Usar branco no ano novo é um costume que saiu dos terreiros para a praia, e da praia para o Brasil inteiro. Os primeiros a passar a virada de branco na areia de Copacabana foram devotos de Iemanjá, levando flores e oferendas ao mar. Depois, quem não era da religião copiou o traje.
A história tem data, nome e um pouco de divergência entre as fontes. Abaixo está o que elas contam, o que o branco significa no terreiro e as outras cores da virada.
De onde vem o branco na virada
O costume de ocupar as praias do Rio na véspera do Ano-Novo é de meados dos anos 1940 e está ligado ao culto dos orixás, segundo o Itaú Cultural. O texto resume um artigo de 1968 do folclorista Edison Carneiro. Os devotos de Iemanjá não iam sozinhos: iam em grupo, “uniformizados com roupas brancas e em geral descalços”, com atabaques, flores e velas.
O nome mais citado é o de Tata Tancredo da Silva Pinto, líder umbandista do Rio. Segundo o historiador Luiz Antonio Simas, ouvido pela Agência Brasil, Tancredo estimulou a reunião em Copacabana na noite de 31 de dezembro, no início dos anos 1950.
“As pessoas passaram a ir à praia vestidas de branco participar da cerimônia, entregar oferendas a Iemanjá, pular sete ondinhas e fazer seus pedidos de prosperidade.” (Agência Brasil, 2023)
Uma reportagem de Edison Veiga no Correio Braziliense dá a data mais precisa: a virada de 1949 para 1950. Um pequeno grupo de umbandistas, mobilizado por Tancredo, foi à praia vestido de branco, com oferendas para lançar ao mar antes da meia-noite. O evento se chamava Flores de Iemanjá.
O historiador Diego Uchoa de Amorim fala na mesma reportagem. Ele lembra que levar flores e barcos ao mar no fim do ano já acontecia no Rio desde o fim do século XIX, em praias como Caju, Ramos e Glória. O que os umbandistas de Tancredo levaram para Copacabana foi o rito coletivo, de branco. Na revista Religare, Joana Bahia e Farlen Nogueira, da UERJ, vão na mesma linha. As umbandas organizaram o culto na praia a partir dos anos 1950, mas não é possível “creditar a um único grupo a sua origem”.
Como o branco saiu do terreiro
A pesquisadora Claudia Alexandre, da USP, explica a passagem no Correio Braziliense. Em pouco tempo, a festa atraiu simpatizantes, que iam à praia “repetindo o traje na cor branca e o gesto de entregar flores ao mar”.
Há uma divergência que vale registrar. Uma reportagem da BBC News Brasil, republicada pelo Estado de Minas, põe a popularização do branco nos anos 1970 e fala em membros do candomblé. A reportagem não cita fonte para isso. Os historiadores ouvidos pela Agência Brasil e pelo Correio Braziliense apontam a umbanda e os anos 1950.
Depois veio a festa de massa. A queima de fogos do antigo hotel Le Méridien mudou o Réveillon de Copacabana. O Itaú Cultural data os fogos no fim dos anos 1970; a Agência Brasil, em 1987. O culto a Iemanjá continuou, mas mudou de dia. Desde 2002, a Festa de Iemanjá do Mercadão de Madureira leva barquinhos de oferendas a Copacabana no dia 29 de dezembro. Ela é Patrimônio Cultural Carioca desde 2011.
O que o branco significa no terreiro
No candomblé ketu, o branco é a cor de Oxalá e a cor que todos podem vestir. O artigo de Raphael Felipe da Silva de Jesus na revista Sacrilegens, da UFJF, compila dez autores, de Edison Carneiro a Reginaldo Prandi.
“O branco é a cor mais importante dentro do Candomblé Ketu.” (Raphael Felipe da Silva de Jesus, Sacrilegens, 2024)

O mesmo autor, numa nota, diz que quem usa branco ao visitar um terreiro “não comete gafe cromática”. É a roupa segura para qualquer visitante.
Na praia, o branco vestia quem ia saudar Iemanjá. No terreiro, ele é de Oxalá, e o azul-claro é de Iemanjá, ligado ao mar. As duas leituras convivem, e por isso tanta gente diz que o branco da virada “é de Oxalá”. Nas casas ouvidas por uma reportagem do ICL Notícias, porém, o Natal e a virada não aparecem como dia de Oxalá: uma casa de umbanda faz a canjica de Oxalá na última gira do ano, e outras casas dizem que não comemoram o Natal. O dia de Oxalá na semana e no ano está em dia de Oxalá. Quem é o pai da criação está em quem é Oxalá, e a rainha do mar em quem é Iemanjá.
