A Cigana Esmeralda é uma das ciganas mais chamadas nos terreiros, e nas pesquisas ela aparece como Pombagira: a Pombagira Cigana Esmeralda. Quase tudo o que circula sobre ela na internet é lista sem fonte: cor, dia, bebida, a história da morte. As fontes dizem algo mais simples. Cada médium tem a sua cigana, com gostos próprios. Quem ensina o que ela recebe é a casa.
Quem é a Cigana Esmeralda
É uma entidade feminina da esquerda que se apresenta como cigana. Quatro pesquisas, em quatro lugares do Brasil, registram o nome:
- Num terreiro de umbanda estudado pelas psicólogas Sônia Lages e Maria Inácia D’Ávila, como “Pomba-gira Cigana Esmeralda”, entidade da “Umbanda/Quimbanda”.
- Em Porto Velho (RO), na lista das Pombagiras que a pesquisadora Nilza Lagos encontrou em terreiros de candomblé e umbanda.
- No Ceará, entre os “Exus femininos” vistos nas giras ou citados por pais de santo.
- Em Manaus, entre as entidades ciganas mais conhecidas da cidade.
Num dos casos, a Esmeralda fala de uma vida de estrada e liberdade, num país “com muita castanhola, muita alegria, muita dança”. A médium que a recebe, contam as pesquisadoras, “nada sabe dos ciganos”. Para a linha cigana como um todo, veja o artigo sobre os ciganos na umbanda.
Pombagira ou cigana do Oriente?
Depende da casa, e as próprias casas misturam. “Diferenciar ciganas de Pombagiras não é tarefa fácil”, escreve Lagos: os entrevistados “referiam-se às Pombagiras como ciganas e às ciganas como Pombagiras”. A conclusão dela serve para a Esmeralda: “ela é Pombagira e é cigana”.
Em outras casas, a linha cigana fica entre a direita e a esquerda. Uma dirigente ouvida pela USP diz que os ciganos “não gostam da esquerda nem se encaixam com a direita”. Por isso a mesma Esmeralda pode ser Pombagira Cigana numa casa. Em outra, é cigana do Oriente. Na sua casa, pergunte qual das duas ela é. Sobre a esquerda feminina em geral, veja quem é Pombagira.
De onde vem o nome Esmeralda
Nenhuma fonte diz de onde a entidade tirou o nome. O que se sabe é que, no Brasil, ele já era famoso por dois caminhos.
A Esmeralda de Victor Hugo
É a cigana do romance Notre-Dame de Paris, de 1831, uma das ciganas mais famosas da literatura. No livro, o nome vem de um amuleto. É um saquinho de seda verde com um vidro “imitant l’émeraude”, que imita uma esmeralda. Perguntada por que a chamam assim, ela responde: “Je n’en sais rien” (“não sei”).
O romance também esconde um segredo: Esmeralda nasceu Agnès, filha de uma francesa de Reims, e foi levada bebê por ciganas. A trama repete o boato europeu do cigano que rouba criança, o mesmo estereótipo que a pesquisa critica. No enredo, a cigana mais famosa da literatura nem cigana de nascimento era.
O testamento da cigana Esmeralda, do cordel
No Brasil, O Testamento da cigana Esmeralda é um folheto de cordel de Leandro Gomes de Barros, “considerado o Pai do Cordel Brasileiro”. É um livro de sonhos, linhas da mão e astros. Esteve entre os primeiros folhetos impressos na tipografia dele, no começo do século XX. Nos anos 1950 ainda se vendia como “o verdadeiro livro que dá o significado de qualquer sonho”. Em 2024, virou enredo da Imperatriz Leopoldinense.

Como a Cigana Esmeralda morreu
Não há uma história única, e há três respostas diferentes circulando:
- Na internet, a história mais repetida fala de olhos verdes, amor traído e morte por adaga “nos braços de sua própria mãe”. A própria página que a publica diz que “não existe um consenso” e que se trata de “uma lenda popular”.
- No romance de Hugo, Esmeralda morre na forca, em Paris, arrancada dos braços da mãe que tinha acabado de reencontrá-la.
- Nos terreiros, cada cigana conta a sua história na casa dela. A Cigana Dulce, numa casa de São Paulo, falou de um incêndio no acampamento; a Lola “não relata a sua morte”.
A morte da Esmeralda que você conhece é a que a sua casa conta.
O que a Cigana Esmeralda gosta
Depende da médium e da casa. As pesquisadoras que estudaram a Pombagira Cigana Esmeralda resumem assim. “Cada médium possui a sua Cigana que tem preferências quanto aos detalhes do vestido, ao modo de arrumar o cabelo, ao tipo de calçado, à bebida e ao cigarro preferidos”.
