No dia 20 de janeiro, o Rio de Janeiro para para celebrar seu padroeiro. É o dia de São Sebastião, o santo soldado morto a flechadas, e também o dia de Oxóssi, o orixá caçador das matas e da fartura. Para grande parte do Brasil, sobretudo nos terreiros do Sudeste, os dois se encontram numa mesma devoção. Mas será que São Sebastião é mesmo Oxóssi? A resposta é bonita, e muda conforme a região.
Este artigo conta quem foi São Sebastião, quem é Oxóssi, por que a flecha os aproximou, como o 20 de janeiro é vivido no Rio e por que na Bahia esse mesmo orixá é ligado a outro santo. Com respeito às duas fés que dividem a data.
Quem foi São Sebastião
São Sebastião foi um soldado romano que viveu no século III, capitão da guarda pessoal do imperador Diocleciano. Cristão em segredo, usava sua posição para socorrer e fortalecer os perseguidos. Quando sua fé foi descoberta, o imperador ordenou sua execução: Sebastião foi amarrado a um tronco e crivado de flechas.
A tradição conta que ele sobreviveu às flechas, foi curado e voltou a confrontar o imperador sendo então morto de vez. Por isso a imagem que ficou famosa é a do jovem atado, o corpo perfurado por setas, o rosto sereno diante da dor. Essa cena tornou-se seu símbolo, e fez dele o padroeiro dos soldados, dos arqueiros e dos que enfrentam epidemias. No Brasil, ele é o padroeiro do Rio de Janeiro, cidade fundada em 1565 com o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Oxóssi, o orixá caçador
Do lado afro-brasileiro está Oxóssi, o orixá da caça, das matas, da fartura e do conhecimento das folhas. É ele quem entra na floresta em silêncio e volta com o sustento, o provedor que garante o alimento e domina os segredos da mata. Sua saudação é “Okê Arô!”, sua cor é o verde, e seu símbolo é o ofá o arco e a flecha do caçador de uma flecha só.
Aqui vai só o essencial, porque o blog já tem o perfil completo dele. Para conhecer a fundo a mitologia, as cores, a comida e as qualidades, vale ler quem é Oxóssi. Na umbanda, é Oxóssi quem comanda a linha dos Caboclos, os espíritos das matas. O que importa guardar é que a caça de Oxóssi não é violência: é a arte de prover, de mirar certo e sustentar a vida.
A flecha que une os dois
O encontro de São Sebastião com Oxóssi tem um símbolo no centro: a flecha. O santo é lembrado justamente pelas setas que perfuraram seu corpo, e o orixá é o senhor do arco e flecha. Diante de duas imagens tão parecidas um segurando o que o outro recebe, a associação foi quase inevitável aos olhos do povo.
Mas ela não nasceu de livre escolha. Durante a escravidão, os africanos eram proibidos de cultuar seus orixás. A saída foi esconder Oxóssi atrás da imagem de São Sebastião: diante do senhor, rezavam ao santo católico; no coração, saudavam o orixá das matas. O sincretismo foi, portanto, uma estratégia de resistência, e não uma fusão de religiões.
Por isso o sincretismo não é equivalência. São Sebastião continua sendo São Sebastião para o católico, e Oxóssi continua sendo Oxóssi para o povo de santo. O 20 de janeiro abriga duas devoções que se respeitam, cada uma com a sua fé.
20 de janeiro: o dia do Rio de Janeiro
O 20 de janeiro é feriado municipal na cidade do Rio de Janeiro, e mobiliza a cidade inteira. Do lado católico, a data tem novenas e uma das maiores procissões religiosas do país, que leva a imagem de São Sebastião pelas ruas do Centro entre multidões de devotos vestidos de vermelho e verde.
Do lado dos terreiros, há giras, pontos cantados e oferendas a Oxóssi, com frutas, milho e o verde das matas dominando os altares. Muitos devotos vivem as duas celebrações no mesmo dia, sem contradição: pela manhã acompanham a procissão do santo, à noite saúdam o caçador na gira. Para situar a data no ciclo das celebrações afro-brasileiras, veja o calendário dos orixás.
