Marie Laveau foi uma mulher negra livre de Nova Orleans, nascida em 10 de setembro de 1801 e morta em 15 de junho de 1881. Ficou conhecida como a rainha do Voudou da cidade e foi católica a vida inteira, batizada, casada e com os filhos batizados na catedral de Saint Louis. As duas coisas na mesma vida, sem contradição.
Quem foi Marie Laveau
Foi a primeira da linha materna da família a nascer livre, filha de Marguerite Henry e de Charles Laveaux. Nos anos 1830 já liderava uma comunidade religiosa multirracial, dava consultas e conduzia cerimônias semanais na casa da rua St. Ann.
O Voudou de Nova Orleans que ela conduzia é parente do culto que nasceu no antigo Daomé e atravessou o Atlântico, como conta o artigo sobre o que é vodu. A página do Vodu no site mostra os outros galhos dessa mesma árvore.
Ela viveu com modéstia, ao contrário da lenda da grande fortuna. Não tinha imóvel no próprio nome, e a casa da rua St. Ann pertencia legalmente ao companheiro, Christophe Glapion.
As datas que estão no papel
A vida dela é documentada, e esse é o ponto que quase toda versão popular ignora:
- 1801: nascimento, em 10 de setembro. Seis dias depois, o Père Antoine a batiza na catedral de Saint Louis, e o registro a classifica como mulatresse
- 1819: casamento com Jacques Paris, homem livre de cor vindo do Haiti
- 1824: por volta desse ano Paris desaparece, e ela passa a viver com Christophe Glapion
- 1881: morte em casa, em 15 de junho, poucos meses antes dos oitenta anos. O funeral foi conduzido por um padre da catedral na tarde do dia seguinte, e cinco jornais da cidade, mais o New York Times, publicaram obituário
Repare no detalhe: o padre que a batizou é o mesmo tipo de registro que a enterrou. A igreja acompanhou a vida inteira dela.
As duas Maries e por que os relatos se misturam
A lenda mais persistente diz que ela foi sucedida pela filha, a chamada Marie II. Não há prova disso. A filha mais velha, Marie Héloïse Euchariste Glapion, morreu em 1862. Ou seja, dezenove anos antes da mãe, o que derruba as histórias que colocam as duas atuando juntas.
Outra história conhecida diz que ela ganhou a casa da rua St. Ann como pagamento por um trabalho que teria livrado o filho de um homem rico. A documentação mostra outra coisa: a casa foi construída e comprada de outro jeito.
E há o caso do retrato. A imagem mais reproduzida dela é uma pintura de Frank Schneider feita a partir de outro quadro, de uma mulher antes identificada como Marie Laveau. Ou seja, o rosto que o mundo inteiro conhece talvez nem seja o dela.

O que os jornais escreveram, e quando ela virou outra coisa
Em vida, ela quase não era assunto de jornal. A primeira menção conhecida é de 1850, num artigo do Picayune que a chama de cabeça das mulheres do Voudou.
Quando morreu, a maioria dos obituários a descreveu como mulher que cuidou de doente, socorreu necessitado, assistiu preso e se dedicou à igreja católica. O obituário do New York Times, naquele mesmo ano, é o momento em que a história dela vira nacional.
A lenda veio depois, em camadas. Em 1886, o escritor George Washington Cable publicou a primeira peça sobre ela depois do obituário. Entre 1894 e 1946 a fama cresceu. Foi um acréscimo de 1894 que passou a apresentá-la como cabeleireira e alcoviteira.
Quem é de terreiro conhece esse enredo. Mulher negra de religião afro-diaspórica que a imprensa transformou em personagem, e a personagem virou mais conhecida que a pessoa.
Vale um cuidado ainda hoje: nenhum documento oficial coloca Marie Laveau na Congo Square. A imagem dela liderando as danças de domingo vem de entrevistas feitas nos anos 1930 e 1940, décadas depois da morte.
O túmulo no cemitério St. Louis n. 1
Ela está sepultada na gaveta do meio do túmulo da família Laveau-Glapion, no cemitério St. Louis n. 1. O túmulo tem três gavetas e a inscrição Famille Vve Paris née Laveau. A arquidiocese de Nova Orleans, dona do cemitério, reconhece o túmulo como dela, e o registro de sepultamento do livro de 1881 a 1883 confirma o enterro.
