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Santa Sara Kali: a santa negra que Roma nunca canonizou

Santa Sara Kali é a padroeira dos povos ciganos, cultuada na Camargue francesa. Veja a história, a romaria de 24 de maio e por que a Igreja não a canonizou.

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Vela colorida acesa diante de flores silvestres e um lenço estampado à beira-mar, evocando a romaria cigana na areia.

Resumo

Santa Sara Kali é a padroeira dos povos ciganos, cultuada na cripta da igreja de Notre-Dame-de-la-Mer, em Saintes-Maries-de-la-Mer, no sul da França. Kali quer dizer negra na língua romani, e o nome vem da tez escura da imagem de madeira.

Ela não é canonizada. Sara não consta no Martirológio Romano nem no calendário litúrgico, mas a veneração popular nunca foi proibida, e desde 1935 o clero local participa da procissão que leva a imagem até o mar, no dia 24 de maio.

No Brasil, a data virou o Dia Nacional do Cigano por decreto de 2006. A devoção também foi acolhida por casas de umbanda na Linha do Oriente, o que é um encontro de fés e não uma equivalência: ninguém incorpora Santa Sara.

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Todo 24 de maio, uma imagem de madeira escura sai da cripta de uma igreja fortificada no sul da França. Ela desce até o Mediterrâneo carregada nos ombros, escoltada por cavaleiros. É a festa de Santa Sara Kali, a padroeira dos povos ciganos, e a cena se repete há quase um século na pequena Saintes-Maries-de-la-Mer.

Este artigo conta a história dela: a lenda em suas versões, o santuário na Camargue, o motivo de a Igreja nunca tê-la canonizado e o caminho que a devoção fez até o Brasil.


Quem foi Santa Sara Kali

Sara é uma figura da tradição popular provençal, ligada à lenda das Três Marias. Conta-se que Maria Jacobé, Maria Salomé e um grupo de seguidores foram expulsos da Palestina após a crucificação e lançados ao mar numa barca sem remos. A barca teria chegado à costa da Camargue.

O epíteto Kali significa “negra” na língua romani, e vem da tez escura da imagem venerada na cripta. Você também encontra as formas Sara la Kali, Sara a Negra e Sara la Noire.

A imagem fica sob o coro da igreja de Notre-Dame-de-la-Mer, cercada de velas. Ela aparece coberta por dezenas de mantos coloridos, deixados por devotas como ex-voto, na mesma lógica de agradecimento que move qualquer promessa a santo.

A devoção popular a invoca como protetora dos povos ciganos, das mulheres que desejam engravidar, de quem está longe de casa e de quem se vê sem saída.


As três versões da lenda

A história de Sara não está nos evangelhos canônicos, e não existe uma versão única. Três leituras convivem, e vale conhecer todas.

  • Versão provençal católica: Sara era a serva egípcia que acompanhava as Marias na travessia e desembarcou com elas.
  • Versão romani: Sara não era serva. Era uma mulher do próprio lugar, líder de seu povo, que reconheceu as Marias e as acolheu na praia.
  • Hipótese sincrética: parte dos pesquisadores levanta que Sara a Negra seria uma cristianização de Kali, divindade do panteão hindu, trazida na memória cultural da migração vinda do norte da Índia.

Essa terceira leitura é hipótese em disputa, não fato estabelecido. A coincidência entre o epíteto romani e o nome da deusa alimenta o debate, mas as duas explicações não se confundem.

Vale registrar o que a documentação mostra. A primeira menção escrita conhecida a Sara aparece em 1521, e não há rastro firme do culto tal como o conhecemos antes do século XIX.


A Igreja canonizou Santa Sara Kali?

Não. Sara não é canonizada, não consta no Martirológio Romano e não aparece no calendário litúrgico. A tradição católica local a apresenta como companheira ou serva das Marias, e nada além disso.

Isso não significa que a Igreja proíba a devoção. A veneração popular segue livre, e a relação melhorou por etapas:

Em 1934, o arcebispo Emmanuel Coste proibiu que os ciganos carregassem a imagem de Sara na procissão. A permissão veio depois, sob o arcebispo Clément Roques, e em 24 de maio de 1935 a imagem desceu ao mar carregada por eles.

Por trás dessa virada aparece o nome do marquês Folco de Baroncelli-Javon. Ele articulou a inclusão dos ciganos na romaria entre o fim do século XIX e a década de 1930.

Milhares de devoções populares vivem exatamente nesse lugar, entre a fé do povo e o registro oficial. É o mesmo terreno de tantas devoções brasileiras a santos negros, como se vê no perfil de São Benedito.


A romaria de 24 e 25 de maio

A festa acontece na cidade de Saintes-Maries-de-la-Mer, na Camargue, região de pântanos e cavalos no delta do rio Ródano. Os romeiros chegam ao longo de vários dias, e o calendário oficial da cidade-santuário abre a programação bem antes da data central.

