No Candomblé de Angola, é cantando que se chama o sagrado. As zuelas, também chamadas de muimbus, são as cantigas dessa nação: os cânticos em língua de matriz banto (kimbundu e kikongo) com que a comunidade saúda, louva e movimenta os inquices, as divindades cultuadas na tradição angola-congo.
Este guia explica o que são as zuelas, por que a nação Angola tem língua e toques próprios, e como as cantigas se organizam inquice por inquice, de Aluvaiá, que abre os caminhos, até Lemba, a grande paz. No fim, uma playlist reúne as cantigas para você ouvir e acompanhar. É um conteúdo explicativo e respeitoso: aqui se explica o que é e o porquê, não o como fazer, porque o fundamento é do terreiro.
O que são as zuelas (muimbus)
“Muimbu” quer dizer canto, cântico, na língua banto; “zuelar” é falar, conversar, entoar. Na prática dos terreiros de Angola, as duas palavras nomeiam a mesma coisa: as cantigas rituais que conduzem toda a liturgia. Nada acontece em silêncio: cada momento da festa, cada inquice, cada gesto tem o seu canto.
As zuelas não são “música de fundo”: são oração cantada. É por elas que a comunidade pede licença, saúda a entidade, conta os feitos dos inquices e sustenta o axé da roda. Muitas trazem palavras em kimbundu e kikongo misturadas ao português, fruto de séculos de história afro-brasileira, e é justamente por isso que a letra e o significado de cada uma merecem cuidado para serem registrados corretamente.
Por que a nação Angola tem língua e toques próprios
O candomblé não é uma religião só: é um conjunto de nações, cada uma com sua origem africana, sua língua litúrgica e seu modo de cultuar. A nação Ketu (e a Nagô) vem dos povos iorubás e cultua os orixás, em língua iorubá. A nação Angola vem dos povos bantos, de regiões da atual Angola e Congo, e cultua os inquices (do termo nkisi, plural minkisi), em língua banto.
Por isso, quem conhece as cantigas de Ketu encontra aqui outros nomes, outra sonoridade e outros toques (os ritmos tocados nos atabaques). As divindades, no entanto, guardam correspondências entre as nações: o mesmo princípio sagrado aparece como orixá em Ketu e como inquice em Angola. Entender essas correspondências ajuda muito quem está chegando.
Inquices e orixás: tabela de correspondências
A tabela abaixo reúne os principais inquices da nação Angola, o orixá a que cada um costuma corresponder na nação Ketu e o seu domínio. São as equivalências mais difundidas, lembrando que variam de casa para casa.
| Inquice (nação Angola) | Corresponde a (Ketu) | Domínio |
|---|---|---|
| Aluvaiá (Pambu Njila) | Exu | Caminhos, comunicação, passagens |
| Nkosi (Mukumbi) | Ogum | Guerra, ferro, força |
| Mutalambo, Kabila, Gongobira | Oxóssi | Caça, matas, fartura |
| Katendê | Ossain | Folhas, ervas, cura |
| Nzazi (Loango) | Xangô | Raio, trovão, justiça |
| Matamba (Bamburucema) | Iansã (Oyá) | Ventos, tempestades, eguns |
| Dandalunda, Kisimbi | Oxum / Iemanjá | Águas doces, fertilidade |
| Kaviungo (Nsumbu) | Obaluaê / Omolu | Terra, doença e cura |
| Angorô (Hongolo) | Oxumaré | Arco-íris, serpente, renovação |
| Tempo (Kitembo) | Iroko (varia) | Tempo, clima, estações |
| Lemba (Lembarenganga) | Oxalá | Criação, paz, serenidade |
Os inquices e as zuelas, na ordem da roda
A festa de Angola segue uma ordem ritual, que começa pelo dono dos caminhos e percorre os inquices um a um. As cantigas da playlist seguem, em boa parte, essa mesma sequência. Abaixo, os principais inquices, sua correspondência aproximada com os orixás de Ketu e algumas das zuelas que aparecem no acervo.
Aluvaiá (Pambu Njila): o dono dos caminhos
Como em toda casa de candomblé, tudo começa por ele. Aluvaiá, saudado também como Pambu Njila (“encruzilhada”, “boca dos caminhos”), é o inquice mensageiro, senhor das passagens, correspondente a Exu na nação Ketu. É ele quem abre a roda e leva os pedidos. Zuelas como Njila, Pambu Njila e Zuelas de Aluvaiá o saúdam logo no início.
Nkosi (Mukumbi): a força e o ferro
Nkosi, também ligado a Mukumbi, é o inquice da guerra, do ferro e da abertura de caminhos pela força, correspondente a Ogum. Vem logo depois de Aluvaiá, sustentando a frente da roda. Aparece em Zuelas de Nkosi e Hoximukumbi.
Mutalambo, Kabila e Gongobira: a caça e a fartura
O inquice caçador, senhor das matas e da fartura, correspondente a Oxóssi, é cultuado sob vários nomes e qualidades: Mutalambo, Kabila, Gongobira, Mukongo. É um dos mais cantados do acervo, em zuelas como Mutalambo, Kabila, Gongobila e Zuelas de Mukongo.