Na Bahia, Oxóssi é São Jorge
Aqui está o ponto que quase ninguém conta, e que mostra como o sincretismo é vivo. A associação entre Oxóssi e São Sebastião vale para o Rio de Janeiro, o Sudeste e a umbanda. Mas ela não é uma regra universal.
Na Bahia, no candomblé de tradição ketu, Oxóssi costuma ser ligado a São Jorge, o santo guerreiro montado como já contamos no artigo sobre São Jorge e Ogum. E em Pernambuco, a tradição costuma associar Oxóssi a São Miguel Arcanjo. Um mesmo orixá, três santos diferentes, conforme a história de cada lugar.
Isso não significa que uma região esteja certa e a outra errada. É o mesmo que acontece com Santa Bárbara e Iansã ou com Nossa Senhora Aparecida e Oxum: cada terreiro leu as semelhanças à sua maneira. A regra de ouro continua valendo quem define a correspondência é o fundamento de cada casa.
A cautela dos terreiros de tradição
Vale uma palavra sobre o cuidado que muitos terreiros pedem hoje. Se o sincretismo foi ferramenta de sobrevivência, parte crescente do povo de santo escolhe separar o santo do orixá, afirmando que Oxóssi é Oxóssi e São Sebastião é São Sebastião, cada um em sua tradição.
Esse movimento não é desrespeito a ninguém. É o reconhecimento de que as religiões afro-brasileiras não precisam mais se esconder e podem afirmar sua identidade com orgulho. Quem celebra os dois juntos honra a resistência dos antepassados; quem prefere separá-los honra a autonomia da própria fé. As duas atitudes têm o seu lugar, e ambas merecem respeito.
Perguntas frequentes
São Sebastião é Oxóssi?
No sincretismo do Rio de Janeiro, do Sudeste e na umbanda, sim, São Sebastião é associado a Oxóssi, o orixá caçador. Mas eles não são a mesma divindade: são figuras de religiões diferentes, ligadas pela imagem comum da flecha. A correspondência varia conforme a região, e muitas casas hoje preferem manter o santo e o orixá separados.
Por que São Sebastião é associado a Oxóssi?
Pela flecha. São Sebastião foi morto crivado de flechas, e Oxóssi é o orixá do arco e flecha, o ofá. Durante a escravidão, os africanos esconderam Oxóssi atrás da imagem de São Sebastião para poder cultuá-lo sem serem punidos. Foi uma estratégia de resistência espiritual, não uma fusão de fés.
Que dia é o dia de São Sebastião e Oxóssi?
O dia é 20 de janeiro. É a data de São Sebastião no calendário católico e, no sincretismo, também o dia em que muitos celebram Oxóssi. No Rio de Janeiro, do qual São Sebastião é padroeiro, a data é feriado municipal, com grande procissão e, nos terreiros, giras dedicadas ao orixá caçador.
São Sebastião é Oxóssi ou São Jorge?
Depende da região. No Rio de Janeiro e no Sudeste, São Sebastião é ligado a Oxóssi. Já na Bahia, no candomblé ketu, é São Jorge quem costuma ser associado a Oxóssi, enquanto em Pernambuco o orixá é ligado a São Miguel Arcanjo. Não é contradição, e sim a pluralidade viva do sincretismo brasileiro.
Quem é o padroeiro do Rio de Janeiro?
O padroeiro do Rio de Janeiro é São Sebastião. A própria cidade foi fundada em 1565 com o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, em homenagem ao santo. Por isso o 20 de janeiro é uma das datas mais importantes do calendário religioso carioca, celebrada por católicos e por praticantes das religiões afro-brasileiras.
Onde encontrar artigos para São Sebastião e Oxóssi
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar o santo e o orixá:
- Imagens de São Sebastião e de Oxóssi: para o seu altar
- Ofá (arco e flecha): o símbolo do orixá caçador
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Referências
- Wikipédia: São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro
- Wikipédia: Oxóssi, o orixá caçador