Quem digita tempo orixá está atrás de Tempo, também chamado Kitembo. Ele é inquice, divindade do candomblé de nação angola, e todo terreiro que se afirma de angola tem de cultuá-lo.
Este guia mostra quem é Tempo e por que a busca o chama de orixá. Também explica a bandeira branca no terreiro. E reúne o que as casas registram sobre cores, festa, saudação e oferendas.
Quem é Tempo no candomblé de angola
Tempo é um inquice, nome que a nação angola, de raiz bantu, dá às suas divindades. A diferença entre inquice e orixá está explicada em o que é um nkise.
O nome vem do vento. Em quimbundo, kitembu quer dizer ventania ou temporal, e em quicongo témbo é vento. O domínio dele é a atmosfera, o tempo que passa e um tempo sem medida, o dos mitos. Na casa estudada pelo pesquisador Pedro Cabral, Tempo é o próprio vento.
Ele tem muitos nomes. Kitembo é a grafia corrente nos terreiros e na imprensa de candomblé. A pesquisa registra ainda Kitembu, Ndembu, Dembwa, Kiamuílo e Tempo Diambanganga. São nomes da mesma divindade, e as fontes não os tratam como qualidades.
Nação: angola | Domínio: vento, atmosfera e tempo | Símbolo: bandeira branca | Cores: branco e verde | Festa: agosto
Em alguns terreiros, Tempo recebe o título de rei da nação. Os outros inquices da nação estão em inquices do candomblé de angola.
Por que a busca chama Tempo de orixá
A confusão tem três origens registradas.
A primeira é a correspondência entre nações. O dicionário de Yeda Pessoa de Castro dá Tempo como equivalente a Iroco e identificado com São Lourenço. Quem transcreve o verbete é Elizabete Umbelino de Barros, na tese sobre as línguas dos candomblés de angola, da USP.
As fontes, porém, não aproximam do mesmo jeito:
| Fonte | O que registra |
|---|---|
| Yeda Pessoa de Castro, via Barros | Equivalente a Iroco, com remissão a Loco |
| Amim, via Veridiana Machado | No jeje, Paraci e Loko; no ketu, Aruarô e Iroko |
| Inzó Dandaluna, São Paulo, via Barros | Nenhuma correspondência |
| Marlon Marcos, Correio Nagô | Tempo está para os angoleiros como Oxalufã para os nagôs |
A segunda origem é a umbanda. Há casas umbandistas que tratam Tempo como orixá e dizem isso por escrito, e daí vem parte da busca por “orixá tempo na umbanda”. Cada tradição tem seu fundamento, e este artigo fala da angola.
A terceira é a falta de estudo. A literatura clássica, centrada no ketu, quase não menciona o culto a Tempo. Em 2015, a dissertação de Veridiana Silva Machado registrava que não havia estudo específico sobre ele.
Se a sua dúvida é o orixá da árvore no ketu, o perfil está em quem é Iroko.
A bandeira branca de Tempo
Toda casa de candomblé de angola hasteia uma bandeira branca, e ela é o símbolo de Tempo. A bandeira é trocada todo ano, na festa dele, normalmente em agosto. O mastro é preparado no período da obrigação.
No terreiro Omariô de Jurema, em Barra Mansa (RJ), a bandeira é um pano de algodão branco no alto de um mastro de bambu. O mastro fica ao lado do assentamento, junto a um pé de aroeira.
O artigo de Pedro Cabral na revista da UFBA registra os sentidos que a casa dá à bandeira. Ela identifica de longe que ali é angola. Quando o vento a faz tremular, a comunidade entende que Tempo está presente. As casas contam ainda que povos da África central seguiam o vento para decidir o rumo.
“Você olha aquela bandeira, que traz um significado, então você olha de longe e vai saber que aquilo ali é uma tradição específica.”
Tata Kisanje, em entrevista a Pedro Cabral
A bandeira também tem cantiga. No Inzó Dandaluna, as festas públicas começam com a reverência à bandeira da nação angola, pendurada no mastro na entrada da casa. Outras cantigas de Tempo estão em zuelas de candomblé de angola.
