no site traz o resumo dessa tradição.
O que quer dizer a palavra vodu
Vodu quer dizer espírito ou divindade, e o dicionário aponta a origem da palavra no daomeano falado no antigo reino. A palavra nomeia a religião inteira e cada uma das divindades dela.
Por volta de 1900, o médico e pesquisador Raimundo Nina Rodrigues registrou o mesmo no Brasil. Para ele, vodu era palavra jeje para divindade, com o sentido que orixá tem entre os nagôs. O registro é de época e carrega o racismo científico do período, mas o dado da língua se sustenta.
Vodu ou vodum: as duas grafias estão certas
As duas formas estão dicionarizadas e mudam de função. Vodu nomeia a religião e também a divindade. Vodum, no plural voduns, é como se chama no Brasil a divindade de origem jeje. Cada casa tem sua grafia de uso, e nenhuma das duas é erro. Como as três matrizes se organizaram aqui está em nações do candomblé.
De onde vem o Vodu: o reino do Daomé e a cidade de Uidá
O Vodu vem da África Ocidental. O berço é o reino do Daomé, no sul do que hoje é o Benim. O país se chamou Daomé até 1975, e os fon vivem ali e em partes do Togo.
Em Abomé, a capital, doze reis se sucederam entre 1625 e 1900. O rei Agajá conquistou Alada em 1724 e o porto de Uidá em 1727. Uidá foi o principal porto do reino. É a capital espiritual do Vodu até hoje, com festa anual em janeiro.
O território do culto sempre foi maior que o do reino. O antropólogo Luis Nicolau Parés chama esse espaço de área vodum: ele incluía povos como os mahi e os savalu, que sofriam as incursões daomeanas sem pertencer ao reino.
O Vodu hoje no Benim e no Togo
O Vodu não é religião de museu. O governo do Benim se apresenta oficialmente como “terra de origem do Vodun” e organiza os Vodun Days em Uidá. A segunda edição foi em janeiro de 2025, perto da Porta do Não Retorno. O Estado promove ainda a Rota dos Conventos Vodun e um futuro Museu Internacional do Vodum.
A festa nacional foi instituída nos anos 1990, no governo de Nicéphore Soglo. E a data mudou há pouco tempo. Em 2024, o Benim aprovou a Lei n. 2024-32, que passou a festa das religiões tradicionais para a segunda sexta-feira de janeiro. O presidente Patrice Talon promulgou o texto em 2 de setembro daquele ano, e a norma de 1997 que organizava o feriado caiu. Boa parte do que circula em português ainda repete a data antiga.
No Togo vizinho, o Departamento de Estado dos Estados Unidos estima que 36,9% da população siga religião tradicional. O mesmo relatório diz que os praticantes do Vodu seguem sua fé livremente, com festivais apoiados pelas autoridades.
Quem são os voduns
Cada vodum tem seu domínio. No panteão jeje que chegou à Bahia, três nomes vêm na frente:
- Bessém, o vodum serpente, da família Dan
- Sogbo, o vodum do trovão, da família Hevioso
- Azonzu, o vodum da varíola, da família Sakpata
Nanã é o vodum feminino mais velho e Loko é o vodum da gameleira. Lisa, Aizan e Elegba completam os nomes mais lembrados.

Muita gente de terreiro reconhece esses nomes de outro jeito. O registro de Nina Rodrigues de 1900 já mostrava os africanos da Bahia aproximando os voduns dos orixás: Hevioso perto de Xangô, Legba perto de Elegbá, Loko perto de Iroko.
A aproximação é histórica, não é igualdade. Vodum, orixá e inquice são divindades de povos diferentes, com língua, toque e fundamento próprios, e cada casa guarda o seu.
O lado nagô desses encontros está em quem é Nanã, quem é Oxumaré, quem é Obaluaê e quem é Iroko.
O Vodu no Haiti
O vodu haitiano e o Candomblé Jeje têm a mesma origem. Vêm os dois da antiga Costa dos Escravos, onde hoje fica o Benim.
No Haiti as divindades se chamam lwa e se organizam em nações, as nanchon. As duas mais conhecidas são Rada, de lwa ligados à cura e à proteção, vindos da Ginen, e Petwo, de temperamento áspero, que nasceu no próprio Haiti, dentro das condições da escravidão.
O vocabulário é reconhecível para quem é de terreiro. O templo é o ounfò e o sacerdote é o oungan, a sacerdotisa é a manbo. A festa dos Gede começa em 2 de novembro, o mesmo dia de Finados no Brasil.
Em 4 de abril de 2003, um arrêté do presidente Jean-Bertrand Aristide reconheceu o Vodu como religião plena no Haiti. A partir dele, casamento celebrado no culto passou a ter o mesmo registro de um católico. Ainda assim, muito praticante não chama o Vodu de religião, e sim de espiritualidade vivida ao lado do catolicismo: por isso quem se declara vodouista em levantamento oficial é só 2%. A casa, o sacerdócio e o calendário de lá estão contados em vodu haitiano.
