Talvez nenhum orixá seja tão conhecido e amado no Brasil quanto Iemanjá, a Rainha do Mar. No réveillon, milhões de pessoas, religiosas ou não, atiram flores brancas às ondas em sua homenagem. Mãe acolhedora e poderosa, ela é a senhora das águas salgadas e, segundo a tradição, a Grande Mãe de quase todos os orixás.
Este artigo traça o perfil completo de Iemanjá: quem ela é, a mitologia que a torna mãe dos deuses, as suas cores e símbolos, as suas qualidades e o sincretismo plural que a liga a várias santas e datas pelo país. Tudo com respeito à tradição e à sua casa, o mar.
Quem é Iemanjá
Iemanjá é a iabá, a orixá feminina, que reina sobre as águas salgadas, os mares e os oceanos. Seu nome vem do iorubá Yèyé omo ejá, que significa “mãe cujos filhos são peixes”, uma bela imagem da sua maternidade infinita. Na África, entre o povo egbá da atual Nigéria, ela era ligada a um rio. Foi na travessia da diáspora, na dor e na esperança dos africanos escravizados, que ela se tornou o imenso mar brasileiro e ganhou o título de Rainha.
Seus domínios são a maternidade, a fecundidade, a família e a proteção. É ela quem ampara os pescadores e jangadeiros que vivem do mar, e quem, segundo a tradição, cuida de uma das partes mais sagradas de cada pessoa: o ori, a cabeça espiritual. Por isso é chamada com tanto carinho de Grande Mãe, aquela que acolhe a todos no seu colo de água.
“Odoyá!” Esta é a saudação que ecoa nas praias e nos terreiros, um chamado de amor e respeito à mãe das águas, a senhora do grande rio que virou mar.
A mãe dos orixás
Conta a mitologia iorubá, registrada por pesquisadores como Reginaldo Prandi, que do ventre de Iemanjá nasceram muitos dos orixás. Entre os mais citados estão Xangô, Ogum, Oxóssi, Iansã, Oxumaré e os Ibejis, os gêmeos. É essa imagem que faz dela a Grande Mãe, a origem de boa parte do panteão.
Vale, porém, uma ressalva honesta. As genealogias dos orixás variam conforme a fonte e a nação, e nem toda relação é de mãe e filho: algumas tradições, por exemplo, ligam Iemanjá e Xangô como esposos, não como mãe e filho. A mitologia não é um documento fechado, e sim um tesouro de muitas versões. O que todas guardam em comum é a grandeza materna da orixá, aquela de quem o axé brota como a vida brota do mar, e diante de quem todo o panteão se curva com respeito de filho.
A ficha de Iemanjá
Conhecer os símbolos da Rainha do Mar ajuda a entender a sua energia. Lembrando que tudo varia conforme a casa e a nação, estes são os elementos mais tradicionais:
- Cores: o azul-claro, o branco e o prata ou cristal.
- Dia: o sábado, na maioria das casas.
- Saudação: “Odoyá!”, também grafado Odô Iyá.
- Símbolos: o abebê, o leque prateado com um espelho ao centro, além de conchas, estrelas, pérolas, âncoras e a figura da sereia.
- Oferendas: rosas e flores brancas ou azuis, perfume, espelho, pente, joias e o manjar branco, entregues à beira-mar com devoção.
São objetos que falam de realeza, beleza e do brilho prateado das águas sob a lua. Cada um deles é uma forma de dizer à Grande Mãe que ela é amada e reverenciada.
As qualidades de Iemanjá
Como acontece com os grandes orixás, Iemanjá não se manifesta de uma só forma. Existem várias qualidades, caminhos diferentes da mesma divindade, e algumas são tão distintas que certas casas quase as tratam como orixás próprios. Veja algumas das mais citadas, sempre lembrando que isso muda muito de casa para casa:
- Iemanjá Ogunté: a guerreira, dona do alfanje, ligada a Ogum, que vive onde a onda bate na pedra.
- Iemanjá Assabá: a mais velha, a fiandeira que tece o algodão sem parar.
- Iemanjá Assessu: ligada à gestação e às águas mais profundas e revoltas.
- Iemanjá Iamassê: lembrada como a mãe de Xangô, muito festejada nas festas do orixá da justiça.
Cada qualidade matiza a Grande Mãe de um jeito, mais doce ou mais guerreira, mais jovem ou mais ancestral. Por isso nenhum retrato genérico dá conta de toda a sua riqueza.
