Quem é Oxóssi: o orixá da caça e da fartura, também chamado Odé. Na tabela do sociólogo Reginaldo Prandi, ele é o “orixá da caça (fauna)”, ligado às florestas e à “fartura de alimentos”. Senhor da mata e do conhecimento das folhas, ele não é a figura da violência, e sim a do provedor: aquele que garante o alimento e volta da floresta com o sustento nas mãos.
O dia dele é a quinta-feira, a saudação é “Okê arô!” e, no Rio de Janeiro e na umbanda, a data festiva é o 20 de janeiro, dia de São Sebastião.
Quem é Oxóssi, o caçador de uma flecha só
Oxóssi é o orixá da caça e das matas, cultuado como o provedor que conhece cada trilha, cada folha e cada animal da floresta. A tradição iorubá o reconhece pelo epíteto de caçador de uma flecha só: aquele cuja pontaria é tão precisa que não precisa de um segundo disparo. Essa imagem diz muito sobre o orixá, porque a caça aqui não é morte por morte, é foco, sustento e respeito ao tempo da natureza.
O mito do caçador de uma flecha só se passa em Ifé. Pierre Verger conta que, na festa dos novos inhames de Olofin, rei de Ifé, um pássaro enviado pelas feiticeiras pousou sobre o palácio, e só o caçador conseguiu abatê-lo, com uma única flecha. Nessa versão, o prêmio é riqueza, não trono.
A ligação com a cidade iorubá de Ketu é outra história. “Na Bahia chega-se mesmo a dizer que ele foi rei de Kêto”, escreve Verger. Entre os 301 mitos reunidos por Prandi, há um em que “Oxóssi recebe o título de ‘Alaketu’”, segundo a resenha do antropólogo Andreas Hofbauer, que anota a dúvida sobre quem deu a cidade ao caçador: Orunmilá ou Oxum. Em Salvador, o nome ficou num terreiro: o historiador Renato da Silveira conta que os fundadores do Alaketo arrendaram um terreno no Matatu, “ali fundando um terreiro dedicado a Oxóssi, o Alaketo”.
Verger observa ainda que o culto de Oxóssi “encontra-se quase extinto na África, mas bastante difundido no Novo Mundo”, o que ele liga à destruição de Ketu pelo Daomé no século XIX e à venda dos iniciados do orixá como escravos para o Brasil e Cuba. Está no capítulo “Oxóssi” do livro Orixás, de 1981. A Wikipédia traz um verbete dedicado a Oxóssi que reúne suas correspondências e mitos. Para situá-lo no conjunto das divindades, vale ler o panorama sobre o que são os orixás.
Ficha técnica de Oxóssi
Antes de aprofundar os domínios do orixá, vale fixar os elementos que o identificam. As correspondências abaixo seguem majoritariamente a nação ketu (iorubá), com as variações mais comuns na umbanda anotadas onde elas existem, porque elas existem mesmo, e tratar tudo como regra única apagaria a diversidade real das casas.
- Domínios: caça, matas e florestas, fartura, abundância, alimento e conhecimento das folhas
- Cores: no candomblé queto, roupas “azul turquesa e verde” e contas “azul turquesa”, na tabela de Prandi; nos terreiros da Bahia é mais comum o azul claro, e nos do Rio, o verde, segundo Raphael de Jesus (UFJF) a partir de Lody; na umbanda, predomina o verde, ligado à mata
- Dia da semana: quinta-feira na maioria das casas
- Elemento: a terra coberta de mata, a floresta viva
- Símbolo: o ofá, o arco e flecha de metal, ao lado do erukerê e das ferramentas de caça
- Saudação: “Okê arô!”, na grafia de Prandi; Verger registra só “Okê!”, e o MASP traduz “Okê arô” como “Salve o grande caçador”
- Comida votiva: “milho cozido com fatias de coco; frutas”, na tabela de Prandi; o axoxô com melado de cana e coco é a versão que a Wikipédia registra, citando Lody
- Tabu: “comer mel” é tabu dos filhos de Oxóssi no queto, segundo Prandi
- Ervas: folhas da mata em geral, sob o domínio que ele divide com Ossain, o orixá das folhas
Okê Arô, meu pai Oxóssi! A saudação é um chamado ao caçador que provê. Saudá-lo é reconhecer a fartura que vem da mata e a sabedoria de quem conhece o caminho das folhas e o sustento da floresta.
