As ervas de Oxóssi mudam de casa para casa. No candomblé, a folha é de Ossaim, e terreiros ketu e ijexá da Bahia dão a Oxóssi o São-gonçalinho, o quioiô e a espada. Na umbanda, samambaia, guiné, alecrim, aroeira e erva-cidreira aparecem como folhas dele em mais de uma casa.
Quais são as ervas de Oxóssi
A resposta curta é: as que a sua casa dá a ele. As fontes atribuem folhas diferentes a Oxóssi, e cada lista vem de um terreiro ou de uma tradição. A tabela junta as que têm registro.
| Onde | Folhas de Oxóssi |
|---|---|
| Candomblé ketu e ijexá, sul da Bahia | São-gonçalinho, quioiô, espada-de-Ogum, trevo, pitanga |
| Umbanda, Teixeira de Freitas (BA) | samambaia, hortelã-grosso, alecrim, aroeira, guiné, erva-cidreira |
| Umbanda, Curitiba | samambaia, aroeira, erva-cidreira, laranjeira, malva-rosa, jurema |
| Federação de umbanda e candomblé de SP | guiné, peregum, alecrim, manjericão, samambaia |
A samambaia é a folha que se repete na umbanda: aparece nas duas casas e na federação, mas a espécie muda de lugar para lugar. Guiné, aroeira, erva-cidreira e alecrim também aparecem em mais de uma fonte, sempre divididos com outros orixás.
Dia: quinta-feira | Dono da folha no candomblé: Ossaim | Quizila no ketu: mel
De quem é a folha: Oxóssi e Ossaim
No candomblé, quem é dono das folhas é Ossaim. Na tabela de Reginaldo Prandi, que segue o rito queto, Oxóssi é o orixá da caça e da fauna, e Ossaim, o da vegetação e da flora. Os dois têm a quinta-feira como dia.
O itã registrado por Prandi conta que Ossaim deu uma folha a cada orixá. Cada folha recebeu “seus axés e seus ofós”, as cantigas sem as quais ela não funciona. É por isso que se fala em “ervas de Oxóssi”: são as folhas que a tradição separou para ele.
“Cada folha com seus axés e seus ofós, que são as cantigas de encantamento, sem as quais as folhas não funcionam.”
Reginaldo Prandi, Mitologia dos orixás, citado por Bianca Purcino (UFSB, 2022)
Oxóssi é o orixá mais próximo de Ossaim. Pierre Verger escreve que os caçadores, por viverem na floresta, “aprendem com ele parte do seu saber”. No candomblé da Bahia estudado por Pedro Botelho, os dois podem dividir o mesmo roncó. Em casas sem filho de Ossaim, ele pode ser celebrado na festa de Oxóssi. Um mito que Verger registrou no Brasil conta que Ossaim deu a Oxóssi uma bebida de folhas que o fez esquecer quem era. O perfil de Ossaim está em quem é Ossaim.

Na umbanda, a leitura muda. O Terreiro Pai Maneco, de Curitiba, chama Oxóssi de “o conhecedor das ervas e o grande curador”. As duas leituras convivem, cada uma na sua tradição.
Ervas de Oxóssi no candomblé ketu e ijexá
A pesquisadora Bianca Purcino levantou as plantas de dois terreiros do sul da Bahia: um de nação ketu, em Itabuna, e um de nação ijexá, em Arataca. Nos dois, estas folhas são dadas a Oxóssi:
- São-gonçalinho (alékèsì): usado em banhos “para obter bons fluidos”. Uma casa ketu registra o prestígio dele nos terreiros da nação por ser folha de Oxóssi, patrono do ketu.
- Quioiô, a mesma planta que muita gente chama de alfavaca: dividido com Omolu, em limpeza de corpo, sacudimento e defumação.
- Espada-de-Ogum, que ali também se chama espada-de-Oxóssi: dividida com Ogum, em sacudimento e proteção. A folha é tóxica se ingerida.
- Trevo: usado em banhos para prosperidade, segundo os terreiros pesquisados.
- Pitanga: em defumação e incenso.
O akòkó mostra como a folha muda de dono. Nos terreiros de Purcino, ele é de Xangô. Numa casa ketu, é de Ossaim, Ogum e Oxóssi, e num portal de candomblé, de Ossaim, Ogum e Oyá. Quem diz de quem é a folha na sua casa é o seu pai ou a sua mãe de santo.
Ervas de Oxóssi na umbanda e na linha dos caboclos
Na umbanda, os caboclos aparecem como filhos de Oxóssi, e as folhas dele se ligam a eles. Nos pontos do Terreiro Pai Maneco, o caboclo é “filho de Oxóssi”. O perfil da linha está em caboclos na umbanda.
