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Candomblé 7 min de leitura

O que é hoodoo: a magia afro-americana do sul dos EUA

Hoodoo é o sistema de magia afro-americana do sul dos Estados Unidos. Veja de onde ele veio, por que usa salmos da Bíblia e qual é a diferença para o vodu.

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Bíblia antiga aberta sobre mesa de madeira gasta, ao lado de um molho de raízes secas amarradas com barbante, um vidro escuro com rolha, moedas e uma vela acesa num pires.

Resumo

Hoodoo, também chamado de conjure ou rootwork, é o conjunto de práticas mágicas afro-americanas do sul dos Estados Unidos, de raiz centro-africana e congo. Quem atende é um especialista que trabalha para um cliente, e não uma casa com congregação.

Ele nasceu do encontro forçado das práticas africanas com o cristianismo imposto aos escravizados. Como os códigos escravistas proibiam ajuntamento, a prática se escondeu dentro da igreja, e a Bíblia virou livro de fórmula: no levantamento de Zora Neale Hurston, em 1931, os praticantes a tratavam como o maior livro de conjuro do mundo.

Hoodoo e vodu não são a mesma coisa, mesmo partindo da mesma raiz de palavra. O vodu haitiano tem templo, sacerdócio e calendário; o hoodoo é prática de especialista, sem congregação.

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7 min de leitura

Hoodoo é o conjunto de práticas mágicas dos afro-americanos do sul dos Estados Unidos, de raiz centro-africana e congo, também chamado de conjure ou rootwork. Quem trabalha é um especialista que atende um cliente e prepara para ele saquinhos de mojo, banhos e defumações. É prática de quem sabe, não de uma casa com congregação.


O que é hoodoo, em uma frase

É um sistema de magia afro-americana, e a palavra nomeia ao mesmo tempo a prática, o trabalho e quem trabalha. Conjure é o sinônimo de uso corrente e roots virou outro nome porque quase todo hoodoo doctor cura com raiz.

Aqui vale uma ressalva que a bibliografia não resolve. O National Park Service, órgão do governo americano, define hoodoo como uma tradição religiosa criada por afro-americanos escravizados. Já a pesquisadora Carolyn Morrow Long trata o hoodoo como sistema de magia distinto da religião Voudou de Nova Orleans. As duas leituras são sustentadas, e este artigo não escolhe uma: registra que o hoodoo funciona sem congregação e sem sacerdócio, e que parte dos estudiosos ainda assim o chama de religioso.

Antes de seguir, um mapa. A religião que nasceu no antigo Daomé está contada em o que é vodu, e o hoodoo é outra coisa, do outro lado do Caribe.


De onde veio o hoodoo

De gente forçada a andar. As pessoas que levaram o hoodoo para a Louisiana chegaram pelo tráfico interno de escravizados, entre as décadas de 1830 e 1850, vindas de Maryland, da Virgínia e das Carolinas, com origem sobretudo congo. Não é a mesma leva nem a mesma rota que formou o Voudou de Nova Orleans no século anterior.

Por isso a Louisiana acabou com duas coisas ao mesmo tempo. O componente mágico do Voudou virou uma variante do hoodoo na cidade, e esse hoodoo de Nova Orleans se parece com as práticas mágicas de base africana do resto do sul dos Estados Unidos.

A palavra tem parentesco com a nossa. Voodoo e hoodoo partem da mesma raiz, o vodun da língua dos povos ewe e fon, no país que hoje se chama Benim. A origem da palavra hoodoo em si é disputada: há quem ligue a roots, há quem ligue a termos oeste-africanos. O que se pode afirmar é a raiz comum do vodun.


Por que o hoodoo usa salmos

Porque a Bíblia era o único livro permitido. O hoodoo nasceu do encontro forçado das práticas africanas com o cristianismo imposto aos escravizados, e os códigos escravistas proibiam ajuntamento e criminalizavam a prática das tradições trazidas da África. O que não podia acontecer no terreiro passou a acontecer dentro da igreja negra, escondido à vista de todos.

O resultado está no levantamento que a escritora e antropóloga Zora Neale Hurston publicou em 1931: todos os praticantes que ela ouviu tratavam a Bíblia como o maior livro de conjuro do mundo, e Moisés como o maior conjurador. Daí vem o uso de salmos que aparece até hoje nas buscas em português.

