Chegam na gira com saias rodadas, moedas tilintando, o baralho na mão e um sorriso largo. Os ciganos na umbanda são entidades de alegria, amor e prosperidade, um dos povos mais queridos e mais buscados dos terreiros. Antes de tudo, uma distinção que muda o resto do texto: essas entidades espirituais são inspiradas no imaginário cultural cigano, mas não representam o povo Rom/cigano de verdade, um povo real, com história concreta de perseguição, que merece respeito e nada de estereótipo.
Este guia explica quem são os ciganos da umbanda, em que linha trabalham, suas cores, seu dia, a saudação, a ligação com Santa Sara Kali e como fazer uma oferenda com respeito.
Quem são os ciganos na umbanda
Os ciganos são entidades da Linha do Oriente, uma das sete linhas clássicas da umbanda. É uma das linhas de trabalho mais recentes a se firmar nos terreiros, e por isso ainda cresce em popularidade. Eles se apresentam como espíritos que viveram, em outras encarnações, dentro da cultura cigana, e trazem para a gira a leveza das estradas, a música e a liberdade.
Vale insistir no ponto do começo, porque é uma questão de respeito. A entidade cigana da umbanda é uma construção espiritual e simbólica, não uma fotografia do povo Rom histórico, como observa o verbete sobre os ciganos na umbanda. Reduzir o cigano de verdade a clichês de “quem rouba”, “põe praga” ou “lê a sorte para enganar” é preconceito, não religião. Na gira, o que se cultua é a vibração de amor, cura e prosperidade que a entidade carrega.
Na regência da linha aparecem Oxalá e Xangô, o calor e a luz. As falanges ciganas atuam sobretudo nas irradiações de Xangô (a justiça e o fogo firme), de Iansã, também chamada Oyá (o vento, o raio e o movimento), e de Egunitá, ligada à purificação. É a força do fogo em várias formas.
Como os ciganos trabalham na gira
O povo cigano é festivo. A gira cigana costuma ser colorida, com música, palmas e uma energia de festa que contagia. Mas a alegria não é só espetáculo: por trás dela há trabalho espiritual sério. Os principais focos dos ciganos são:
- Amor e relacionamentos: reconciliações, autoestima, cura de mágoas afetivas
- Prosperidade e finanças: abertura de caminhos para o trabalho e o dinheiro fluírem
- Liberdade: ajudar a pessoa a se soltar de amarras emocionais e situações travadas
- Cura: indicações de banhos, ervas, chás e cristais
- Orientação: conselhos de vida, muitas vezes com leitura de cartas, mãos ou búzios
Essa vidência é um atributo espiritual da entidade, uma forma de enxergar o caminho de quem procura. Como em toda a umbanda, o objetivo é orientar e fortalecer a pessoa, nunca prender ninguém a consultas ou prometer um resultado garantido. Materiais de referência sobre a linha dos ciganos reúnem os nomes, as cores e as saudações mais usados nas casas.
Dia, cores, saudação e elementos
Como acontece com todas as entidades, os detalhes variam de casa para casa, conforme o fundamento de cada terreiro. O quadro geral é este:
- Dia: varia bastante; a sexta-feira é a mais citada, mas muitas casas firmam a gira cigana em dia próprio
- Cores: vibrantes e alegres, com destaque para o dourado e a ideia das sete cores do arco-íris. O povo cigano costuma evitar o preto
- Elementos: moedas, cristais, lenços e véus, leques, xales, pulseiras e argolas, baralho cigano, perfumes, flores e frutas
- Saudação: a mais conhecida é “OPTCHA!”, que equivale a um “Salve!”. Também se ouve “Salve o Povo Cigano!” e “Salve Santa Sara Kali!”
Uma boa vela conta muito na firmeza cigana. Cada cor carrega uma intenção: rosa e vermelho para o amor, verde e dourado para a prosperidade, azul para a paz e a cura. Para entender melhor, veja o guia de como usar velas rituais.
Os nomes das falanges ciganas
Cada entidade se apresenta por um nome, e alguns são muito conhecidos nas giras:
- Ciganas: Sulamita, Esmeralda, Carmen, Carmencita, Dalila, Jade, Cristal, Sara, Rosita, Yasmin, Aurora
- Ciganos: Vladimir, Ramon, Igor, Juan, Sandro, Jacob, Aguilar, Gonçalo
Sulamita é, talvez, a cigana mais popular da umbanda brasileira, ligada à sexta-feira e aos trabalhos de amor.
Santa Sara Kali: a padroeira do povo cigano
Nenhum guia sobre ciganos fica completo sem Santa Sara Kali, ou Sara, a Negra. A tradição conta que ela era a serva cigana que acompanhava as três Marias (Maria Madalena, Maria de Jacobé e Maria Salomé) na barca sem remos que teria aportado em Saintes-Maries-de-la-Mer, no sul da França.
