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Iemanjá no ano novo: o que levar ao mar e as sete ondas

Iemanjá no ano novo: por que o 31 de dezembro vai ao mar, que flores levar, o que não jogar no mar, o barco e o que se sabe da origem de pular sete ondas.

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Balaio de palha com palmas e rosas brancas sobre a areia molhada ao anoitecer, com uma vela branca acesa num buraco raso e a espuma das ondas chegando.

Resumo

Na noite de 31 de dezembro, muita gente leva flores, velas e presentes a Iemanjá na beira do mar. No Rio, a devoção vem do fim do século XIX e não tem um grupo de origem só; as umbandas organizaram o culto na praia a partir dos anos 1950.

Flores naturais, velas e perfume são os presentes mais registrados. Plástico, isopor, vidro e objeto revestido ficam fora da água, e o que o mar devolve se recolhe da areia.

Pular sete ondas aparece na virada de Copacabana nos anos 1950, mas a origem do gesto não tem registro: as explicações pelas sete linhas, pelos sete sentidos ou por tradições africanas circulam sem fonte primária.

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8 min de leitura

Iemanjá no ano novo recebe flores, velas e presentes na beira do mar, na noite de 31 de dezembro, num costume carioca que vem do fim do século XIX. As umbandas organizaram o culto na praia a partir dos anos 1950, e hoje muita gente que não é de terreiro também leva presente.

Em 2026, a virada cai de quinta para sexta-feira.


Por que Iemanjá recebe oferendas no ano novo

Porque a devoção ao mar na virada é antiga e não nasceu de um grupo só. Na revista Religare, Joana Bahia e Farlen Nogueira, da UERJ, acham flores a Iemanjá nas praias de Santa Luzia e do Russel, no Rio. Para eles, não é possível “creditar a um único grupo a sua origem”.

A imprensa nota o costume nos anos 1940. As umbandas passam a organizá-lo nos anos 1950. Labanca, citado na dissertação de Cristiane Barros (UFJF), põe o culto público “em torno de 1952” e conta como a data se fixou:

“Sem que ninguém combinasse, o último dia do ano e as primeiras horas do ano novo, ficaram sendo a data elegida pelo povo.” (Labanca, citado por Barros, 2006)

O historiador Luiz Antonio Simas aponta Tata Tancredo como o grande estimulador da ocupação das praias no dia 31. A história dele está em por que usar branco no ano novo. Para a roupa, há o teste cor da roupa do ano novo.

A virada também não ficou só no Rio. Pierre Verger escreveu que no Rio, em Santos e em Porto Alegre o culto de Iemanjá “é muito intenso durante a última noite do ano”. Foi ali que ele viu a Iemanjá branca dos umbandistas, assunto de imagem de Iemanjá. O antropólogo Ordep Serra, da UFBA, chama a noite carioca de “o mais gigantesco rito de oferendas realizado no Brasil”. A ficha da orixá está em quem é Iemanjá.


O que levar a Iemanjá na virada

Quando: noite de 31 de dezembro | Onde: beira do mar | Mais citados: flores, velas, perfume, champanhe, manjar e melão

Flores, velas e perfume são os presentes que mais aparecem. O Itaú Cultural, que resume um texto do folclorista Edison Carneiro de 1968, lista flores, perfume, arroz, carne de ovelha e bijuterias. Em 2023, a Agência Brasil contou flores, velas, champanhe, manjar e melão.

Nas flores, a Radioagência Nacional fala “principalmente” em palmas. A FUCESP lista rosas brancas e perfume de colônia. Cici de Oxalá, ouvida pela Mongabay, avisa para não perfumar as rosas com alfazema, “senão mata as rosas”.

A vela varia de casa para casa. O Terreiro Pai Maneco, de Curitiba, monta o amalá de Iemanjá com 7 velas brancas e 7 azuis. É regra dessa casa.

Quer conferir o material que a sua casa pediu, como vela branca ou azul-clara, rosas e perfume? A Joice tira a dúvida pelo WhatsApp. O passo a passo da oferenda em qualquer data está em oferenda para Iemanjá, e a ferramenta qual oferenda fazer parte do pedido para chegar ao orixá.


O que não jogar no mar na virada

Plástico, isopor, vidro e objeto revestido ficam fora da água. A Prefeitura de Salvador e a Limpurb pedem flores 100% naturais, velas de cera vegetal e pentes de madeira. E mandam evitar souvenir, “materiais plásticos e objetos revestidos ou feitos de papel”.

Na Colônia de Pesca Z1, em Salvador, balaio de plástico é recusado. O presidente da colônia acha que 30% dos presentes não são biodegradáveis. No Rio, a Superintendência de Educação Ambiental distribuiu em 2011 o Decálogo das Oferendas. O texto foi escrito por líderes religiosos por causa do risco de velas, garrafas de vidro e potes de barro.

As pesquisas acham o mesmo na areia. Em Sepetiba, no Rio, Rodrigo Rosa (UERJ) viu oferendas de “materiais de difícil degradação”. Em Tramandaí (RS), Aniceto e Scoz acharam “uma lacuna em meio à teoria e à prática”.

