A oferenda para Pombagira que as pesquisas de terreiro registram é feita do que ela usa na gira: rosas vermelhas abertas, champanhe, perfume, cigarrilha e farofa com mel. Na umbanda a comida vai para fora do terreiro, e no candomblé fica ao pé dela. O resto, inclusive onde e quando, se confere com o pai de santo.
O que se oferece para Pombagira, segundo as pesquisas
O princípio vem de Reginaldo Prandi: presenteia-se a Pombagira com as coisas que ela usa no terreiro quando incorporada. São tecidos vermelhos e pretos, perfumes, joias, champanhe, cigarrilha e rosas vermelhas abertas. As velas são vermelhas, pretas e às vezes brancas. Ela é um Exu-mulher, como gosta de ser chamada, e o retrato está em quem é Pombagira.
Na umbanda, a dieta é curta. Prandi registra o padê de dendê e pimenta, comida predileta de Exu, e um prato que é dela: farofa de mandioca com mel. Em Bocaiuva, Minas Gerais, o padê das pombagiras leva dendê e mel juntos. A diferença entre o padê de Exu e o agrado dela está em oferenda para Exu.
A bebida é champanhe, sidra, vinho branco ou aguardente, e cada Pombagira tem a sua preferência. O assunto está em bebida de Pombagira.
Flor: rosa vermelha aberta | Bebida: champanhe ou sidra | Comida: farofa com mel | Vela: vermelha e preta | Lugar: encruzilhada em T
Os presentes que mais agradam: flores, ouro e perfume
Em casas de candomblé e umbanda de Porto Velho, Nilza Lagos perguntou a 14 pessoas qual é o melhor presente para a Pombagira. Seis disseram flores, e cinco disseram ouro. O perfume ficou em terceiro, seguido de champanhe e cigarros, tecidos, leques, lenços, pedras e tamancos.
Nas festas que ela acompanhou, champanhe ou sidra e cigarro não podem faltar. Levar os dois é obrigação de quem incorpora a Pombagira, e o visitante costuma levar como colaboração. Na Festa da Rainha Pombagira Sete Encruzilhadas, em Fortaleza, ela ganha flores, perfumes e joias.
A etnografia de Bocaiuva tem a lista mais longa. As oferendas das dez pombagiras daquela casa não são muito diferenciadas: espumante, frutas vermelhas, rosas vermelhas, leite condensado, cravo, canela, alecrim, alfazema, fitas, cigarrilhas, espelho, pente, maquiagem e perfume. Um terreiro de umbanda de Campo Largo, no Paraná, põe farofa doce e frutas vermelhas e roxas.
A taça também é dela. Numa festa em Cuiabá, cada entidade tinha sua bebida e seu copo, e umas pombagiras tomavam champanhe em taça enquanto outras tomavam uísque. Taça, perfume, cigarrilha, rosa e vela vermelha e preta estão na Joia Mística, em Extrema.
Onde se entrega a oferenda de Pombagira
O lugar depende da tradição. Na umbanda, a comida vai de preferência para fora do terreiro, na encruzilhada ou na praia. No candomblé, fica “ao pé da Pombagira”, junto às representações de ferro dela, guardadas longe dos não iniciados. Por que isso é assunto de casa está em assentamento de Pombagira.
A encruzilhada tem forma. Prandi e Cristiane Barros registram que as encruzilhadas em forma de T são de Pombagira, e as abertas, em cruz, são de Exu. Trocar uma pela outra é quizila. Os outros formatos estão em encruzilhada na quimbanda.

Nem toda Pombagira recebe na rua. As cruzadas com as almas, como a do Cruzeiro, a da Calunga e a Rosa Caveira, recebem no cemitério ou no cruzeiro do cemitério. Outras preferem a praia, o cais ou a mata fechada. Em Corumbá e Ladário, parte da oferenda fica no terreiro. A outra vai para a rua, o cemitério, a estrada de terra ou o trilho do trem.
O ponto certo se aprende na casa. Num terreiro gaúcho, Mãe Ângela resume: “tem que saber arriar”. Entrega em cemitério é decisão do dirigente.