A céu aberto e sob uma árvore
Os ritos dos outros inquices correm dentro dos quartos de assentamento. O de Tempo acontece a céu aberto: o espaço pode ser delimitado, mas não pode ser coberto.
O assentamento fica sob uma árvore, e não há espécie obrigatória. As casas usam são-gonçalinho, aroeira, cajueiro, mangueira ou gameleira branca. A gameleira tem a ligação mais antiga. Na África central, tembo se liga à nsanda, uma figueira, e no Brasil a gameleira branca, outro Ficus, ocupou esse lugar.
Ao lado do assentamento fica um pote de barro com água, o quartinhão. Para entender esse vasilhame, veja quartinha: o que é e para que serve. Entre os símbolos de Tempo, a pesquisa registra a grelha, a lança, a escada e as cabaças.
Esse assentamento só pode ser construído pela liderança do terreiro, que detém os fundamentos. Por isso este guia não ensina a montar nada: esse trabalho é da casa.
Cores, festa, saudação e oferendas
As cores de Tempo são o branco predominante, com detalhes em verde. O fio de contas leva miçangas verdes e brancas intercaladas, ou brancas rajadas de verde. O Terreiro Tumbensi, de Mameto Zulmira, em Lauro de Freitas (BA), usa cinza.
A festa se concentra em agosto, com destaque para o 10 de agosto, dia de São Lourenço no calendário católico. Cada terreiro tem calendário próprio. No Bate-Folha, em Salvador, a Festa de Tempo começa em 10 de agosto e dura dezesseis dias.
A saudação que aparece em fontes independentes é “Zara Tempo”. No Terreiro Loabá, em Osasco (SP), o tata puxa a saudação e todos respondem “Zaraa Tempo!”. Outras saudações da nação estão em saudações do candomblé de angola.
Entre as oferendas, a pesquisa destaca a pipoca, o milho branco e a meladinha. A meladinha é uma bebida de folhas, cana, aguardente e mel, partilhada na festa. O restante do cardápio muda de casa para casa.

Perguntas frequentes
Tempo é orixá?
Tempo é inquice, divindade do candomblé de nação angola. Parte das fontes o aproxima de Iroko, no ketu, e de Loko, no jeje, e numa casa de São Paulo não há correspondência nenhuma. Na umbanda, há casas que o chamam de orixá.
Qual é a saudação de Tempo?
“Zara Tempo” é a saudação registrada em mais de uma fonte, acadêmica e de terreiro. No Terreiro Loabá, em Osasco, a comunidade responde “Zaraa Tempo!” quando o tata puxa. Algumas casas usam também a fórmula “Tempo dia Banganga”.
Kitembo é Obaluaê?
Não. Kitembo é outro nome de Tempo, inquice da nação angola. Agosto reúne as duas devoções: é mês da festa de Tempo e também período de culto a Kavungo e Obaluaê, como registra a pesquisa de Veridiana Machado.
Qual é o dia de Tempo?
A data mais registrada é 10 de agosto, dia de São Lourenço, com festa ao longo do mês. O dia da semana varia entre as casas e não tem registro que feche. Pergunte ao terreiro que você frequenta.
Onde comprar fio de contas, quartinha e pano branco
Na Joia Mística Laroyê você encontra material para a sua casa:
- Fio de contas verde e branco, nas cores registradas para Tempo
- Quartinhas e quartinhões de barro
- Tecido de algodão branco, para a bandeira que a casa troca em agosto
- Palha da costa e cabaças
- Milho branco e milho de pipoca
Montar assentamento e preparar o mastro é trabalho da liderança da sua casa. Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Referências
- Elizabete Umbelino de Barros: Línguas e linguagens nos candomblés de nação Angola, tese, USP, 2007
- Veridiana Silva Machado: O cajado de Lemba, dissertação, USP, 2015
- Pedro Cabral: a bandeira de Kitembo, Salvador e Suas Cores, UFBA, 2024
- Inzo Tumbansi: Festa de Tempo no Bate-Folha, 2016
- Marlon Marcos: Hoje é dia do inquice Tempo, Correio Nagô, 2015