Sara Kali tornou-se a padroeira universal do povo cigano. Sua festa acontece em 24 e 25 de maio, quando milhares de ciganos peregrinam à cidade francesa e levam a imagem dela ao mar para o banho ritual. No Brasil, 24 de maio é o Dia Nacional dos Ciganos, instituído por decreto em 2006.
A devoção a Sara atravessou fronteiras religiosas e foi acolhida pela umbanda como figura de proteção da Linha do Oriente. É importante marcar: trata-se de uma devoção sincrética, um encontro histórico de fés, e não de uma equivalência. Santa Sara Kali não “é” um orixá. Ela é cultuada como a santa protetora do povo cigano, saudada nas giras de maio com um “Salve Santa Sara Kali!”.
Cigano da direita e Pombagira Cigana: não confunda
Aqui vive uma confusão comum. Existem duas figuras ciganas na umbanda, e elas trabalham em vibrações diferentes:
- O cigano (ou cigana) da direita: é a entidade da Linha do Oriente descrita neste guia. Trabalha com a chamada magia branca natural, feita de banhos, ervas, cristais e conselhos. Não é entidade de esquerda.
- A Pombagira Cigana: é uma Pombagira, guardiã da esquerda, que se apresenta com a estética e a roupagem ciganas. Ela é pombagira e cigana ao mesmo tempo, e atua na vibração da esquerda.
As duas são queridas e poderosas, mas não são a mesma coisa. Algumas casas descrevem a linha cigana como versátil, capaz de transitar entre a direita e a esquerda conforme o trabalho, o que enriquece ainda mais essa família espiritual. Para situar os ciganos no todo, vale ler sobre as 7 linhas da umbanda.
O que oferecer aos ciganos e como respeitar
A oferenda cigana é colorida e generosa. Os itens mais comuns são:
- Velas coloridas, na cor do pedido (amor, prosperidade, paz)
- Moedas e objetos dourados, símbolos de fartura
- Taça de vinho ou champanhe, frutas, mel, doces e pães
- Flores, perfumes, lenços e fitas coloridas
- Cristais e baralho cigano, ligados à vidência
O local (campo aberto, encruzilhada ou o próprio congá) e os detalhes mudam conforme o fundamento da casa. A regra que não muda é o respeito: pergunte à sua mãe ou pai de santo antes de firmar qualquer trabalho. A oferenda é um gesto de gratidão e conexão, não uma moeda de troca por um resultado garantido.
Firmar uma vela para Santa Sara Kali ou para a sua cigana de devoção, com uma taça e uma flor, já é um gesto simples e bonito de contato. O ritual abre o caminho; quem caminha é você.
Perguntas frequentes
Quem são os ciganos na umbanda?
São entidades da Linha do Oriente, espíritos que trazem a energia de amor, liberdade, alegria e prosperidade para a gira. São inspirados no imaginário cultural cigano, mas não se confundem com o povo Rom real. Atuam nas irradiações de Xangô e Iansã, ajudando em questões de amor, dinheiro e abertura de caminhos.
Qual o dia dos ciganos na umbanda?
Varia de casa para casa, conforme o fundamento do terreiro. A sexta-feira é o dia mais citado, muito ligado à cigana Sulamita e aos trabalhos de amor. Muitas casas, porém, firmam a gira cigana em dia próprio, então o melhor é confirmar com a sua casa.
O que oferecer para os ciganos?
Cores vibrantes e itens de alegria: velas coloridas, moedas, taças de vinho ou champanhe, frutas, mel, flores, perfumes e cristais. O baralho cigano também aparece pela ligação com a vidência. Sempre com orientação da casa, e sem prometer resultado em troca.
Quem é Santa Sara Kali?
Santa Sara Kali, ou Sara, a Negra, é lembrada como a serva cigana que acompanhava as Marias na barca que aportou em Saintes-Maries-de-la-Mer, na França. É a padroeira universal do povo cigano, festejada em 24 e 25 de maio, e foi acolhida pela umbanda como protetora da Linha do Oriente.
Qual a diferença entre cigano e Pombagira Cigana?
O cigano da direita trabalha na Linha do Oriente, com banhos, ervas e conselhos. A Pombagira Cigana é uma Pombagira, guardiã da esquerda, que se apresenta com a roupagem cigana. São vibrações distintas, ainda que ambas usem a mesma estética.
Onde encontrar artigos para os ciganos
Na Joia Mística Laroyê, você encontra tudo para a sua devoção ao povo cigano e a Santa Sara Kali:
- Imagens de ciganos, ciganas e Santa Sara Kali: em resina e gesso, vários tamanhos
- Velas coloridas: para os trabalhos de amor, prosperidade e paz
- Baralho cigano e cristais: para a vidência e a firmeza do altar
- Perfumes, incensos e lenços coloridos: para as oferendas e a gira
- Guias e colares vibrantes: para uso pessoal e devoção
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Referências
- Wikipédia: verbete sobre os ciganos na umbanda
- iQuilíbrio: linha dos ciganos na umbanda, nomes e saudações
- Giras de Umbanda: 24 e 25 de maio, dia de Santa Sara