Toda erva de axé tem uma temperatura, e não é a do termômetro. No candomblé e na umbanda, as folhas se dividem em ervas quentes, mornas e frias. Essa classificação decide para que serve cada banho, como se toma e o que jamais se joga na cabeça. Errar a mão aqui não é detalhe: uma erva quente no ori pode fazer o contrário do que a pessoa buscava.
Este guia explica por que as ervas têm temperatura e quais são as quentes, mornas e frias. Também mostra a regra do ori que protege a cabeça e como montar um banho sem confundir os tipos.
Por que as ervas têm temperatura
A temperatura da erva não fala do calor da planta. Ela fala da ação energética que a folha carrega. Uma erva quente age de forma firme e cortante. Uma erva fria age de forma suave e equilibradora. A morna fica no meio, como ponte.
Essa leitura das folhas vem de longe. No candomblé, quem guarda o segredo das ervas é Ossain, o orixá das folhas. Diz o fundamento que cada orixá tem a sua folha, mas só Ossain conhece o segredo de todas, como registra o verbete de Ossaim na Wikipédia. Daí a máxima kosi ewe, kosi orisa: sem folha não há orixá.
Por isso a divisão entre quente e fria não é palpite. É parte de um saber antigo sobre o que cada folha faz. Conhecer a temperatura da erva é o primeiro passo para não usar a planta certa da forma errada.
A temperatura da erva é a sua função. Quente corta e descarrega, fria alinha e acalma. Trocar as duas é trocar o efeito do banho.
Ervas quentes: descarrego e corte
As ervas quentes servem para o trabalho pesado: descarregar energia densa, vencer demanda, cortar olho gordo e levantar quem está com o peso do mundo nas costas. São as folhas do descarrego forte.
Algumas das mais conhecidas na tradição afro-brasileira:
- Arruda: a rainha do descarrego, corta acúmulo denso. Veja o perfil da arruda, erva de Ogum e Exu.
- Guiné: parceira da arruda contra mandingas e olho gordo. Detalhes no artigo da guiné, erva de Ogum e Exu.
- Comigo-ninguém-pode: planta de barreira e proteção, tratada em comigo-ninguém-pode.
- Espada de São Jorge: corta e protege, a planta de Ogum.
- Aroeira: casca de ação firme para descarrego pesado, no guia do banho de aroeira.
Há um cuidado que vale para todas elas. A erva quente age como um ácido do astral: onde encosta, reage. Isso limpa a energia densa, mas também consome parte da energia vital de quem toma. Por isso ela nunca se usa sem motivo, e nunca se repete todo dia.
Ervas frias e mornas: equilíbrio e cabeça
As ervas frias fazem o oposto do descarrego. Elas neutralizam, alinham o ori, atraem bons fluidos e ajudam na prosperidade, no amor e no desenvolvimento da mediunidade. São ervas de paz, sem quizila com o santo.
Entre as mais usadas:
- Alecrim: proteção e renovação, a erva de Oxalá.
- Manjericão: atração e doçura, o manjericão de Oxum.
- Colônia: calma e limpeza suave, a colônia de Iemanjá e Oxalá.
- Camomila: paz e serenidade, a camomila de Ibeji e Oxalá.
- Alfazema: harmonia e limpeza fina, a lavanda de Oxalá.
- Erva-cidreira: acalma o campo, a melissa de Oxum.
As ervas mornas ficam no meio do caminho. Elas equilibram e mantêm o campo, servindo de transição entre o corte da quente e a doçura da fria. Muitas casas as usam para restaurar a energia depois de um descarrego.
A grande vantagem das frias e mornas é que elas podem ir na cabeça. É com elas que se faz o amaci, o banho que firma o ori.
A regra do ori: por que a erva quente não vai na cabeça
Existe um preceito que atravessa toda a prática do banho: a cabeça tem tratamento à parte. O ori, a cabeça espiritual, é a sede do orixá de cada um, e não se joga qualquer coisa sobre ele.
A regra prática é direta:
- Erva quente: só do pescoço para baixo, nunca no ori. Ela é forte demais para a cabeça e pode desequilibrar em vez de ajudar.