O mel pede atenção. No candomblé queto, o mel de abelha fica de fora: na tabela de Prandi, “comer mel” é o tabu dos filhos de Oxóssi, e por isso o axoxô leva melado de cana. Na umbanda, a regra muda de casa para casa: o Terreiro de Umbanda Pai Maneco, de Curitiba, oferece ao orixá um amalá com “moganga bem assada com milho dentro coberto com mel”. Vale o que a sua casa orienta. Para entender como preparar oferendas com respeito ao que cada orixá aceita, veja o guia sobre como fazer oferenda aos orixás.
Oxóssi, o provedor da fartura e do conhecimento
A caça de Oxóssi não é crueldade, e compreender isso desfaz o mal-entendido mais comum sobre o orixá. Sua flecha não busca o sangue, busca o sustento: o animal que alimenta a aldeia, a fruta que mata a fome, a clareira que vira roça. Ele é o orixá da abundância conquistada com esforço e conhecimento, aquele que ensina que a fartura não cai do céu, vem de quem sabe onde procurar e tem paciência para esperar o momento certo.
Por isso o caçador é invocado por quem precisa de prosperidade, de trabalho, de comida farta na mesa e de sorte nos negócios. Quem recorre a ele não pede milagre, pede o tino do bom caçador: a visão para enxergar a oportunidade e a firmeza para acertar o alvo de primeira. A mata, seu domínio, é também a farmácia e a despensa do povo de santo, e governá-la é deter o segredo da vida que se renova.
Há ainda a dimensão do conhecimento. Quem entra na floresta precisa saber ler os sinais, reconhecer as folhas, respeitar os bichos. Oxóssi é o orixá dessa sabedoria prática e ancestral, a inteligência de quem observa antes de agir. A FUCESP, federação paulista de umbanda e candomblé, escreve que Oxóssi “mantém estreita ligação com Ossaim (Òsanyìn), com quem aprendeu o segredo das folhas”.
A família de Oxóssi: Logunedé, Ossain e os caçadores
Como todo orixá, Oxóssi não caminha sozinho na cosmologia iorubá, e conhecer quem o cerca ajuda a entender sua força. O laço mais conhecido é com Logunedé, filho de Oxum, a senhora das águas doces. As casas costumam dizer que o pai é Oxóssi. Em Verger, o pai é Erinle, deus caçador que “teria tido, com Oxum Ipondá, um filho chamado Lógunede”, e o sumário da Mitologia dos Orixás, de Prandi, tem a seção “Logum Edé nasce de Oxum e Erinlé”. Raphael de Jesus lembra que essa filiação “não é unanimidade mítica”, mas que Logunedé “sempre terá vínculo de parentesco com Oxum e Oxóssi em alguma qualidade”. O orixá está em quem é Logun Edé. Logunedé herda dos pais a beleza, a fartura e a graça, vivendo seis meses na mata com o pai e seis meses no rio com a mãe. Para conhecer a mãe de Logunedé, leia sobre quem é Oxum.
Outro vínculo essencial é com Ossain (Òsányìn), o orixá das folhas. Os dois são parceiros na floresta, mas não se confundem: enquanto Oxóssi domina a caça e a mata como território, Ossain detém o segredo de cada erva e de seu axé. No itã que Pierre Verger registra, Iemanjá teme que Oxóssi encontre Ossain na floresta, e Ossain lhe dá uma poção de folhas que o faz esquecer quem é: ele fica vivendo na mata com Ossain até Ogum ir buscá-lo. A comparação do par, nação por nação, está em Ossaim e Oxóssi: por que se confundem. Respeitar essa distinção é respeitar o fundamento de cada um.
Os nomes de outros caçadores, como Erinlé, Inlé, Ibualama e Odé, pedem cuidado. Odé é o próprio Oxóssi: a tabela de Prandi chama o orixá de “Oxóssi ou Odé”. Erinlé, Inlé e Ibualama são outra figura, com nome triplo: Prandi dá a Erinlé, também chamado Inlé ou Ibualama, uma seção própria na Mitologia dos Orixás, separada da de Oxóssi, e outra a Otim. Verger descreve Erinle como deus da caça de um rio de Ijexá, que “no Brasil e em Cuba é conhecido com o nome de Inlé”; Ibualama, para ele, é um dos lugares fundos desse rio, com culto principalmente na Bahia. Nas casas, esses nomes costumam aparecer como qualidades de Oxóssi. Cada casa e cada nação tem sua leitura, e o blog não fecha a questão, apenas registra a pluralidade.