Katendê: as folhas e a cura
Katendê é o senhor das folhas e do conhecimento das ervas, sem o qual nenhuma obrigação se realiza, correspondente a Ossain. Sua presença forte no acervo (Zuelas de Katende, Kisaba Katende) lembra o lugar central da fitoterapia sagrada no candomblé.
Nzazi (Loango): o trovão e a justiça
Nzazi, ligado também a Loango, é o inquice do raio e do trovão, da justiça e do fogo, correspondente a Xangô. Cantado em Zuelas de Nzazi, Nzazi Nabulê e Luango, luango zazi.
Matamba (Bamburucema): os ventos e as tempestades
Matamba, também chamada Bamburucema, é o inquice feminino dos ventos, das tempestades e dos eguns, correspondente a Iansã (Oyá). Guerreira e senhora dos espíritos, aparece em muitas zuelas: Zuelas de Matamba, Oia Matamba ê, Bamburucema Nvulu.
Dandalunda e Kisimbi: as águas doces
Dandalunda e Kisimbi são os inquices das águas doces, da fertilidade, da beleza e da maternidade, correspondentes a Oxum e, em algumas casas, a Iemanjá. O próprio ritmo Samba Angola lhes é associado. Estão em Ndandalunda, Dandalunda e Zuelas de Ndandalunda.
Kaviungo (Nsumbu): a terra, a saúde e a doença
Kaviungo (ou Kavungo), ligado a Nsumbu, é o inquice da terra, das doenças e da cura, correspondente a Obaluaê / Omolu. Senhor severo e respeitadíssimo, é saudado em Zuelas de Nsumbu e Kavungo.
Angorô (Hongolo): o arco-íris e a serpente
Angorô, também Hongolo, é o inquice serpente, ligado ao arco-íris, à chuva e à renovação, correspondente a Oxumaré. Canta-se Zuelas de Angoro, Hongolo e Angoro da La Djina.
Tempo (Kitembo): o tempo e as estações
Tempo, ou Kitembo, é o inquice do tempo, do clima e das estações, muitas vezes representado pela árvore sagrada plantada no centro do terreiro. Aparece em Zuelas de Kitembo e Tempo (Angola).
Lemba (Nzambi): a paz e a criação
No alto de tudo está Lemba (Lembarenganga), o inquice da criação, da paz e da serenidade, correspondente a Oxalá. Ligado a Nzambi, o nome do Deus supremo na cosmovisão banto, encerra a roda em zuelas como Lemba, Zuelas de Lemba e Ô Zambi Apongo munã.
Ouça a playlist das zuelas
A playlist abaixo reúne as cantigas de Candomblé de Angola na ordem da roda, de Aluvaiá a Lemba. Use-a para ouvir, estudar e reconhecer cada inquice pelos seus muimbus.
Letras e significados, com cuidado
As zuelas misturam kimbundu, kikongo e português, e cada terreiro guarda suas variações. Por isso, estamos registrando letra e significado faixa a faixa, com calma e revisão, em vez de publicar transcrições apressadas que poriam palavras erradas em cânticos sagrados. À medida que cada cantiga for conferida, sua letra e tradução entram aqui mesmo, neste guia.
As correspondências entre inquices e orixás aqui descritas são as mais difundidas, mas variam de casa para casa e de raiz para raiz. Cada terreiro tem sua tradição, e a palavra final é sempre a do seu zelador ou zeladora de santo.
Perguntas frequentes
O que são as zuelas no Candomblé de Angola?
São as cantigas rituais da nação Angola, também chamadas de muimbus. Cantadas em língua banto (kimbundu e kikongo) misturada ao português, elas saúdam, louvam e movimentam os inquices ao longo de toda a cerimônia. São oração cantada, não música de fundo.
Qual a diferença entre inquice e orixá?
São o mesmo princípio sagrado em nações diferentes. Inquice (do quimbundo nkisi) é a divindade cultuada na nação Angola, de raiz banto; orixá é como a mesma força é chamada na nação Ketu, de raiz iorubá. Por isso Aluvaiá corresponde a Exu, Nkosi a Ogum, Dandalunda a Oxum, e assim por diante.
O que significa “muimbu”?
Muimbu quer dizer canto, música, na língua banto. Na prática dos terreiros de Angola é sinônimo de zuela: a cantiga ritual entoada para os inquices.
Em que língua são cantadas as zuelas?
Em kimbundu e kikongo, línguas bantas trazidas de Angola e do Congo, muitas vezes mescladas ao português. Por isso a transcrição da letra e a tradução exigem cuidado e conhecimento de raiz.
Candomblé de Angola é o mesmo que Umbanda?
Não. O Candomblé de Angola é uma nação do candomblé, religião iniciática de culto aos inquices, de origem banto. A Umbanda é uma religião brasileira distinta, que nasceu no século XX e tem outra estrutura. Entenda melhor na nossa comparação entre Umbanda e Candomblé.
Para a sua devoção
Na Joia Mística Laroyê você encontra velas, guias, imagens, ervas e os artigos para o culto aos inquices e orixás. Veja também as cantigas de candomblé Ketu, com letra e significado, e fale com a gente pelo WhatsApp para o que precisar na sua caminhada.