O Caboclo das Sete Encruzilhadas é o guia do médium Zélio de Moraes que a tradição liga à fundação da umbanda, em 1908 [C8, C12]. Na casa que ele fundou, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, é chamado de o Chefe [C35, C50]. Não é o Exu Sete Encruzilhadas: o nome se parece, mas a linha e a história são outras.
Quem é o Caboclo das Sete Encruzilhadas
É o caboclo que, segundo a tradição, se manifestou em Zélio Fernandino de Moraes numa sessão espírita em Niterói, em 15 de novembro de 1908. No dia seguinte, pela versão da casa, ele fundou a Tenda da Piedade, em Neves, São Gonçalo [C8, C12]. A data virou o Dia da Umbanda, fixado em lei federal em 2012.
Nome: Caboclo das Sete Encruzilhadas | Apelido na casa: o Chefe | Médium: Zélio de Moraes | Casa: Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade | Linha: Ogum ou Oxóssi, conforme a fonte
O Caboclo não é só relato. Ele aparece num livro de 1933, de Leal de Souza, que presidia uma das tendas fundadas por ele. Leal diz que o Caboclo trabalhava “há vinte e três anos” e dirigia quatro tendas. A cena completa de 1908 só foi publicada décadas depois, e não há ata da sessão [C15, C18]. Por isso os pesquisadores falam em mito de origem, sem negar o valor que ele tem para quem é de umbanda.
Não é o Exu Sete Encruzilhadas
O nome é o mesmo, a entidade não. O Caboclo é um guia de linha de caboclo. Já “sete encruzilhadas” é um nome de território usado por muitos Exus e Pombagiras.
| Caboclo das Sete Encruzilhadas | Exu e Pombagira das Sete Encruzilhadas | |
|---|---|---|
| Linha | caboclo | esquerda |
| Nome | um guia ligado a Zélio, com nome explicado em 1933 | alcunha de território de vários Exus e Pombagiras |
| A encruzilhada | o lugar onde ele não sabia que caminho tomar | ponto de força da esquerda |
| Na própria Tenda | ponto “Salve o Sete Encruzilhadas”, na seção de Oxóssi | ponto de Seu Sete Capas, “Dono das Sete Encruzilhadas”, na seção de Exu |
A pesquisa de Jean Favaro e Hieda Corona, da UTFPR, lista vários que levam o nome. Entre eles estão Exu Rei das Sete Encruzilhadas, Exu Sete Encruzilhadas e Pomba-gira das Sete Encruzilhadas. O próprio livro de pontos da Tenda da Piedade separa os dois: o Caboclo na seção de Oxóssi e Seu Sete Capas na de Exu. Quem é o Exu homônimo está em Exu Sete Encruzilhadas.
De onde vem o nome: os sete caminhos
O registro mais antigo do sentido do nome está no livro de Leal de Souza, de 1933. O espírito estava no espaço, “no ponto de interseção de sete caminhos, chorando sem saber o rumo que tomasse”, quando lhe apareceu Jesus. Jesus lhe mostrou a missão, e ele tirou o nome do número de caminhos que o desorientavam.
Leal conta também a primeira aparição aos videntes: um homem de meia-idade, de túnica branca, com uma faixa em que brilhava a palavra “Caritás”. E supõe que, em alguma encarnação, ele tenha sido sacerdote, sem dizer qual.

A tradição guarda outra leitura do nome, na frase atribuída ao Caboclo na sessão de 1908:
“E se querem saber meu nome que seja Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim.” (frase atribuída pela tradição, em Oliveira, 2013)
Para o sociólogo Fiorotti, ouvido pela BBC, a encruzilhada é onde “não há caminho fechado”, e “sete encruzilhadas” é “o infinito de possibilidades”.
Ogum ou Oxóssi: a linha do Caboclo
As fontes divergem, e a própria casa conta a divergência. Leal de Souza põe o Caboclo na Linha de Ogum. Numa gravação do aniversário de 63 anos da Tenda, o próprio Caboclo, incorporado em Zélio, se diz da Linha de Oxóssi.
O livro de pontos da Tenda dá razão às duas leituras. Os pontos que o nomeiam estão na seção de Oxóssi. Mas o ponto de abertura canta “Sete Encruzilhadas em seu terreiro / E Ogum em toda gira”.
Nas casas, ele é saudado como os outros caboclos. “Okê Caboclo” é uma adaptação da saudação “Okê Oxóssi”, segundo o historiador Lourival Andrade Júnior. “Okê Arô” também é dito aos caboclos [D7, D8]. Nenhuma fonte registra uma saudação só dele. A linha inteira está em caboclos na umbanda.