Num itã que Verger registra como contado no Brasil, Oxóssi “era irmão de Ogum e de Exu, todos os três filhos de Iemanjá”. Entre os mitos de Prandi, segundo Hofbauer, fica a dúvida “se Ogum é pai ou irmão de Oxóssi”. Ogum é o guerreiro com quem o caçador reparte a coragem de enfrentar o desconhecido.
Oxóssi na umbanda e no candomblé
Embora seja o mesmo orixá, Oxóssi não é vivido da mesma forma nas duas tradições, e confundi-las apaga o que cada uma tem de próprio.
No candomblé, o orixá é cultuado no xirê, com seus assentamentos, suas ferramentas de caça, suas qualidades e suas comidas específicas por nação. É uma divindade ancestral ligada à linhagem e à iniciação, com fundamentos guardados pelo pai ou mãe de santo. No candomblé ketu, as cores azul-turquesa e o ofá de metal marcam sua presença.
Na umbanda, o caçador rege a linha dos caboclos, os espíritos de indígenas brasileiros que descem nas giras trazendo a força da natureza e a cura pelas ervas. Em 1933, o escritor Leal de Souza registrou que a linha de Oxóssi “é, por excelência, a dos indígenas brasileiros”, e o Núcleo Umbandista São Sebastião (NUSS) diz que ela é “a linha da grande maioria dos Caboclos”. Para a maioria das casas, quem incorpora é o caboclo: o historiador Lourival Andrade Júnior (UFRN) cita a Revista Espírita de Umbanda, para a qual são os caboclos “que se manifestam nas giras, não o Orixá em si”. A linha, a cor, o dia e o ponto estão em Oxóssi na umbanda. É por isso que, na umbanda, o orixá é tão associado ao verde e à imagem do índio de cocar e arco e flecha.
O retrato dos filhos de Oxóssi muda de autor para autor. Prandi os descreve como “curiosos e solitários”; Verger, como pessoas “espertas, rápidas, sempre alerta”. Os retratos lado a lado, o mel e como o orixá se confirma estão em filhos de Oxóssi. Para entender melhor o que separa as duas tradições, veja a diferença entre umbanda e candomblé.
Oxóssi, São Sebastião e o Dia de Oxóssi
Quem procura a data do orixá da caça encontra, em boa parte do Brasil, o 20 de janeiro, dia de São Sebastião. Durante a colonização, diante da proibição de cultuar os orixás, os africanos escravizados associaram suas divindades a santos católicos para continuar reverenciando sob outro nome. Foi estratégia de sobrevivência, resistência, e não declaração de que orixá e santo seriam a mesma coisa.
No Rio de Janeiro e na maior parte do país, o caçador foi associado a São Sebastião, o santo mártir representado coberto de flechas, imagem que conversa diretamente com o ofá do orixá. Mas o sincretismo varia pelo Brasil, e isso precisa ser dito. Na Bahia, Verger registra o orixá sincretizado com São Jorge, numa inversão curiosa, já que no Sudeste São Jorge é Ogum. E a festa de Oxóssi das casas tradicionais de Salvador não cai no dia do santo: segundo a coluna de Pai Paulo de Oxalá no jornal Extra, o Opô Afonjá, o Engenho Velho (Casa Branca) e o Gantois comemoram Oxóssi “no dia de Corpus Christi” e abrem com essa festa o calendário litúrgico. Em 2023, a “Missa de Oxóssi”, missa em ação de graças a São Jorge na Igreja do Rosário dos Pretos, reuniu católicos e a comunidade da Casa Branca na quinta de Corpus Christi, segundo o Bahia Notícias. Em Pernambuco, segundo a Wikipédia, aparece o vínculo com São Miguel Arcanjo.
Por que o 20 de janeiro é feriado no Rio, em que dia da semana ele cai em 2027 e como é a festa de Salvador está em dia de Oxóssi. Na semana, a quinta-feira pertence ao caçador, na tabela de Prandi e em Verger, e esse é o dia preferido para acender sua vela e renovar os pedidos. Para acompanhar as datas de cada orixá ao longo do ano, consulte o calendário dos orixás.
Como homenagear Oxóssi
A reverência ao orixá da caça se faz com respeito à mata e à fartura que ele governa. O que segue é uma referência devocional, lembrando que cada casa tem suas próprias orientações e que oferendas de fundamento se fazem sob a condução de um pai ou mãe de santo.