O roteiro dos dois dias principais é o seguinte:

  1. 24 de maio: missa pela manhã, saída da imagem de Sara da cripta à tarde e procissão até a praia.
  2. Na beira do mar: a imagem entra parcialmente na água, escoltada pelos gardians, os cavaleiros da Camargue.
  3. 25 de maio: a procissão se repete, dessa vez com as imagens de Maria Jacobé e Maria Salomé.

O santuário se consolidou bem antes disso. As relíquias atribuídas às duas Marias foram elevadas em 4 de dezembro de 1448, e é essa devoção mais antiga que dá origem ao nome da cidade.


Do sul da França ao Brasil: o Dia Nacional do Cigano

No Brasil, a data de Sara ganhou peso civil. Um decreto presidencial assinado em 25 de maio de 2006 instituiu o Dia Nacional do Cigano, celebrado todo 24 de maio justamente por ser o dia dedicado a ela. A primeira celebração oficial aconteceu em 2007.

Os povos ciganos no Brasil não formam um bloco único. Costuma-se falar de três grupos:

  • Calon: maioria no país, com trajetória ibérica. Famílias foram deportadas de Portugal para o Brasil a partir de 1574.
  • Rom: grupo majoritário na Europa central e oriental, também presente aqui.
  • Sinti: concentrados sobretudo na Alemanha, na Itália e na França.

Não existe censo confiável dessa população, e as estimativas citadas por pesquisadores e imprensa variam entre 500 mil e 1 milhão de pessoas.

O termo técnico para o racismo dirigido a esses povos é anticiganismo, e ele não é coisa do passado. Pesquisadores ciganos apontam a persistência do preconceito no acesso a serviços públicos, além do peso do imaginário de ficção que reduz famílias inteiras a caravana, tenda e adivinhação.


Santa Sara e as entidades ciganas da umbanda

Aqui mora a confusão mais comum, e a fronteira precisa ficar clara.

Santa Sara Kali é uma figura da devoção católica popular francesa. Na umbanda brasileira, ela foi acolhida como protetora simbólica da Linha do Oriente. Isso é um encontro de fés, não uma equivalência.

Ninguém incorpora Santa Sara. Ela não é guia, não é entidade de trabalho e não é orixá. As ciganas e os ciganos que descem nas giras são entidades da umbanda, com nomes, pontos e formas próprias de atuação, assunto tratado em ciganos na umbanda.

Também não confunda a devoção com a atuação de pombagira cigana, que pertence a outra linha e a outra lógica ritual.

O sincretismo, aqui como em qualquer caso, funciona como estratégia histórica de encontro entre povos, e não como um sinal de igual entre tradições distintas.


Perguntas frequentes

Santa Sara Kali é reconhecida pela Igreja Católica?

Ela não é canonizada e não aparece no Martirológio Romano nem no calendário litúrgico. A veneração popular, porém, nunca foi proibida. Desde 1935 o clero local participa oficialmente da procissão em Saintes-Maries-de-la-Mer, depois de um período de proibição no ano anterior.

Qual é o dia de Santa Sara Kali?

O dia 24 de maio, quando a imagem sai da cripta e é levada ao mar. No dia 25 a procissão se repete com as imagens de Maria Jacobé e Maria Salomé. No Brasil, o 24 de maio também marca o Dia Nacional do Cigano, por decreto de 2006.

Por que Santa Sara é chamada de Kali?

Kali quer dizer “negra” na língua romani, e o epíteto vem da tez escura da imagem de madeira venerada na cripta francesa. A semelhança com o nome da deusa hindu Kali alimenta uma hipótese de pesquisadores sobre origem indiana, que segue em disputa.

Onde fica o santuário de Santa Sara Kali?

Na cripta sob o coro da igreja fortificada de Notre-Dame-de-la-Mer, em Saintes-Maries-de-la-Mer, na região da Camargue, sul da França. A imagem fica cercada de velas e coberta por mantos deixados pelas devotas como agradecimento.

Existe oração oficial de Santa Sara Kali?

Não existe texto oficial aprovado pela Igreja. As orações que circulam na internet costumam vir de portais comerciais, sem autoria nem data. A devoção se expressa de outras formas: a saudação “Salve Santa Sara Kali”, a vela acesa e o gesto de deixar um manto junto à imagem.


Onde comprar artigos de devoção a Santa Sara Kali

Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que firma a devoção em casa:

  • Imagens em resina de Santa Sara Kali: em tamanhos variados, para altar doméstico
  • Velas coloridas: brancas, vermelhas, douradas e laranjas, em tamanhos de sete dias e votivas
  • Incensos e defumadores: mirra, jasmim, alecrim, cravo e canela
  • Tecidos e mantos: para o gesto de cobrir a imagem, no espírito do rito da cripta
  • Terços e medalhas: para quem acompanha a devoção junto do rosário

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