Exu Gira Mundo é um nome de exu guardião que aparece registrado na literatura umbandista desde pelo menos 1989 e que é cantado em ponto próprio numa casa de Curitiba. Na pesquisa do sociólogo Sulivan Charles Barros com pais e mães de santo em Brasília, ele é um dos sete exus que comandam as sete linhas da quimbanda.
O que não existe é ficha completa dele. De qual orixá ele é, com qual pombagira trabalha, qual é a cor e qual é a saudação: nenhuma fonte publicada responde. Abaixo está o que está registrado, com a origem de cada afirmação, e o que circula sem registro nenhum.
Quem é Exu Gira Mundo
Exu Gira Mundo é uma entidade da linha de esquerda da umbanda e da quimbanda. Na umbanda, os exus são entendidos como espíritos de pessoas desencarnadas. É nessa linha que também se situam as pombagiras, segundo a pesquisa de Juliana Carvalho e José Francisco Bairrão, da USP de Ribeirão Preto. Ele não é o orixá Exu do candomblé. O orixá é o mensageiro e o senhor dos caminhos, cultuado em casas de ketu com fundamento próprio. A diferença está em quem é Exu.
O que as fontes sustentam: o nome existe e é usado | pertence à linha de esquerda | comanda outros exus | é lido como nome de movimento
Antes da ficha, um contexto que muda a leitura. A palavra quimbanda se consolidou como categoria de acusação, com registros que remetem aos anos 1940, quando a umbanda buscava se apresentar como religião com doutrina própria. Boa parte do que se lê sobre exus guardiões nasceu desse movimento, e não da prática das casas.
Onde o nome aparece registrado
São três registros independentes, e vale saber o que cada um é.
O primeiro é a tábua de correspondência que Reginaldo Prandi resume no artigo “Exu, de mensageiro a diabo”, a partir de livros umbandistas de Fontenelle, Bittencourt (1989) e Omolubá (1990). Nessa tábua, Gira Mundo aparece no estrato que fica sob as ordens dos generais e que comanda outros exus. Aqui cabe a ressalva mais importante do artigo. Essa tábua é obra dos primeiros consolidadores da doutrina umbandista. Eles procuraram um nome do inferno cristão para cada qualidade e invocação de Exu. Ela é registro histórico do estigma, não descrição da identidade das entidades.
“Não faltou, entre os primeiros consolidadores da doutrina umbandista, quem se desse ao trabalho de identificar, para cada uma das inúmeras qualidades e invocações de Exu, um dos conhecidos nomes” do inferno cristão.
Reginaldo Prandi, Revista USP n. 50, 2001
O segundo registro é de casa real. A apostila de pontos de Exu do Terreiro de Umbanda Pai Maneco, em Curitiba, tem seção própria para Exu Gira Mundo. O ponto anuncia que ele chegou e que vai girar na quimbanda. Isso separa um nome de lista de livro de um nome que o povo de santo canta.
O terceiro é a pesquisa de Barros, que vem a seguir.
Chefe de uma das sete linhas, na pesquisa de Brasília
O sociólogo Sulivan Charles Barros pesquisou pais e mães de santo em Brasília. No modelo que ele descreve, às sete linhas rituais da umbanda correspondem sete linhas da quimbanda. Exu Gira Mundo é um dos sete que as comandam. Os outros seis são:
- Exu Sete Encruzilhadas
- Exu Pombagira
- Exu Tiriri
- Exu Tranca Ruas
- Exu Marabô
- Exu Pinga Fogo
No mesmo modelo, cada um desses sete comanda sete chefes de legião no plano espiritual dele.
É a fonte mais forte que existe sobre a posição dele. E é preciso dizer o que ela é: um modelo, descrito em campo numa cidade. Outras casas organizam a quimbanda por reinos e povos, como está em reinos da quimbanda. Os dois convivem, e nenhum dos dois é a regra de todas as casas.
O que o nome diz
Nome de exu não é enfeite: costuma descrever campo de atuação. O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, da USP, mostra que a maioria dos nomes dos exus da umbanda não vem da Bíblia. Eles falam de pontos de passagem, como encruzilhadas e porteiras. Falam também de intercessão entre o mundo dos vivos e dos mortos, de estados intermediários da matéria como lodo e sombra, ou da duplicidade das coisas. Para ele, isso mostra que esses exus seguem sendo seres da mediação, como o Exu africano.
Silva fala do conjunto dos nomes, não deste. Mas o método serve. “Gira Mundo” é nome de movimento, e o ponto cantado em Curitiba diz justamente que ele vai girar. Daí a ler que ele é o exu do movimento, como se fosse fundamento registrado, vai uma distância que nenhuma fonte cobre.