Os voduns no Brasil
No Brasil os voduns chegaram com os africanos jeje, os povos ewe da Costa dos Escravos. A divisão é a que o terreiro repete até hoje: os fon cultuam voduns, os iorubás cultuam orixás e os bantos cultuam inquices.
O peso do jeje é maior do que o número de casas sugere. O argumento central de Parés é que o modelo organizacional do candomblé de hoje veio dos especialistas religiosos jejes, no fim do século XVIII e começo do XIX. Esse modelo inclui a iniciação, a hierarquia sacerdotal, o calendário ritual e o culto de várias divindades no mesmo terreiro.
Hoje o culto está na Bahia e no Rio, onde o Jeje Mahi se expandiu a partir dos anos 1930. O Maranhão é o principal centro de preservação da cultura jeje-daomeana do país. Em São Luís, a Casa das Minas segue com o culto aos voduns do antigo Daomé e é a principal referência dele no Brasil. O Tambor de Mina e o candomblé guardam, cada um do seu jeito, o que veio de lá.
O material é o mesmo do candomblé de qualquer nação: louça, quartinha, pano, vela, dendê e erva, conforme o que a casa pedir. Na dúvida sobre a lista que o pai ou a mãe de santo passou, dá para conferir item a item pelo WhatsApp da loja. Quem é cada vodum cultuado aqui e o que muda no chão do barracão está em voduns no Brasil.
O que o cinema inventou
A imagem de boneco espetado e de zumbi tem data e endereço. Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e ocuparam o país até 1934. Foi nesse período que o Vodu virou assunto de best-seller americano.
Em 1929, William Seabrook relatou suas viagens pelo Haiti em The Magic Island. Foi ele quem importou o zumbi, como se conhece hoje, para o público americano. Três anos depois veio White Zombie (1932), o primeiro longa de zumbi, inspirado nos relatos dele. Ocupação militar, livro, filme: a linha do tempo fecha sozinha.
O estrago durou mais que os filmes. O mecanismo que virou o Vodu haitiano em enredo de terror é o mesmo que chama Exu de diabo no Brasil. As duas coisas nascem do mesmo lugar: quem não quer entender a religião do outro prefere temer. A história do objeto, do alfinete e da figura africana que existe de verdade está em boneco de vodu. Do outro lado do Golfo do México, a mesma herança virou o que é hoodoo, e a sacerdotisa mais famosa dessa história é Marie Laveau.
Perguntas frequentes
Quando surgiu o vodu?
O culto é mais antigo que o reino do Daomé, que floresceu nos séculos XVIII e XIX no sul do atual Benim. Em Abomé, doze reis se sucederam entre 1625 e 1900. Não existe data de fundação: a religião vem da vida familiar e ancestral dos povos fon e ewe.
Qual religião faz vodu?
O Vodu é religião por si, praticada no Benim, no Togo e no Haiti. No Brasil, as divindades dele são cultuadas na nação jeje do candomblé e no Tambor de Mina do Maranhão. Não é seita nem ramo de outra religião.
Vodu ou vodum: qual é o certo?
Os dois estão certos e não querem dizer a mesma coisa. Vodu nomeia a religião e também a divindade. Vodum, no plural voduns, é como se chama no Brasil a divindade de origem jeje. Cada casa tem sua grafia de uso.
Existe vodu no Brasil?
Existe, com outro nome. Os voduns chegaram com os africanos jeje e são cultuados na Bahia, no Rio desde os anos 1930 e no Maranhão. Lá, a Casa das Minas mantém o culto aos voduns do antigo Daomé.
Referências
- Interações (PUC Minas): o Vodu haitiano e o Candomblé Jeje têm a mesma origem na Costa dos Escravos
- eScholarship (Universidade da Califórnia): glossário dos lwa, das nações Rada e Petwo e do vocabulário do culto
- The Globe and Mail: o decreto de 2003 que tornou o Vodu religião no Haiti
- Dicionário Priberam: os verbetes vodu e vodum em português
- UNESCO: ficha dos Palácios Reais de Abomé, no Benim
- Assemblée Nationale du Bénin: adoção da Lei n. 2024-32, que muda a festa das religiões tradicionais
- Banouto: a promulgação da lei beninense e o texto do artigo 2
- U.S. Department of State: relatório de liberdade religiosa de 2023 sobre o Togo
- U.S. Department of State: relatório de liberdade religiosa de 2023 sobre o Haiti
- Afro-Ásia (UFBA): resenha de A formação do Candomblé, de Luis Nicolau Parés
- Ciências Sociais e Religião: Mundicarmo Ferretti sobre nações africanas no Tambor de Mina
- Museum of the Moving Image: as origens racializadas do mito do zumbi, por Kelli Weston