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Por que usar branco no ano novo: Iemanjá e a umbanda

Usar branco no ano novo vem das festas de Iemanjá, com umbandistas de branco na praia desde os anos 1950. Veja a origem, as cores e se pode usar em 2027.

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Flores brancas na beira do mar à noite, com um barquinho de oferendas para Iemanjá, perfume e velas brancas acesas na areia.

Resumo

O branco da virada vem dos devotos de Iemanjá que iam à praia no dia 31, vestidos de branco, levando flores e oferendas ao mar. Historiadores ligam o costume à umbanda carioca e a Tata Tancredo, na passagem de 1949 para 1950.

Quem não era da religião passou a copiar o traje e o gesto de entregar flores. No candomblé ketu, o branco é a cor principal de Oxalá e a cor que todo mundo pode usar no terreiro, segundo um artigo acadêmico de 2024.

Nenhuma fonte de terreiro proíbe o branco em 2026 ou em 2027. O conselho de trocar de cor vem da numerologia e de videntes. As outras cores da virada têm orixá ligado, mas a cor de cada orixá muda de casa para casa.

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Usar branco no ano novo é um costume que saiu dos terreiros para a praia, e da praia para o Brasil inteiro. Os primeiros a passar a virada de branco na areia de Copacabana foram devotos de Iemanjá, levando flores e oferendas ao mar. Depois, quem não era da religião copiou o traje.

A história tem data, nome e um pouco de divergência entre as fontes. Abaixo está o que elas contam, o que o branco significa no terreiro e as outras cores da virada.


De onde vem o branco na virada

O costume de ocupar as praias do Rio na véspera do Ano-Novo é de meados dos anos 1940 e está ligado ao culto dos orixás, segundo o Itaú Cultural. O texto resume um artigo de 1968 do folclorista Edison Carneiro. Os devotos de Iemanjá não iam sozinhos: iam em grupo, “uniformizados com roupas brancas e em geral descalços”, com atabaques, flores e velas.

O nome mais citado é o de Tata Tancredo da Silva Pinto, líder umbandista do Rio. Segundo o historiador Luiz Antonio Simas, ouvido pela Agência Brasil, Tancredo estimulou a reunião em Copacabana na noite de 31 de dezembro, no início dos anos 1950.

“As pessoas passaram a ir à praia vestidas de branco participar da cerimônia, entregar oferendas a Iemanjá, pular sete ondinhas e fazer seus pedidos de prosperidade.” (Agência Brasil, 2023)

Uma reportagem de Edison Veiga no Correio Braziliense dá a data mais precisa: a virada de 1949 para 1950. Um pequeno grupo de umbandistas, mobilizado por Tancredo, foi à praia vestido de branco, com oferendas para lançar ao mar antes da meia-noite. O evento se chamava Flores de Iemanjá.

O historiador Diego Uchoa de Amorim fala na mesma reportagem. Ele lembra que levar flores e barcos ao mar no fim do ano já acontecia no Rio desde o fim do século XIX, em praias como Caju, Ramos e Glória. O que os umbandistas de Tancredo levaram para Copacabana foi o rito coletivo, de branco. Na revista Religare, Joana Bahia e Farlen Nogueira, da UERJ, vão na mesma linha. As umbandas organizaram o culto na praia a partir dos anos 1950, mas não é possível “creditar a um único grupo a sua origem”.


Como o branco saiu do terreiro

A pesquisadora Claudia Alexandre, da USP, explica a passagem no Correio Braziliense. Em pouco tempo, a festa atraiu simpatizantes, que iam à praia “repetindo o traje na cor branca e o gesto de entregar flores ao mar”.

Há uma divergência que vale registrar. Uma reportagem da BBC News Brasil, republicada pelo Estado de Minas, põe a popularização do branco nos anos 1970 e fala em membros do candomblé. A reportagem não cita fonte para isso. Os historiadores ouvidos pela Agência Brasil e pelo Correio Braziliense apontam a umbanda e os anos 1950.

Depois veio a festa de massa. A queima de fogos do antigo hotel Le Méridien mudou o Réveillon de Copacabana. O Itaú Cultural data os fogos no fim dos anos 1970; a Agência Brasil, em 1987. O culto a Iemanjá continuou, mas mudou de dia. Desde 2002, a Festa de Iemanjá do Mercadão de Madureira leva barquinhos de oferendas a Copacabana no dia 29 de dezembro. Ela é Patrimônio Cultural Carioca desde 2011.


O que o branco significa no terreiro

No candomblé ketu, o branco é a cor de Oxalá e a cor que todos podem vestir. O artigo de Raphael Felipe da Silva de Jesus na revista Sacrilegens, da UFJF, compila dez autores, de Edison Carneiro a Reginaldo Prandi.

“O branco é a cor mais importante dentro do Candomblé Ketu.” (Raphael Felipe da Silva de Jesus, Sacrilegens, 2024)

Roupas brancas dobradas com torço, fios de contas branco e cristal, flores brancas e um prato de canjica sobre pano branco.