Pintura de arte sacra de uma igrejinha de madeira no fim de uma estrada de terra, com luz quente nas janelas, pinheiros e campo de algodão ao redor, sob céu noturno estrelado.

Quem é de terreiro reconhece o movimento. Aqui, santo católico na frente do assentamento também foi jeito de continuar existindo enquanto a polícia batia na porta.

A professora Yvonne Chireau, do Swarthmore College, mostra que conjure e cristianismo, que parecem opostos, se atravessaram desde o começo. Não é mistura por acaso: é estratégia de sobrevivência.


Hoodoo e vodu não são a mesma coisa

A diferença mais útil é de estrutura. O vodu haitiano tem templo, salão, pilar central, sacerdote, sacerdotisa, iniciação e calendário de festas. O hoodoo não tem nada disso: tem o especialista, o cliente e o trabalho.

O Voudou de Nova Orleans, por sua vez, é religião, com congregação, e segue ativo na cidade, mesmo que o visitante casual só encontre tour sensacionalista e loja de souvenir. A sacerdotisa mais conhecida dele foi Marie Laveau. A confusão entre as três coisas é antiga e rende dinheiro para quem vende susto, como conta o artigo sobre o boneco de vodu.

Na prática, o vocabulário ajuda a separar:

  • hoodoo, conjure, rootwork: a prática mágica, feita por especialista para um cliente
  • root doctor: quem trabalha com raiz e remédio. Nem todo root doctor é hoodoo doctor, porque havia quem só fizesse remédio
  • mojo bag: o saquinho que o especialista prepara para uma pessoa
  • gris-gris: em Nova Orleans, o conjunto de ingredientes mágicos. O nome vem do termo gregries, da língua mende, e já aparecia entre africanos escravizados na Louisiana no começo do século XVIII

Da criminalização à prateleira

O hoodoo virou mercadoria cedo. O comércio de produtos por catálogo e correio já existia nos anos 1920, e em 1927 um homem igbo nigeriano conhecido como Dr. Pearce foi preso em St. Louis acusado de usar o correio para fraude. A perseguição e o mercado cresceram juntos.

Foi daí que nasceram as spiritual supply stores, as lojas de material espiritual que sustentam o chamado renascimento do hoodoo. A socióloga Katrina Hazzard-Donald, da Rutgers, separa a tradição antiga do que ela chama de hoodoo de balcão, o que veio depois e se vende pronto.

É essa camada comercial que o leitor brasileiro costuma encontrar primeiro, em curso de internet e em loja que promete fórmula. O fundamento não está ali.


E no Brasil?

Hoodoo é tradição dos Estados Unidos. Não há bibliografia acadêmica que registre hoodoo praticado no Brasil, e o que aparece em português é material comercial. Quem procura magia afro-diaspórica com raiz e fundamento daqui tem o que a nossa terra guardou: os orixás do candomblé, as entidades da umbanda, a Jurema e os voduns no Brasil, que chegaram com os jeje e são cultuados na Bahia e no Maranhão.

Uma nota para quem caiu aqui por engano: Hoodoo Gurus é uma banda de rock australiana formada em Sydney em 1981. Parte das buscas por hoodoo em português é por ela.


Perguntas frequentes

O que é hoodoo em português?

É o nome do sistema de magia afro-americana do sul dos Estados Unidos, também chamado de conjure ou rootwork. Em português se escreve hoodoo mesmo, que é a forma que as pessoas usam e digitam. Não existe tradução consagrada.

Hoodoo é religião?

Depende de quem responde. O National Park Service define como tradição religiosa criada por afro-americanos escravizados. A pesquisadora Carolyn Morrow Long trata como sistema de magia distinto da religião Voudou. O que as duas concordam é que não há congregação nem sacerdócio.

Qual a diferença entre hoodoo e vodu?

O vodu é religião, com templo, sacerdócio, iniciação e calendário. O hoodoo é prática de especialista para cliente, sem casa e sem congregação. As duas palavras têm raiz comum no vodun dos povos ewe e fon, mas a estrutura é diferente.

Por que o hoodoo usa salmos da Bíblia?

Porque os códigos escravistas proibiam ajuntamento e criminalizavam as tradições africanas, e a prática se escondeu dentro do cristianismo imposto. No levantamento de Zora Neale Hurston, de 1931, os praticantes tratavam a Bíblia como o maior livro de conjuro.


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