Oxóssi na umbanda é o orixá que rege a linha dos caboclos, os espíritos de indígenas brasileiros que trabalham nas giras. Para a maioria das casas e dos autores, o próprio orixá não desce: quem incorpora é o caboclo da linha dele. A cor mais citada é o verde, o dia é a quinta-feira e a data festiva é o 20 de janeiro.
Quem é Oxóssi na umbanda
Oxóssi é o caçador das matas, o mesmo orixá do candomblé, vivido de outro jeito. A origem e a ficha completa estão em quem é Oxóssi.
Na umbanda, ele é antes de tudo o regente de uma linha. Em 1933, no Rio de Janeiro, o escritor Leal de Souza listou as sete linhas da umbanda de seu tempo. A terceira era “de Euxoce (Oxóssi)”, que na língua da umbanda se chamava “S. Sebastião”. Para ele, essa linha “é, por excelência, a dos indígenas brasileiros”.
Outros codificadores montaram listas diferentes. Matta e Silva, por exemplo, pôs Oxóssi entre sete linhas que incluíam Crianças e Pretos-Velhos. A pesquisadora Sônia Lages (UFJF), que resume essa lista, avisa: “as classificações variam”. A comparação das listas está em as 7 linhas da umbanda.
A Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina (TUCTVC), de São José dos Campos (SP), diz que Oxóssi “é uma força muito presente nas linhas de Caboclos”.
Oxóssi incorpora na gira?
Na maioria das casas e para a maioria dos autores, não. Quem incorpora é o caboclo da linha de Oxóssi.
O historiador Lourival Andrade Júnior (UFRN) cita a Revista Espírita de Umbanda: Oxóssi “se torna o Pai dos Caboclos, sendo estes que se manifestam nas giras, não o Orixá em si”. Lages resume Matta e Silva no mesmo sentido: os orixás “repassam seus atributos às entidades”, sem se apresentar “pessoalmente no terreiro, como ocorre no Candomblé”. E uma dissertação de 2023 (UFMS) cita o sociólogo Renato Ortiz: “na Umbanda, os orixás não descem”.
No Terreiro de Umbanda Pai Maneco, de Curitiba, o filho de Oxóssi recebe como Pai-de-Cabeça “um Caboclo da linha regente do mesmo Orixá do médium”. O que a tradição diz de quem é de Oxóssi está em filhos de Oxóssi.
“Em oito anos de trabalhos e pesquisas, só tive ocasião de ver dois Orixás, um de Euxoce (Oxóssi), o outro de Ogum.” Leal de Souza, 1933
Para Leal de Souza, era raro, mas aconteceu. A mesma casa de Curitiba, falando de outro orixá, reconhece que “há casas onde ocorrem essas incorporações”.
Por que tanta gente diz que “Oxóssi desceu”? Andrade Júnior explica: “em muitos casos o caboclo é colocado no mesmo nível que o orixá Oxóssi”. Muitas casas chamam o caboclo pelo nome do orixá, e isso não é erro de ninguém. Se a dúvida é sobre a sua gira, pergunte ao dirigente da sua casa.
Quem desce na linha de Oxóssi: os caboclos
Quem trabalha na linha de Oxóssi são os caboclos e as caboclas. No Templo de Umbanda Pai Oxalá, em Campo Grande (MS), eles “geralmente trabalham na linha de Oxóssi. Ou seja, sob a vibração do orixá”.
Na mesma casa, a pesquisadora Thaís Constantino registrou caboclos como Pena Branca, Jurema, Jupira, 7 Flechas, Tupinambá, Cobra Coral, Ubiratã e Pedra Verde. Muitas vezes eles incorporam “representando caçadores com arcos e flechas”. Um médium contou a ela: “Eu trabalho com o Caboclo Pena Branca, que é um caboclo das matas da linha de Oxóssi”.
Essa é a lista de uma casa, não um catálogo fechado. Na TUCTVC, por exemplo, Oxóssi “está profundamente ligado ao Caboclo Tupinambá”. Cada terreiro tem os seus caboclos, e um mesmo caboclo pode trabalhar com a energia de outros orixás.

A linha inteira está em caboclos na umbanda, e a história do caboclo que abriu a umbanda, no Caboclo das Sete Encruzilhadas. O teste descubra sua entidade é um ponto de partida, não a resposta da casa.
Cor, dia e saudação de Oxóssi na umbanda
Cor: verde, ou verde e branco | Dia: quinta-feira | Data: 20 de janeiro | Saudação: Okê Arô
- Cor. Leal de Souza já dava “verde” à linha de Oxóssi em 1933. A TUCTVC usa guia e vela “verde e branco”, e o Terreiro Pai Maneco também dá “verde e branco”. O azul claro aparece mais nos terreiros de candomblé da Bahia, segundo o pesquisador Raphael de Jesus (UFJF), que cita Lody. Ele mesmo lembra que isso “não proíbe” o azul no Rio.
- Dia e data. A TUCTVC dá “Dia da semana Quinta-feira” e “Data de culto 20 de janeiro”, o dia de São Sebastião. O porquê da data está em São Sebastião e Oxóssi; a lei do feriado, 2027 e a festa de Salvador, em dia de Oxóssi.
