No dia 12 de outubro, o Brasil para diante de uma imagem pequena e escura de terracota: Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do país. Dentro dos terreiros, porém, muita gente reconhece naquela mesma data a presença de outra mãe das águas: Oxum, a orixá dos rios e das cachoeiras. A ligação entre a santa e a orixá é uma das histórias de sincretismo mais conhecidas e mais mal explicadas do Brasil.
Este guia separa com cuidado os dois lados dessa devoção: a história católica da aparição de 1717, quem é Oxum nas religiões afro-brasileiras, por que as duas se aproximaram e como umbanda e candomblé tratam essa correspondência sem confundir uma coisa com a outra.
A aparição de 1717: a história de Nossa Senhora Aparecida
A devoção a Nossa Senhora Aparecida começa nas águas. Em outubro de 1717, três pescadores, João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, lançavam suas redes no rio Paraíba do Sul, perto de Guaratinguetá, em São Paulo. A pesca vinha vazia. Numa das tentativas, recolheram primeiro o corpo de uma pequena imagem da Virgem, sem a cabeça; em seguida, a cabeça. Logo depois, segundo a tradição, as redes voltaram cheias de peixe.
A imagem era de terracota de cor escura, com cerca de 36 centímetros, representando Nossa Senhora da Conceição. Pela aparição às margens do rio, ficou conhecida como “a que apareceu”, a Aparecida. A devoção popular cresceu por todo o vale do Paraíba e, dali, para o Brasil inteiro, como conta a história oficial do Santuário Nacional.
Em 1930, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil. Em 1980, a Lei 6.802 instituiu o 12 de outubro como feriado nacional dedicado a ela. Hoje o Santuário Nacional de Aparecida, concluído em 1984, é o maior templo mariano das Américas e recebe milhões de romeiros por ano.
Quem é Oxum, a orixá das águas doces
Do outro lado dessa história está Oxum, uma das grandes iabás (orixás femininas) cultuadas no candomblé e na umbanda. Ela é a senhora das águas doces: rios, cachoeiras e nascentes. Governa o amor, a fertilidade, a maternidade, a beleza, o ouro e a prosperidade. Onde a água corre mansa e gera vida, reconhece-se o axé da Iyalodê.
Reginaldo Prandi, em Mitologia dos Orixás, descreve a orixá ao lado de Iemanjá como a grande mãe da fertilidade; diz a tradição que, quando uma mulher engravida, há ali a mão de Oxum. Você encontra a história completa dela no nosso guia sobre quem é Oxum, a orixá das águas doces.
Domínios: Águas doces, amor, fertilidade, maternidade, beleza, ouro e prosperidade Cores: Amarelo e dourado (candomblé ketu); azul-claro em parte das casas de umbanda Dia: Sábado Símbolo: Abebê, leque dourado com espelho ao centro Saudação: “Ora Yeye O!” Sincretismo principal: Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro) e, em boa parte do Sudeste, Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro)
Por que Aparecida foi ligada a Oxum
A aproximação entre a santa e a orixá não foi por acaso. Ela nasce de afinidades que a devoção popular percebeu e cultivou ao longo de séculos. Três pontos explicam a ligação.
O primeiro é a água. A imagem da padroeira surgiu de dentro de um rio, e o rio é justamente o território de Oxum. Uma mãe que emerge das águas doces fala diretamente ao imaginário de quem cultua a senhora dos rios.
O segundo é a maternidade. Nossa Senhora é a mãe que acolhe, protege e intercede. Oxum é a mãe que cuida do ventre, da criança que se forma e do recém-nascido. As duas são, cada uma em sua tradição, figuras maternas de amparo e proteção das mulheres.
O terceiro é a cor e a doçura. A imagem escura de Aparecida e o ouro associado a Oxum encontraram, na sensibilidade afro-brasileira, um mesmo registro de afeto: o da mãe que recebe sem cobrar, que adoça onde há dor. Por isso, em muitos terreiros, o 12 de outubro virou também um dia de saudar a orixá das águas doces.
Sincretismo é resistência, não fusão
Aqui entra o ponto mais delicado, e o mais importante deste artigo. Oxum não é Nossa Senhora Aparecida, e Aparecida não é Oxum. São duas tradições religiosas distintas, com teologias próprias, que a história brasileira aproximou à força.
O sincretismo nasceu como estratégia de sobrevivência. Durante a escravização, os povos africanos foram proibidos de cultuar seus orixás. Para manter a fé viva, associaram cada orixá a um santo católico de domínio parecido, e assim continuaram a reverenciar o axé sob a aparência da religião imposta. Quando se ajoelhavam diante da santa, muitos saudavam, por dentro, a mãe das águas.
Reconhecer essa origem é uma forma de respeito. De um lado está a devoção católica: Maria, mãe de Jesus, venerada sob o título brasileiro de Aparecida. De outro está a leitura afro-brasileira: Oxum, orixá iorubá das águas doces. Tratar as duas como “a mesma coisa” apaga tanto a fé católica de milhões de romeiros quanto a inteligência de quem usou o sincretismo para resistir. O candomblé, vale lembrar, é patrimônio cultural imaterial reconhecido pelo IPHAN, e essa memória de resistência faz parte do patrimônio.