As outras cores da virada e os orixás
A tabela abaixo segue o levantamento da Sacrilegens para o candomblé ketu. Ela mostra a primeira cor de cada orixá e outras que aparecem nos autores.
| Cor | Orixá ligado no ketu | Outras cores do mesmo orixá |
|---|---|---|
| Branco | Oxalá | azul-claro, prata |
| Azul-claro | Iemanjá | prata, verde-claro, rosa |
| Amarelo | Oxum | azul, branco, rosa |
| Verde | Oxóssi | azul, amarelo |
| Azul-escuro | Ogum | verde, vermelho |
| Vermelho | Xangô e Iansã | branco, marrom |
| Roxo | Nanã | branco, azul-escuro |
O mesmo artigo avisa que “não há uso certo ou errado de cores na tradição”, só usos diferentes. O exemplo é Oxóssi: nos terreiros da Bahia ele veste mais azul, e nos do Rio, mais verde, segundo Raul Lody.
A lista completa, com as nações, está em cores dos orixás. Para escolher a cor pelo que você quer do ano, o teste cor da roupa do ano novo sugere uma em cinco perguntas.
Pode usar branco no ano novo de 2027?
Pode. Nenhuma fonte de terreiro que consultamos proíbe o branco na virada, em 2026 ou em 2027. O conselho de trocar de cor vem da numerologia e de videntes. Para a virada de 2026, eles apostavam no vermelho do “Ano Universal 1”.
A aposta não pegou. Um texto do Terra registrou que a procura por roupa branca de ano novo cresceu mais de 10% no varejo no fim de 2025, segundo dados da Shopee.
Se você é de terreiro, a regra é outra. Algumas casas pedem cor específica em obrigação, ou vetam cor por quizila do seu orixá. Nesse caso, vale o que o seu zelador orientar. As restrições mais comuns estão em quizilas no candomblé.
O que mais os devotos fazem na virada
A virada dos umbandistas de Tancredo tinha três gestos que continuam por aí:
- Entregar flores a Iemanjá. No dia 31, os devotos levam flores, perfume, arroz e bijuterias, segundo o Itaú Cultural. Hoje, prefira flores sem plástico nem papel celofane, porque o que não se desfaz volta para a areia. Os itens tradicionais estão em oferenda para Iemanjá.
- Pular as sete ondas. O gesto aparece na virada de Copacabana desde os anos 1950, segundo a Agência Brasil. A explicação pelas sete linhas da umbanda circula na imprensa, mas não encontramos fonte primária para ela. As hipóteses e o que levar ao mar estão em Iemanjá no ano novo.
- Fazer o pedido para o ano. É a parte que cada um faz do seu jeito.
Nos terreiros, a virada tem outro rito: o jogo que revela o regente do ano para a casa. Ele está em orixá regente de 2027.
Perguntas frequentes
Por que se usa branco no ano novo?
Porque os devotos de Iemanjá iam à praia de branco no dia 31 para levar oferendas ao mar. Historiadores ligam o costume à umbanda carioca e a Tata Tancredo, na virada de 1949 para 1950. Quem não era da religião passou a copiar o traje e o gesto de entregar flores.
O branco do ano novo é de Oxalá ou de Iemanjá?
Das duas coisas. Na praia, o branco vestia quem ia saudar Iemanjá. No candomblé ketu, o branco é a cor principal de Oxalá e a cor que todos podem usar no terreiro. Iemanjá tem como primeira cor o azul-claro, ligado ao mar, segundo um levantamento acadêmico de 2024. O dia de Oxalá, na semana e no ano, é outra pergunta, respondida em dia de Oxalá.
Não pode usar branco no ano novo de 2026 ou 2027?
Pode. Nenhuma fonte de terreiro consultada proíbe o branco na virada. O conselho de evitar o branco veio da numerologia e de videntes, e mesmo assim a procura por roupa branca cresceu no fim de 2025. Se a sua casa pediu outra cor por obrigação ou quizila, siga a sua casa.
Qual cor usar no ano novo segundo os orixás?
Cada cor tem um orixá ligado: amarelo de Oxum, verde de Oxóssi, azul-claro de Iemanjá, vermelho de Xangô e Iansã. Mas a cor de cada orixá muda de casa para casa, e nenhuma cor garante resultado. O teste cor da roupa do ano novo, aqui no site, sugere uma cor pelo seu pedido.
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Referências
- MATOS, Maria Clara. Itaú Cultural, 2022. Réveillon de Copacabana: a ritualização da passagem do tempo
- RODRIGUES, Léo. Agência Brasil, 2023. Réveillon no Rio começou com a umbanda, hoje afastada da festa
- BAHIA, Joana; NOGUEIRA, Farlen de Jesus. Religare (UFPB), v. 18, n. 1, 2021. A popularidade das flores à Iemanjá e a ocupação do espaço público pela umbanda omolocô
- VEIGA, Edison. Correio Braziliense, 2026. O papa negro da umbanda que inventou o Réveillon de Copacabana
- MODELLI, Lais. BBC News Brasil, republicada pelo Estado de Minas, 2021. Pular sete ondas, usar branco: a origem dos rituais de Ano Novo
- JESUS, Raphael Felipe da Silva de. Sacrilegens (UFJF), v. 21, n. 1, 2024. A cromática dos Orixás
- Terra, 2025. Pode usar branco no Ano Novo? Entenda o significado e a tendência para 2026