- Erva fria ou do orixá regente: essa pode ir na cabeça, com destaque para as ervas de Oxalá, o pai de todas as cabeças.
Como resume o material sobre banhos na umbanda do Diário de Umbanda, nenhum banho se joga sobre a cabeça, exceto os de ervas do orixá regente ou de Oxalá. O descarrego escorre do pescoço para baixo, levando embora o que não presta.
Esse cuidado não é superstição. A cabeça é o ponto mais sensível do corpo espiritual. Tratar o ori com folha errada é como usar produto forte demais numa pele delicada.
Como montar um banho sem errar a mão
Saber a temperatura da erva resolve a maior parte das dúvidas na hora de preparar o banho. O raciocínio é simples.
- Para descarregar (peso, olho gordo, energia densa): use ervas quentes, do pescoço para baixo. O clássico é o banho de sal grosso para descarrego, muitas vezes com arruda e guiné.
- Para elevar, atrair ou acalmar: use ervas frias e mornas, que podem incluir a cabeça. O banho de sete ervas costuma equilibrar tipos diferentes com esse fim.
- Para firmar o ori: amaci, feito com ervas frias do seu orixá, sempre na casa e com o dirigente.
Uma coisa não se faz no escuro: misturar quente e fria sem critério. As duas têm funções opostas, e juntá-las por conta própria pode anular o banho ou criar um efeito que você não queria. Quando a mistura é necessária, ela segue o fundamento da casa.
Dica de ouro: na dúvida sobre a temperatura de uma erva, não improvise no ori. Pergunte ao seu pai ou mãe de santo. O banho de fundamento é sempre orientado pela casa.
Perguntas frequentes
Quais são as ervas quentes?
As mais conhecidas são arruda, guiné, comigo-ninguém-pode, espada de São Jorge, aroeira e vence-demanda. Elas servem para descarrego forte, corte de energia densa e para vencer demandas. Como agem de forma firme, usam-se do pescoço para baixo e nunca todo dia, para não esgotar a energia vital.
Erva quente pode ser jogada na cabeça?
Não. A erva quente é forte demais para o ori e pode desequilibrar a cabeça em vez de ajudar. O descarrego se joga sempre do pescoço para baixo. Na cabeça só vão ervas frias ou as do orixá regente, com destaque para as folhas de Oxalá, o pai de todas as cabeças.
Posso misturar erva quente e fria no banho?
Não por conta própria. As duas têm funções opostas: uma corta, a outra acalma. Misturar sem critério pode anular o efeito ou criar um resultado indesejado. Quando a mistura é necessária, ela segue o fundamento da casa e a orientação do pai ou mãe de santo.
Qual a diferença entre erva quente e fria?
A diferença está na ação energética, não no calor. A erva quente descarrega, corta e levanta a energia, agindo de forma firme. A erva fria neutraliza, alinha o ori e atrai bons fluidos, agindo de forma suave. A morna equilibra e serve de ponte entre as duas.
A arruda é quente ou fria?
A arruda é uma erva quente, uma das mais usadas no descarrego. Por isso ela vai do pescoço para baixo e nunca na cabeça. É folha de ação firme, ligada a Ogum e Exu, indicada para limpar energia densa e cortar olho gordo, sempre com uso pontual, não diário.
Onde comprar ervas para banho
Na Joia Mística Laroyê, você encontra ervas frescas e secas, separadas por função:
- Ervas quentes: arruda, guiné, comigo-ninguém-pode e aroeira para descarrego
- Ervas frias e mornas: alecrim, manjericão, colônia, camomila e alfazema
- Banhos prontos: de descarrego e de elevação, preparados com axé
- Sal grosso e defumadores: para completar a limpeza do corpo e da casa
- Velas e guias: para firmar o banho no seu orixá
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Para aprofundar no valor sagrado das folhas, vale ler sobre Ossaim, o orixá das folhas, guardião do segredo de todas as ervas.
Referências
- Wikipédia: verbete sobre Ossaim, orixá das folhas
- Diário de Umbanda: artigo sobre banhos na umbanda