Por isso não existe, em fonte publicada, “a bebida da Esmeralda”, “a fruta da Esmeralda” ou “a flor da Esmeralda”. A lista de “vinho suave e rosas verdes” que circula nas redes não tem origem conhecida. Sobre bebida, vale a mesma regra das Pombagiras em geral: não há tabela por nome, e o artigo sobre bebida de Pombagira explica por quê.
Oferenda para a Cigana Esmeralda: o que as casas oferecem
O que se pode dizer com fonte é o que as casas estudadas oferecem às ciganas, conforme a leitura da casa.
Se a casa a trata como Pombagira Cigana: em Maracás (BA), a Pombagira Cigana recebe perfume e buquês de rosas, e “sua bebida característica é o champanhe”. Numa tenda do Rio, outra Pombagira cigana recebe rosas vermelhas, champanhe moscatel, bijuterias e maquiagem. A rosa entra aberta, como pede a esquerda; veja a rosa de Pombagira.
Se a casa a trata como cigana do Oriente: a mesa das festas ciganas estudadas tem frutas (mamão, morango, uva, maçã, melão, cereja), licores doces, vinho branco, cidra, rosas de várias cores, velas e moedas. As ciganas de uma casa gostam de “bebidas doces, como licor de hortelã”. Os detalhes estão em mesa cigana.
Nas duas leituras, a vela vai em prato firme, de cor única, longe de tecido. Quem quiser uma vela verde pelo site encontra a vela de cigano verde, de 7, 14 ou 21 dias. Taça, rosa, perfume e lenço são os objetos que mais se repetem. E a regra que vale mais que qualquer lista: pergunte à sua casa. Se quiser conferir o material que a casa pediu, a Joia Mística Laroyê ajuda pelo WhatsApp.
O que pedir à Cigana Esmeralda
Pede-se o que a casa orienta. Sem promessa de resultado. Em Porto Velho, um babalorixá ouvido por Lagos disse que as ciganas “gostam mais de trabalhar para o amor”, enquanto as Padilhas cuidam mais “das demandas e da defesa”. É fala de uma casa, não regra. Consulta com cigana é conversa e conselho. A decisão é de quem pergunta.
Esmeralda também é nome de mulher cigana de verdade. A pesquisa cita os versos de uma cigana chamada Esmeralda Liechocki, que não tem nada a ver com a entidade. A entidade é espiritual; o povo cigano é outro assunto.
Perguntas frequentes
A Cigana Esmeralda é Pombagira?
Nas quatro pesquisas que registram o nome, sim: ela aparece como Pombagira Cigana Esmeralda, em terreiros de umbanda, candomblé e quimbanda. Algumas casas a tratam como cigana do Oriente. As próprias casas misturam as duas leituras.
Qual a bebida da Cigana Esmeralda?
Não existe bebida da Esmeralda em fonte publicada. Cada médium tem a sua cigana, com a sua bebida. Nas casas estudadas, a Pombagira Cigana costuma receber champanhe, e a mesa da cigana do Oriente tem licores doces, vinho branco e cidra.
Como a Cigana Esmeralda morreu?
Não há história única. A morte por adaga nos braços da mãe é admitida como lenda até por quem a publica. A Esmeralda do romance de Victor Hugo morre na forca. Nos terreiros, cada cigana conta a sua história na casa dela.
Qual o dia e a cor da Cigana Esmeralda?
Nenhuma pesquisa registra dia ou cor própria da Cigana Esmeralda. O verde que aparece em imagens e velas vem do nome da pedra. O que vale é o que a sua casa ensina.
Referências
- Victor Hugo, Notre-Dame de Paris (1831), Project Gutenberg: texto integral em francês
- Lages e D’Ávila, Pesquisas e Práticas Psicossociais (UFSJ, 2007): Vida cigana: mulheres, possessão e transgressão
- Lagos, dissertação (UMESP, 2007): representações de gênero nas manifestações da Pombagira
- Santos e Soares, Revista Homem, Tempo e Espaço (UVA, 2007): as Pombagiras nos terreiros pesquisados
- Santos, Caderno Seminal (UERJ, 2021): A literatura de cordel e os astros
- Marques, Escritos e ditos (Humanitas, 2018): ficha do livro
- Agência Brasil (2023): Escolas vão levar lendas e encantarias ao Sambódromo em 2024
- Macedo e Bairrão, Memorandum (UFMG, 2021): O Oriente Cigano na Umbanda
- Santos, Revista Wamon (UFAM, 2020): ensaio sobre marias-padilhas, bruxas e ciganas
- Aguiar e Machado, Odeere (UESB, 2017): A pomba-gira cigana no candomblé do sertão
- Oliveira e Marques, REVER (PUC-SP, 2026): Entre a gira e as redes
- iQuilibrio: a lenda da Cigana Esmeralda, apresentada como lenda