O que se diz dele e não tem fonte
Esta é a parte que falta nos textos que ocupam a primeira página do Google. Sete atributos que toda ficha de exu costuma trazer não têm fonte publicada no caso de Gira Mundo:
- De qual orixá ele é. Os textos da internet dizem Xangô. Nenhuma fonte aberta diz.
- Com qual pombagira trabalha. Nenhuma das fontes desta pesquisa cita par dele com pombagira alguma. O que são as pombagiras está em quem é Pombagira.
- Cor, bebida e oferenda próprias. Sem registro.
- Saudação própria. Existe a forma geral, com o nome da entidade no lugar. Não existe registro de uma saudação dele.
- Ponto riscado próprio. Sem registro, e ponto riscado não se publica como receita, pelo motivo explicado em pontos riscados de Exu.
- Número de falanges dele. Só o número do modelo de Barros, que é do modelo e não contagem de campo.
- Função específica. No mesmo trecho em que Prandi lista a divisão de trabalho entre os exus daquela tábua, dez nomes recebem função e Gira Mundo não recebe nenhuma.
A lacuna não é desleixo de pesquisa, e tem como ser medida. Duas etnografias acadêmicas de casas que nomeiam exus um a um, uma de 365 páginas e outra de 134, foram varridas página a página. Nenhuma das duas traz o nome. O verbete da Wikipédia também chama Gira Mundo de exu ligado ao movimento. No mesmo parágrafo, ele carrega a marcação de que carece de fontes, datada de agosto de 2024.
Isso não prova que o nome não é cultuado. Prova que não há registro publicado dos atributos, e que quem afirma cor, dia e orixá está preenchendo lacuna por conta própria.
O dia e a gira
Não existe fonte para o dia de Exu Gira Mundo. O que existe é registro de campo sobre o dia da linha. Pesquisadores da USP acompanharam um ritual numa casa da zona rural de Ribeirão Preto. Ali, a sexta-feira em noite de lua cheia aparece como dia e hora recomendados para os trabalhos da esquerda. É o costume daquela casa. Isso muda de casa para casa. Como a gira funciona está em gira de quimbanda.
Quem é da casa segue o que o dirigente determinar. Firmeza e assentamento se fazem na casa, com o pai ou a mãe de santo, e este artigo não ensina a fazer: o assunto está tratado, com os cuidados que ele exige, em assentamento de Exu.
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Perguntas frequentes
Exu Gira Mundo trabalha com qual orixá?
Não há fonte publicada que responda. Os textos que circulam na internet dizem Xangô, sem citar origem. A tábua umbandista que Prandi resume não coloca Gira Mundo sob orixá nenhum. Na prática, a resposta varia de casa para casa, e quem responde é o dirigente da sua.
Com qual pombagira Exu Gira Mundo trabalha?
Nenhuma das fontes abertas consultadas cita par de Exu Gira Mundo com pombagira alguma. Pares de exu e pombagira existem e são comuns nas casas, mas no caso dele não há registro publicado. Afirmar um par sem fonte é inventar fundamento.
O que Exu Gira Mundo faz?
O que está registrado é posição, não função. Ele comanda outros exus na tábua que Prandi resume e comanda uma das sete linhas no modelo de Barros, em Brasília. No trecho em que Prandi descreve a função de dez outros nomes, Gira Mundo não aparece.
Qual é o ponto riscado de Exu Gira Mundo?
Não existe ponto riscado dele publicado em fonte aberta. Ponto riscado é riscado pela entidade na gira, com a pemba, e não é desenho que o consulente copie de um site. O assunto está explicado em pontos riscados de Exu.
Referências
- Reginaldo Prandi, Revista USP: Exu, de mensageiro a diabo, sincretismo católico e demonização do orixá Exu, 2001
- Sulivan Charles Barros, Caminhos (PUC Goiás): Umbanda x quimbanda, o eterno dilema entre a esquerda e a direita, 2007
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: apostila de pontos de Exu, 2017
- Vagner Gonçalves da Silva, Revista de Antropologia: Exu do Brasil, tropos de uma identidade afro-brasileira nos trópicos, 2012
- Juliana Carvalho e José Francisco Bairrão, Psicologia USP: Umbanda e quimbanda, alternativa negra à moral branca, 2019
- Emerson Giumbelli e Leonardo Almeida, Revista de Antropologia: O enigma da quimbanda, 2021
- Pablício Jorge Santos Barbosa, UFRB: Exu e as memórias marginais de um samba na umbanda em Feira de Santana, 2022