Gabriel Malagrida: a vida passada que o relato lhe dá
O relato que se firmou depois diz que o Caboclo foi, em vida passada, o jesuíta Gabriel Malagrida. Na gravação dos 63 anos, o próprio Caboclo fala da encarnação como Malagrida, segundo a descrição da Tenda.
Quem foi Malagrida tem fonte forte. Nasceu em Menaggio, na região de Milão, e ficou conhecido como “apóstolo do Brasil” pelas missões no Pará e no Maranhão, segundo o Arquivo Nacional. Condenado pela Inquisição, foi estrangulado e queimado no Rossio, em Lisboa, em setembro de 1761 [D3, C38]. Foi o último réu da Inquisição portuguesa a sofrer pena de morte, segundo a RTP. O processo está na Torre do Tombo.
Um detalhe corrige muita página: Malagrida não foi queimado vivo. O garrote veio antes da fogueira [C38, D3, D5].
A identificação veio com o tempo. Leal de Souza, em 1933, só fala em sacerdote. O historiador Artur Cesar Isaia, da UFSC, registra que Leal “não assume” a versão Malagrida. Para a dissertação de André Pereira, do CEFET/RJ, primeiro se dizia que ele tinha sido “um padre em vida passada”. Só com o tempo o padre ganhou o nome de Malagrida.
Pai Antônio e os pontos: como a casa o lembra
O Caboclo não trabalhava sozinho. Leal de Souza já descreve, em 1933, um preto-velho da casa, Pai Antônio, fumando cachimbo durante os trabalhos. A narrativa põe Pai Antônio chegando logo depois do Caboclo, em 1908. Quem são os pretos-velhos está em pretos-velhos na umbanda.
Na Tenda da Piedade, hoje em Cachoeiras de Macacu (RJ), os guias “atuam sob o comando do Caboclo das Sete Encruzilhadas”, e o atendimento é individual e gratuito. A casa não usa atabaque, palmas nem dança. Os médiuns trabalham de branco e descalços, “conforme as determinações do Chefe”.
A casa também guarda o que ele deixou. Há uma mensagem do Chefe datada de 21 de dezembro de 1919 e uma psicografia chamada “Paz”, assinada como “o mais pequenino dos espíritos”. E há os pontos. Um deles abre as sessões da Tenda até hoje:
“E ao romper da aurora / Até alta madrugada / Gira o Caboclo / Das Sete Encruzilhadas” (Livro de Pontos Cantados da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade)
Nas outras casas, ele é lembrado sobretudo no 15 de novembro, com sessão festiva em homenagem ao guia e ao médium. A vida do médium está em Zélio de Moraes. Na sua casa, a homenagem pede vela branca ou rosas brancas no congá? A Joia Mística confere o material pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
Qual caboclo fundou a umbanda?
Segundo a tradição, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, manifestado em Zélio de Moraes em 15 de novembro de 1908, em Niterói. No dia seguinte, pela versão da casa, nasceu a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Os pesquisadores tratam o episódio como mito de origem, porque a religião se formou ao longo de décadas.
O Caboclo das Sete Encruzilhadas é o mesmo que o Exu Sete Encruzilhadas?
Não. O Caboclo é um guia da linha de caboclo, ligado a Zélio de Moraes. “Sete encruzilhadas” também é nome de território de vários Exus e Pombagiras, da esquerda. O próprio livro de pontos da Tenda da Piedade separa os dois: o Caboclo na seção de Oxóssi e Seu Sete Capas na de Exu.
Quem foi o Caboclo das Sete Encruzilhadas em vida passada?
O relato posterior diz que ele foi o jesuíta Gabriel Malagrida, missionário no Brasil, estrangulado e queimado em Lisboa em 1761. Leal de Souza, em 1933, só dizia que ele tinha sido sacerdote. Pesquisadores leem a identificação com Malagrida como camada acrescentada com o tempo.
Qual é a linha do Caboclo das Sete Encruzilhadas?
As fontes divergem. Leal de Souza, em 1933, o põe na linha de Ogum. Numa gravação dos 63 anos da Tenda, o próprio Caboclo se diz da linha de Oxóssi, e o livro de pontos da casa o põe na seção de Oxóssi. Se você quer saber que linha combina com você, faça o teste descubra a sua entidade.
Referências
- SOUZA, Leal de. O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, 1933. PDF do Instituto Mata Verde
- ANDRADE JÚNIOR, Lourival. Mneme (UFRN), 2014. Os caboclos nas religiões afro-brasileiras
- Arquivo Nacional. Glossário de História Luso-Brasileira. Malagrida, Padre Gabriel
- RTP Ensina. Execução do Padre Gabriel Malagrida, em Lisboa
- PEREIRA, André Luiz Freire. Dissertação, CEFET/RJ, 2023. História e memória da umbanda