Uma ressalva sobre os números. Na virada de 2021 para 2022, a Comlurb recolheu 167 toneladas de lixo só em Copacabana, segundo um trabalho da UFRJ. É o lixo da festa inteira. Nenhuma fonte separa quanto dele era oferenda.

O barco de Iemanjá

Não achamos norma para barco biodegradável. Vale a regra geral: plástico e isopor ficam de fora. No Rio, o cortejo de Madureira empurra barquinhos com oferendas em direção ao mar.

Um terreiro de Canoas (RS) faz barquinhos azuis de papelão, com cerca de 40 centímetros. A Limpurb, porém, inclui objeto “feito de papel” no que se deve evitar. O material fica com a casa.


Pular sete ondas: de onde vem e de qual religião é

A origem não tem registro. A referência mais antiga que achamos é dos anos 1950: segundo a Agência Brasil, citando Simas, nessa época quem ia de branco a Copacabana passou a “pular sete ondinhas e fazer seus pedidos de prosperidade”.

Três explicações circulam, e nenhuma tem fonte primária:

  • As sete linhas da umbanda: na BBC News Brasil, cada pulo seria “o pedido a um orixá diferente”.
  • Os sete sentidos: a Alma Preta fala nos “sete sentidos da vida”.
  • Uma herança africana: a Radioagência Nacional diz que o gesto “remete a tradições trazidas pelos africanos escravizados”, sem dizer qual.

O sete pesa na umbanda. O número das linhas se deve “provavelmente, a seu valor cabalístico”, escreve Vagner Gonçalves da Silva, citado por Barros. Um acervo da Duke University dá o 7 como número sagrado de Iemanjá. Nada disso mostra de onde vêm as ondas.

E de qual religião é? O primeiro registro é da virada umbandista de Copacabana. Depois, virou costume de quem passa o ano na praia, de terreiro ou não. Pular é gesto de fé, sem número certo de pedidos e sem promessa de resultado.

Pintura de Iemanjá de costas, de vestes azul-claras e prata, sobre as ondas à meia-noite, com flores brancas boiando em direção a ela e velas acesas na areia ao longe.


A virada fora de Copacabana

Madureira, dia 29. Desde 2002, a Festa de Iemanjá do Mercadão de Madureira sai no dia 29 de dezembro para Copacabana. É Patrimônio Cultural Carioca desde 2011. Em 2026, o dia 29 cai numa terça-feira.

Salvador. Serra registra pequenos presentes na orla no dia 31. Outrora, alguns terreiros da cidade faziam nessa data as suas principais oferendas a Iemanjá.

Santos e Porto Alegre. Verger põe as duas cidades ao lado do Rio na última noite do ano. Em São Paulo, a festa cai no dia 31 em Santos e em 8 de dezembro na Praia Grande, segundo o trabalho da UFRJ. O 8 de dezembro é a festa dos terreiros de umbanda, assunto de Iemanjá na umbanda.

Longe do mar. Vallado lembra a festa no lago Paranoá, em Brasília. Todo 31, escreve ele, “milhares de pessoas” vão às praias de toda a costa.


Se o mar devolver a oferenda

Recolha o que voltou para a areia. Verger registrou que, “segundo a tradição”, a oferenda aceita deve mergulhar até o fundo. Na Colônia Z1, quando as cestas afundam, “é sinal positivo”.

Mãe Ângela, iyalorixá de Canoas, diz que Iemanjá, da calmaria à ressaca, “tira e leva o que quiser, inclusive seus presentes”.

Muita gente entra no mar. Para os filhos de santo, escreve Barros, as águas purificam, e no banho eles pedem a Iemanjá fartura, saúde e coragem. O regente do ano, assunto de cada casa na virada, está em orixá regente de 2027.


Perguntas frequentes

Pular 7 ondas é de qual religião?

O primeiro registro é da virada dos umbandistas de Copacabana nos anos 1950, segundo a Agência Brasil. Hoje é costume de quem passa o ano na praia, de terreiro ou não. A origem não tem registro, e as explicações circulam sem fonte primária.

Que flores dar a Iemanjá no ano novo?

Flores naturais, sem embrulho de plástico. A Radioagência Nacional cita principalmente palmas, e a FUCESP lista rosas brancas. Cici de Oxalá avisa para não perfumar as rosas com alfazema. A cor e a quantidade seguem a regra da sua casa.

Pode jogar oferenda no mar?

Pode, com material que se desfaz. A Prefeitura de Salvador pede flores naturais, velas de cera vegetal e pentes de madeira, e manda evitar plástico e objeto revestido ou feito de papel. Vidro e isopor ficam de fora, e o que voltar à areia se recolhe.

Por que a festa de Madureira é no dia 29?

Há quem diga que a data evita a multidão de Copacabana no dia 31. Para Simas e Ivanir dos Santos, ouvidos pela Agência Brasil, não foi mera escolha: os terreiros foram se afastando do dia 31 quando a festa virou show de fogos.


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