- Saudação. Andrade Júnior registra “Okê Aro! Okê Oxóssi! Okê Odé!”. O “Okê Caboclo” que se ouve nas giras veio de “uma adaptação da saudação Okê Oxóssi”. O MASP traduz “Okê arô” como “Salve o grande caçador”. As saudações de todos os orixás estão em saudação dos orixás.
O que pedir a Oxóssi
A Oxóssi se pede o que o caçador traz para casa: sustento. A TUCTVC lista “prosperidade e sustento digno”, além de estudos, trabalho e cura. O Terreiro Pai Maneco o chama de “o conhecedor das ervas e o grande curador”.
Uma vela verde de cor única, acesa numa quinta-feira sobre prato firme, é o gesto mais simples. A guia verde e branca é a que essas casas descrevem para a linha; o que cada cor significa está em guia de Oxóssi. As ervas também são dele, e a lista com o uso de cada uma está em ervas de Oxóssi.
Oferenda é assunto da casa. Leal de Souza registrou que os despachos da linha de Oxóssi se faziam “nas matas”, e o Terreiro Pai Maneco indica “na entrada da mata”. Antes de levar qualquer coisa à mata, pergunte à sua casa o que vai e onde vai. Se quiser conferir o material que a casa pediu, a Joia Mística Laroyê ajuda pelo WhatsApp.
Ponto e imagem de Oxóssi no congá
Ponto é a cantiga da gira, e cada casa canta os seus. A Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, a casa fundada por Zélio de Moraes, publica no seu Livro de Pontos Cantados uma seção de “Pontos de OXOSSI”. Um deles começa assim:
“Ai não me toque no bodoque de Oxossi / Ele é o rei das matas / Ele é caçador”
No congá de muitas casas, quem representa Oxóssi é a imagem de São Sebastião, o santo atravessado de flechas. A pintura Umbanda (1968), de Maria Auxiliadora da Silva, no MASP, mostra no altar “a figura de são Sebastião, ou Oxóssi, o caçador”, e no piso, “o Caboclo”. O sincretismo, diz a TUCTVC, “não significa que as duas figuras sejam exatamente a mesma divindade”.
O símbolo comum é o ofá, o arco e flecha, que Abdias Nascimento chamou de “o emblema de Oxóssi” na tela Okê Oxóssi (1970).
O que muda do Oxóssi do candomblé
A grande diferença é a presença. Lages resume assim: na umbanda, os orixás repassam seus atributos às entidades, e não se apresentam pessoalmente no terreiro, “como ocorre no Candomblé”. Por isso o candomblé fala de qualidades, nação e iniciação de Oxóssi, e a umbanda fala de linha e de caboclos.
A cor também muda com a região. Nos terreiros de candomblé da Bahia, Oxóssi veste mais azul claro; nos do Rio, mais verde. O Museu Nacional (UFRJ) guarda uma escultura de Oxóssi feita num terreiro de candomblé de Magé (RJ), “com partes pintadas na cor azul claro” e o ofá ao lado.
A comparação geral está em diferença entre umbanda e candomblé, e a confusão com o dono das folhas, em Ossaim e Oxóssi. A ficha do orixá está em Oxóssi.
Perguntas frequentes
Oxóssi incorpora na umbanda?
Para a maioria das casas e dos autores, não: quem incorpora é o caboclo da linha de Oxóssi. Lages, Andrade Júnior e Ortiz registram isso. Leal de Souza, em 1933, disse ter visto um orixá de Oxóssi incorporado em oito anos. Muitas casas chamam o caboclo pelo nome do orixá.
Qual a cor de Oxóssi na umbanda?
O verde, desde Leal de Souza em 1933. Casas como a TUCTVC e o Terreiro Pai Maneco usam guia e vela verde e branca. O azul claro aparece mais nos terreiros de candomblé da Bahia. A cor que vale é a que a sua casa usa.
Qual o dia de Oxóssi na umbanda?
Na semana, a quinta-feira. No ano, o 20 de janeiro, dia de São Sebastião, data que a TUCTVC usa para o culto de Oxóssi.
O que pedir a Oxóssi?
Prosperidade, sustento, trabalho, estudo e cura, segundo a TUCTVC. O Terreiro Pai Maneco o chama de grande curador e conhecedor das ervas. A oferenda segue o que a sua casa orienta.
Oxóssi é São Sebastião?
Não. São Sebastião é a imagem que representa Oxóssi no congá de muitas casas, por causa do sincretismo. A TUCTVC lembra que o sincretismo não faz das duas figuras a mesma divindade.
Referências
- Leal de Souza, livro de 1933: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda
- Lages, Clio Edições Eletrônicas (UFJF, 2003): Exu: luz e sombras
- Andrade Júnior, Mneme (UFRN, 2014): Os caboclos nas religiões afro-brasileiras
- Constantino, dissertação (UFMS, 2023): Corpo encantado, caboclas e caboclos no Templo de Umbanda Pai Oxalá
- Jesus, Sacrilegens (UFJF, 2024): A cromática dos Orixás
- MASP: Umbanda, de Maria Auxiliadora da Silva e Okê Oxóssi, de Abdias Nascimento
- Museu Nacional (UFRJ): catálogo da Coleção Ilé Ògún Àlákòró
- TUCTVC: Oxóssi
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: Oxóssi, Rei das matas e Oxalá na Umbanda
- Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade: Livro de Pontos Cantados