O sincretismo e as muitas datas
Aqui mora um dos pontos mais interessantes sobre a Rainha do Mar: ela não tem um só rosto católico nem uma só data. O sincretismo, nascido como estratégia de resistência dos africanos escravizados, variou de região para região.
Iemanjá é associada a Nossa Senhora dos Navegantes na Bahia e no Sul, a Nossa Senhora da Glória no Rio de Janeiro e na umbanda, e a Nossa Senhora da Conceição em Pernambuco e São Paulo. Cada lugar a vestiu com a santa que tinha mais perto do coração e do mar.
Por isso também são muitas as suas datas. A maior festa acontece em 2 de fevereiro, no Rio Vermelho, em Salvador, com mais de um século de tradição. A umbanda celebra sobretudo em 15 de agosto, e há ainda o 8 de dezembro e a virada do ano, no 31 de dezembro, quando o litoral inteiro se cobre de flores. Para entender uma dessas datas a fundo, veja o Dia de Iemanjá, e para situar todas elas no ano, o calendário dos orixás.
Iemanjá e Oxum: as duas senhoras das águas
Uma confusão muito comum é misturar Iemanjá com Oxum, já que as duas são iabás das águas. Mas elas são bem diferentes, e a distinção é simples de guardar.
| Iemanjá | Oxum | |
|---|---|---|
| Águas | Salgadas, o mar | Doces, o rio e a cachoeira |
| Domínio | Maternidade, realeza, proteção | Amor, beleza, riqueza |
| Metal | Prata | Ouro |
| Cores | Azul e branco | Amarelo e dourado |
Iemanjá é a mãe imensa do mar; Oxum é a senhora doce do rio. Para conhecer também o arquétipo de quem é da Rainha do Mar, vale ler sobre os filhos de Iemanjá.
Oferendas com respeito ao mar
Vale uma palavra de cuidado, em nome da própria Iemanjá. Nas festas, as oferendas atiradas ao mar devem evitar o plástico, o vidro, o isopor e os frascos, que poluem justamente a casa da orixá. A tradição, aliás, já ensina isso: o costume é oferecer o perfume sem o vidro e as flores soltas, sem embalagem.
Honrar a Grande Mãe é também zelar pelas suas águas. Levar flores naturais e materiais que o mar absorve, e recolher o que ficar na areia, é uma forma concreta de devoção. Muitos terreiros já orientam os seus filhos nesse sentido, e federações de umbanda e candomblé têm reforçado o pedido nas grandes festas. A fé e o cuidado com a natureza, no fim, são a mesma coisa, e quem ama o mar não o suja.
Perguntas frequentes
Quem é Iemanjá no candomblé?
Iemanjá é a iabá das águas salgadas, a Rainha do Mar e a Grande Mãe, considerada na mitologia a mãe de quase todos os orixás. No candomblé, é cultuada como senhora da maternidade, da proteção e da fecundidade, e em muitas casas é ligada ao cuidado do ori, a cabeça espiritual de cada pessoa.
Iemanjá é orixá de quê?
Iemanjá é a orixá das águas salgadas, dos mares e oceanos. Rege a maternidade, a fecundidade, a família e a proteção, e é a protetora dos pescadores e de todos que vivem do mar. É reverenciada como a Grande Mãe, símbolo de acolhimento, força e amor incondicional.
Qual é a saudação de Iemanjá?
A saudação de Iemanjá é “Odoyá!”, também grafada Odô Iyá, que evoca a mãe das grandes águas. É dita nas praias e nos terreiros como um chamado de amor e reverência à Rainha do Mar, especialmente nas festas e ao entregar as oferendas à beira da água.
Qual a diferença entre Iemanjá e Oxum?
As duas são orixás das águas, mas Iemanjá reina sobre as águas salgadas, o mar, ligada à maternidade e à realeza, com a cor azul e a prata. Oxum reina sobre as águas doces, os rios e cachoeiras, ligada ao amor e à beleza, com o amarelo e o ouro. São iabás distintas.
Qual o dia de Iemanjá?
Iemanjá tem várias datas pelo Brasil. A maior festa é em 2 de fevereiro, no Rio Vermelho, em Salvador. A umbanda celebra sobretudo em 15 de agosto, e há também o 8 de dezembro e a virada do ano, no 31 de dezembro. Na semana, o dia dela costuma ser o sábado.
Onde encontrar artigos para Iemanjá
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