A história de que a família teria mudado o corpo para uma gaveta de parede no cemitério St. Louis n. 2, a tal Wishing Vault, não tem apoio documental.
E os xis riscados na pedra, que aparecem em toda foto de turista? A prática mais antiga registrada é o sinal da cruz. A marca cruzada tem leitura cristã evidente. Na tradição religiosa africana, linhas cruzadas marcam um ponto de poder concentrado. Numa entrevista de 1940, o zelador do cemitério contou que gente ia quase todo dia deixar oferenda ali.
O que isso virou não foi bonito. Em dezembro de 2013, alguém pulou o muro à noite e pintou o túmulo de rosa com tinta látex. A restauração completa foi feita em parceria entre a organização Save Our Cemeteries e a arquidiocese.
Se você for visitar: desde 1º de março de 2015, ninguém entra no cemitério St. Louis n. 1 sem guia de turismo licenciado e cadastrado. É um dos túmulos mais visitados dos Estados Unidos, e marcar a pedra não é devoção, é dano ao patrimônio.
Voudou e catolicismo na mesma vida
Ela não escolheu entre as duas coisas. E é isso o mais interessante da história dela. Liderava cerimônias semanais na própria casa e, ao mesmo tempo, era madrinha de batismo do sobrinho e da neta na catedral.
Quem é de candomblé ou de umbanda reconhece o arranjo. Santo católico na frente, fundamento africano atrás, e a vida seguindo. O marido dela, Jacques Paris, era homem livre de cor vindo do Haiti, da terra onde a mesma raiz virou o vodu haitiano.
Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas. O Voudou de Nova Orleans é religião, com congregação. Já o hoodoo é sistema de magia praticado por especialistas para clientes. Gris-gris, palavra que aparece em toda história sobre ela, nomeia em Nova Orleans um conjunto de ingredientes mágicos, e o nome vem do termo gregries, da língua mende.
Marie Laveau na televisão e no turismo
Ela é personagem de American Horror Story: Coven, vivida por Angela Bassett, numa versão que incorpora vários exageros da lenda. É por aí que a maior parte do público brasileiro chega ao nome dela.
Em Nova Orleans, o visitante casual encontra tour sensacionalista e loja de souvenir. Enquanto isso, congregações de Voudou seguem ativas na cidade, longe da vitrine. O museu do French Quarter, aberto desde 1972, vende ingresso, souvenir e passeio guiado: serve como exemplo do fenômeno, não como fonte.
A indústria do susto em torno dessa religião tem data de nascimento, e é a mesma do boneco de vodu: os Estados Unidos ocuparam o Haiti de 1915 a 1934, e foi nesse período que o cinema fabricou o clichê.
Perguntas frequentes
Quem foi Marie Laveau?
Mulher negra livre de Nova Orleans, nascida em 1801 e morta em 1881, conhecida como rainha do Voudou da cidade. Liderava uma comunidade religiosa multirracial desde os anos 1830 e era católica praticante, batizada e casada na catedral de Saint Louis.
Como Marie Laveau morreu?
Morreu em casa, de causas naturais, em 15 de junho de 1881, poucos meses antes de completar oitenta anos. O funeral foi conduzido por um padre da catedral no dia seguinte, e cinco jornais da cidade publicaram obituário.
Existiu uma Marie Laveau II?
Não há prova. A sucessão pela filha é lenda persistente e sem apoio documental. A filha mais velha, Marie Héloïse, morreu em 1862, dezenove anos antes da mãe.
Marie Laveau é cultuada no Brasil?
Não. Ela é figura histórica de Nova Orleans, e não entidade de terreiro brasileiro. Não tem ponto, não tem gira e não faz parte do panteão do candomblé nem da umbanda. Quem quiser as entidades daqui encontra no candomblé.
Referências
- 64 Parishes (Louisiana Endowment for the Humanities): o verbete Marie Laveau, de Carolyn Morrow Long
- Carolyn Morrow Long: o estudo sobre o túmulo de Marie Laveau no cemitério St. Louis n. 1
- Xavier University of Louisiana: estudo sobre como a lenda de Marie Laveau foi construída pela imprensa
- New Orleans Historical: o registro de batismo e a documentação da casa da rua St. Ann
- New Orleans Historical: onde Marie Laveau está sepultada, segundo os registros de arquivo