O mesmo autor, numa nota, diz que quem usa branco ao visitar um terreiro “não comete gafe cromática”. É a roupa segura para qualquer visitante.

Na praia, o branco vestia quem ia saudar Iemanjá. No terreiro, ele é de Oxalá, e o azul-claro é de Iemanjá, ligado ao mar. As duas leituras convivem, e por isso tanta gente diz que o branco da virada “é de Oxalá”. Nas casas ouvidas por uma reportagem do ICL Notícias, porém, o Natal e a virada não aparecem como dia de Oxalá: uma casa de umbanda faz a canjica de Oxalá na última gira do ano, e outras casas dizem que não comemoram o Natal. O dia de Oxalá na semana e no ano está em dia de Oxalá. Quem é o pai da criação está em quem é Oxalá, e a rainha do mar em quem é Iemanjá.


As outras cores da virada e os orixás

A tabela abaixo segue o levantamento da Sacrilegens para o candomblé ketu. Ela mostra a primeira cor de cada orixá e outras que aparecem nos autores.

CorOrixá ligado no ketuOutras cores do mesmo orixá
BrancoOxaláazul-claro, prata
Azul-claroIemanjáprata, verde-claro, rosa
AmareloOxumazul, branco, rosa
VerdeOxóssiazul, amarelo
Azul-escuroOgumverde, vermelho
VermelhoXangô e Iansãbranco, marrom
RoxoNanãbranco, azul-escuro

O mesmo artigo avisa que “não há uso certo ou errado de cores na tradição”, só usos diferentes. O exemplo é Oxóssi: nos terreiros da Bahia ele veste mais azul, e nos do Rio, mais verde, segundo Raul Lody.

A lista completa, com as nações, está em cores dos orixás. Para escolher a cor pelo que você quer do ano, o teste cor da roupa do ano novo sugere uma em cinco perguntas.


Pode usar branco no ano novo de 2027?

Pode. Nenhuma fonte de terreiro que consultamos proíbe o branco na virada, em 2026 ou em 2027. O conselho de trocar de cor vem da numerologia e de videntes. Para a virada de 2026, eles apostavam no vermelho do “Ano Universal 1”.

A aposta não pegou. Um texto do Terra registrou que a procura por roupa branca de ano novo cresceu mais de 10% no varejo no fim de 2025, segundo dados da Shopee.

Se você é de terreiro, a regra é outra. Algumas casas pedem cor específica em obrigação, ou vetam cor por quizila do seu orixá. Nesse caso, vale o que o seu zelador orientar. As restrições mais comuns estão em quizilas no candomblé.


O que mais os devotos fazem na virada

A virada dos umbandistas de Tancredo tinha três gestos que continuam por aí:

  1. Entregar flores a Iemanjá. No dia 31, os devotos levam flores, perfume, arroz e bijuterias, segundo o Itaú Cultural. Hoje, prefira flores sem plástico nem papel celofane, porque o que não se desfaz volta para a areia. Os itens tradicionais estão em oferenda para Iemanjá.
  2. Pular as sete ondas. O gesto aparece na virada de Copacabana desde os anos 1950, segundo a Agência Brasil. A explicação pelas sete linhas da umbanda circula na imprensa, mas não encontramos fonte primária para ela. As hipóteses e o que levar ao mar estão em Iemanjá no ano novo.
  3. Fazer o pedido para o ano. É a parte que cada um faz do seu jeito.

Nos terreiros, a virada tem outro rito: o jogo que revela o regente do ano para a casa. Ele está em orixá regente de 2027.


Perguntas frequentes

Por que se usa branco no ano novo?

Porque os devotos de Iemanjá iam à praia de branco no dia 31 para levar oferendas ao mar. Historiadores ligam o costume à umbanda carioca e a Tata Tancredo, na virada de 1949 para 1950. Quem não era da religião passou a copiar o traje e o gesto de entregar flores.

O branco do ano novo é de Oxalá ou de Iemanjá?

Das duas coisas. Na praia, o branco vestia quem ia saudar Iemanjá. No candomblé ketu, o branco é a cor principal de Oxalá e a cor que todos podem usar no terreiro. Iemanjá tem como primeira cor o azul-claro, ligado ao mar, segundo um levantamento acadêmico de 2024. O dia de Oxalá, na semana e no ano, é outra pergunta, respondida em dia de Oxalá.

Não pode usar branco no ano novo de 2026 ou 2027?

Pode. Nenhuma fonte de terreiro consultada proíbe o branco na virada. O conselho de evitar o branco veio da numerologia e de videntes, e mesmo assim a procura por roupa branca cresceu no fim de 2025. Se a sua casa pediu outra cor por obrigação ou quizila, siga a sua casa.

Qual cor usar no ano novo segundo os orixás?

Cada cor tem um orixá ligado: amarelo de Oxum, verde de Oxóssi, azul-claro de Iemanjá, vermelho de Xangô e Iansã. Mas a cor de cada orixá muda de casa para casa, e nenhuma cor garante resultado. O teste cor da roupa do ano novo, aqui no site, sugere uma cor pelo seu pedido.


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