Sincretismo é ponte construída pela história, não igualdade teológica. Honrar a ponte é nomear as duas margens.
A variação por nação e por região
Outra honestidade que o praticante experiente espera: a correspondência entre Aparecida e Oxum não é única nem universal. Ela varia conforme a tradição, a nação e a região.
No Sudeste, sobretudo na umbanda, a associação Aparecida e Oxum é a mais difundida, reforçada pela imagem que emergiu das águas. Já no candomblé baiano de nação ketu, Oxum costuma se ligar mais a Nossa Senhora das Candeias e a Nossa Senhora da Conceição, celebrada em 8 de dezembro, e não necessariamente a Aparecida.
Há ainda casas que aproximam Aparecida de Iemanjá, a rainha do mar, justamente por causa do elemento água, o que mostra como essas leituras são construções culturais, e não regras fixas. Se você quer entender essa outra mãe das águas, veja o dia de Iemanjá, 15 de agosto. Para o panorama completo das datas, vale conferir o calendário dos orixás e a leitura do sincretismo dos santos com os orixás.
Como umbanda e candomblé honram o 12 de outubro
No dia da padroeira, muitos filhos de Oxum unem as duas devoções com naturalidade: vão à missa ou rezam para Nossa Senhora Aparecida e, em casa ou no terreiro, saúdam a orixá das águas doces. A forma de honrar segue o fundamento de cada casa.
Na devoção pessoal, é comum acender uma vela amarela ou dourada, oferecer rosas amarelas e mel com palavras de gratidão, e levar flores a um rio ou cachoeira com respeito. Se a entrega for às águas, use apenas o que a natureza absorve: flores, frutas e mel, nunca plástico, vidro ou fitas sintéticas. Para o passo a passo de uma entrega bem feita, veja como fazer uma oferenda aos orixás.
Ora Yeye O! Mãe das águas doces, que a sua doçura adoce os caminhos, traga paz ao coração e fartura à casa.
Oferendas de fundamento, banhos de obrigação e confirmação de orixá regente são assunto de terreiro. Procure um pai ou mãe de santo de casa séria: o blog ensina o caminho público, mas o fundamento se vive na roça, com orientação de quem tem axé para conduzir.
Perguntas frequentes
Qual orixá é Nossa Senhora Aparecida?
No sincretismo afro-brasileiro, sobretudo no Sudeste e na umbanda, Nossa Senhora Aparecida é associada a Oxum, a orixá das águas doces, do amor e da maternidade. A ligação vem da imagem ter surgido das águas de um rio e do caráter materno e protetor das duas figuras.
Por que Oxum foi sincretizada com Nossa Senhora Aparecida?
Pela afinidade de domínios: a santa apareceu nas águas, e Oxum é a senhora dos rios; ambas são mães acolhedoras e protetoras. Durante a escravização, os africanos associaram orixás a santos católicos para preservar o culto proibido, e essa correspondência se firmou na devoção popular.
Nossa Senhora Aparecida é Oxum ou Iemanjá?
Na maioria das casas do Sudeste, Aparecida liga-se a Oxum, das águas doces. Algumas casas a aproximam de Iemanjá, rainha do mar, também pelo elemento água. As duas leituras existem e variam por terreiro, nação e região; nenhuma anula a outra.
Qual é o dia de Oxum no sincretismo?
Há duas datas principais. O 8 de dezembro, de Nossa Senhora da Conceição, é o sincretismo mais tradicional de Oxum, especialmente no candomblé ketu. O 12 de outubro, de Nossa Senhora Aparecida, é muito celebrado no Sudeste e na umbanda como dia de saudar a orixá das águas doces.
Posso ser devoto de Aparecida e de Oxum ao mesmo tempo?
Muitas pessoas vivem as duas devoções com respeito, reconhecendo que são tradições distintas. O importante é não tratar uma como disfarce da outra: honrar a fé católica como fé católica e o culto à orixá como culto afro-brasileiro, cada um com seu lugar e seu fundamento.
Onde comprar produtos para honrar Oxum
Na Joia Mística Laroyê, você encontra tudo para celebrar a mãe das águas doces no 12 de outubro e o ano inteiro:
- Velas amarelas e douradas para os sábados e para a data da orixá
- Imagens de Oxum e de Nossa Senhora Aparecida para o seu altar
- Guias e colares nas cores dela, amarelo e dourado
- Mel ritual e ervas como manjericão, hortelã e melissa para banhos
- Banhos prontos de Oxum preparados com axé pela Joice Mística
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Ora Yeye O!
Referências
- Santuário Nacional de Aparecida: história oficial da aparição de 1717
- Wikipédia: verbete sobre Nossa Senhora da Conceição Aparecida
- Reginaldo Prandi (USP): Mitologia dos Orixás