Na Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, em Teixeira de Freitas (BA), oito das 39 plantas levantadas foram atribuídas a Oxóssi. A samambaia é de Oxóssi e dos caboclos, e entra em banhos, passes, firmezas e descarregos. O hortelã-grosso vai nos banhos. O alecrim, a aroeira, a guiné e a erva-cidreira são de Oxóssi junto com outros orixás.
No Terreiro Pai Maneco, a lista é outra: malva-rosa, mil-folhas, sete-sangrias, aroeira, samambaia, laranjeira, erva-cidreira e jurema, entre outras. A cor da casa para Oxóssi é verde e branco, e o amalá dele leva sete velas verdes e sete brancas.
A arruda divide as fontes. A casa de Teixeira de Freitas a liga a Ogum, Oxóssi, Xangô e Iansã. Um portal de candomblé a dá a Oxalá. A ficha de arruda do site traz o uso dela.
Como as folhas de Oxóssi entram no banho de ervas
O banho de ervas lava o corpo do pescoço para baixo. Numa casa de umbanda de São Paulo, quem diz quais plantas usar e em que dias é a entidade, na consulta. Com a indicação da casa em mãos, o preparo registrado ali é simples:
- Separe as folhas que a casa indicou, frescas ou secas. A loja tem as ervas de banho, e pelo WhatsApp dá para conferir a folha que a sua casa pediu.
- Ferva a água, ponha as folhas, em geral em número ímpar, espere alguns segundos e desligue o fogo.
- Use uma panela só para isso, e não a panela da comida.
- Deixe amornar e, depois do banho de higiene, derrame do pescoço para baixo.
O banho cozido nunca vai na cabeça. A federação paulista explica que “não se deve colocar nada cozido” no ori. No ketu, comer mel é tabu dos filhos de Oxóssi. Na dúvida, deixe o mel fora desse banho. A diferença entre folha quente e fria está em ervas quentes e frias.
Amaci de Oxóssi: por que é coisa da casa
O amaci é o banho da cabeça. No candomblé da Bahia, é o líquido de folhas sagradas maceradas na água das quartinhas do roncó, para banhar a cabeça dos iniciados. Num terreiro de umbanda de São Paulo, há um amaci para cada orixá, e ele é feito exclusivamente por mães e pais de santo e iabás. Depois dele, o médium fica em resguardo, com um pano cobrindo a cabeça.
O amaci não vai ao fogo: as folhas são maceradas à mão, e a mistura segue a orientação do dirigente. A federação paulista aceita que o filho experiente faça o seu, e o terreiro de São Paulo, não. Por isso a receita e o momento do amaci de Oxóssi ficam com a sua casa. O que é o rito, em geral, está em o que é amaci.
Perguntas frequentes
Arruda é erva de Oxóssi?
Em algumas casas, sim. Uma casa de umbanda de Teixeira de Freitas (BA) liga a arruda a Ogum, Oxóssi, Xangô e Iansã. Um portal de candomblé a dá a Oxalá. Não há acordo entre as fontes, e quem define na sua casa é o dirigente.
Qual é a principal erva de Oxóssi?
Nenhuma fonte crava uma só. No candomblé, o São-gonçalinho tem registro acadêmico e de terreiro ketu. Na umbanda, a samambaia é a que se repete em duas casas e na federação paulista. A principal, na prática, é a que a sua casa usa.
Qual o dia do banho de Oxóssi?
A quinta-feira é o dia de Oxóssi no candomblé e na umbanda. O dia do banho, porém, quem indica é a casa: na umbanda, a entidade diz quais plantas usar e em que dias.
Posso fazer amaci de Oxóssi em casa?
Num terreiro de umbanda de São Paulo, só mães e pais de santo e iabás preparam e aplicam o amaci. A federação paulista diz que ele segue a orientação do dirigente e aceita que o filho experiente faça o seu. Para quem não tem casa, o banho de ervas do pescoço para baixo é o caminho.
Referências
- Bianca Purcino: perfil etnobotânico em terreiros de candomblé no sul da Bahia, dissertação, UFSB, 2022
- Joyce dos Santos e Jorge Fortuna: a etnobotânica da Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, Research, Society and Development, 2023
- Pedro Freire Botelho: Ewé Awo, o segredo das folhas no candomblé da Bahia, Educação, Gestão e Sociedade, 2011
- Pedro Crepaldi Carlessi: Jeitos, sujeitos e afetos, Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, 2017
- Reginaldo Prandi: os deuses africanos no Brasil contemporâneo, Horizontes Antropológicos, 1995
- Pierre Verger: Orixás, deuses iorubás na África e no Novo Mundo, Corrupio, 1981
- FUCESP: amacis, amalás, comidas e bebidas de santo, 2013, e página de Oxóssi
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: Oxóssi, Rei das matas e apostila de pontos
- O Candomblé: as ervas dos orixás, 2008
- Àsé Dan Fè Èrò: èwés