- Acenda uma vela verde (ou azul-turquesa, conforme o costume da sua casa) numa quinta-feira, em local limpo, pedindo fartura, trabalho e abertura de prosperidade
- Ofereça frutas do mato ou um axoxô feito com respeito, lembrando que no candomblé queto o mel de abelha fica de fora; na umbanda, siga a orientação da sua casa
- Saúde o caçador com o “Okê arô!”, de pé e com firmeza, como quem agradece o sustento
- Cuide da natureza no dia a dia, porque honrar a mata é honrar o orixá que dela é senhor
Dica de devoção: Oxóssi não responde a quem quer fartura sem esforço. Procure-o para pedir o tino do bom caçador, a visão para enxergar a oportunidade e a firmeza para acertar o alvo. O orixá aponta o caminho da mata, mas quem caminha e colhe é você.
A quinta-feira, dia de Oxóssi, é boa também para acender velas com intenção. Para escolher a cor certa com consciência, veja o guia de velas rituais e seus significados. E para conhecer o orixá guerreiro tido como irmão do caçador, leia sobre quem é Ogum.
Perguntas frequentes
Quem é Oxóssi e o que ele representa?
Oxóssi é o orixá da caça, das matas e da fartura na tradição iorubá. Conhecido como o caçador de uma flecha só, representa o provedor que garante o sustento, a prosperidade conquistada com foco e o conhecimento das folhas e da floresta. Na umbanda, rege a linha dos caboclos.
Qual é a cor de Oxóssi?
No candomblé queto, a tabela de Prandi dá roupas azul-turquesa e verde e contas azul-turquesa. Nos terreiros da Bahia é mais comum o azul claro, e nos do Rio, o verde. Na umbanda, predomina o verde, ligado à mata e à natureza que o orixá governa. As combinações variam por nação e por casa, então vale sempre confirmar com o costume do seu terreiro.
Qual a comida preferida de Oxóssi?
Na tabela de Prandi, a comida de Oxóssi é milho cozido com fatias de coco e frutas. O prato mais citado é o axoxô, milho cozido com melado de cana e coco. No candomblé queto, comer mel é tabu dos filhos de Oxóssi; há casas de umbanda que usam mel na comida do orixá. Vale a orientação da sua casa.
Qual o dia de Oxóssi e com qual santo ele é sincretizado?
O dia da semana do caçador é a quinta-feira na maioria das casas. A data festiva mais difundida é 20 de janeiro, dia de São Sebastião, no Rio e na umbanda. Na Bahia, o santo é São Jorge, mas a festa das casas tradicionais de Salvador é no dia de Corpus Christi. Em Pernambuco, segundo a Wikipédia, o vínculo é com São Miguel.
Qual a saudação de Oxóssi?
A saudação tradicional do orixá é “Okê arô!”, na grafia de Prandi; Verger registra só “Okê!”. É um chamado de reconhecimento ao caçador que provê. Pronunciada de pé e com firmeza, ela reverencia a fartura que vem da mata e a sabedoria de quem domina o caminho das folhas e o sustento da floresta.
Onde comprar artigos para Oxóssi
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- Imagens de Oxóssi com o ofá e o cocar, para o seu altar ou assentamento
- Velas verdes e azul-turquesa, nas cores do orixá da mata
- Guias e contas verdes para a devoção ao caçador e aos caboclos
- Ervas e folhas da mata para banhos e defumações de fartura e prosperidade
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Referências
- Prandi, Horizontes Antropológicos (UFRGS, 1995): Deuses africanos no Brasil contemporâneo
- Prandi, livro (Companhia das Letras): Mitologia dos Orixás, ficha e sumário
- Hofbauer, Revista de Antropologia (USP, 2001): resenha de Mitologia dos Orixás
- Verger, livro (Corrupio, 1981): Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo
- Silveira, Afro-Ásia (UFBA, 2003): Sobre a fundação do terreiro do Alaketo
- Jesus, Sacrilegens (UFJF, 2024): A cromática dos Orixás
- Leal de Souza, livro de 1933: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda
- Andrade Júnior, Mneme (UFRN, 2014): Os caboclos nas religiões afro-brasileiras
- Núcleo Umbandista São Sebastião: Linha de Oxóssi
- FUCESP: Oxóssi
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: Oxóssi, Rei das matas
- MASP: Okê Oxóssi, de Abdias Nascimento
- Pai Paulo de Oxalá, Extra (2015): Oxossi e Corpus Christi
- Bahia Notícias (2023): Missa de Oxóssi no dia de Corpus Christi em Salvador
- Wikipédia: verbete sobre Oxóssi, com correspondências e mitos do orixá