O que não se dá à Pombagira
Lagos achou impossível fechar a lista de presentes, então perguntou a um babalorixá de Porto Velho o que não se dá à Pombagira:
“não se dá à Pombagira aquilo que nós não gostaríamos de ganhar, aquilo de que não gostamos”
Babalorixá Carlos de Ogum, citado por Nilza Lagos (UMESP, 2007)
Três regras têm fonte com nome:
- Botão de rosa não entra. Cristiane Barros explica: o botão simboliza pureza e virgindade. A rosa vai quase aberta e sem espinhos, vermelha, amarela ou branca, conforme a qualidade da Pombagira. Mais sobre a flor em a rosa nas oferendas.
- Cada encruzilhada tem dona. Na Encruza-Maior, onde reina a Rainha, não se deposita a oferenda de outra Pombagira.
- Lixo não é presente. Um estudo sobre oferendas no Rio cita a orientação: os orixás não se alimentam de alguidares, garrafas e tigelas. Garrafa de vidro e vela de parafina estão no centro do conflito com a administração ambiental.
Prandi registra que a cada pedido corresponde uma oferenda, e que descobrir a certa é desafio dos pais e mães de santo. A Joia Mística não ensina oferenda para trazer pessoa, prender amor ou garantir resultado.
Quem decide: a entidade pede e a casa conduz
Na gira, a própria Pombagira diz o que quer. Conforme o pedido, ela pode pedir um buquê, uma garrafa da bebida dela, uma peça de roupa, velas ou um ebó. Barros escreve que o devoto confere com o pai de santo o que ofertar, onde, como e quando.
A oferenda também é agradecimento. Numa casa de Buenos Aires, a primeira obrigação do filho é dar de comer ao seu Exu ou à sua Pombagira, para pedir ou agradecer. Em Corumbá e Ladário, a oferenda se chama obrigação e serve para retribuir o bem recebido. No terreiro gaúcho, quem é de dentro fala em preparos, que mudam com o objetivo, o culto e a entidade.
Depois da entrega, o que não se desfaz volta com quem levou. A casa de Bocaiuva sabe que precisa recolher o material, mesmo quando não consegue. Entre nove dirigentes ouvidos, quase todos do Rio, sete orientavam a preservar o meio ambiente, e a orientação mais citada foi recolher o material e pôr no lixo. Se a casa pediu uma lista, a equipe da loja confere o material com você pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
Qual oferenda para Pombagira Menina?
Depende de como a casa entende a Menina. Num terreiro de umbanda do Paraná, onde ela é da linha mirim, recebe as mesmas farofas de Exu e Pombagira, com cacau ou chocolate e pimenta dedo-de-moça. Em outra casa, a resposta é da própria casa. O perfil está em Pombagira Menina.
Quando fazer oferenda para Pombagira?
Há casas que fazem uma festa grande por ano para exus e pombagiras, e nela os clientes mandam bebidas, comidas e adereços. Fora da festa, a oferenda acompanha a gira e o pedido da entidade. O dia da semana muda de casa para casa, e o assunto está em dia de Pombagira.
Como despachar a oferenda de Pombagira?
Quem despacha é a casa, no lugar que a entidade aceita: encruzilhada em T, praia, mata ou cemitério, conforme a Pombagira. O passo a passo é fundamento do terreiro e não está em texto aberto. O que vale para todos é voltar e recolher garrafa, vela e louça.
Referências
- Reginaldo Prandi: Pombagira e as faces inconfessas do Brasil, Herdeiras do Axé, Hucitec, 1996
- Cristiane Amaral de Barros: Iemanjá e Pomba-gira, imagens do feminino na umbanda, dissertação, UFJF, 2006
- Nilza Menezes Lino Lagos: representações de gênero nas manifestações da Pombagira, dissertação, UMESP, 2007
- Fábio da Silva Gonçalves: a comida nos terreiros de Bocaiuva, dissertação, UFMG e Unimontes, 2017
- Pablo Maximiliano Ojeda: kimbanda em Buenos Aires, Debates do NER, UFRGS, 2021
- Jean Souza dos Anjos: a Festa da Rainha em Fortaleza, GIS, USP, 2021
- Dandara Rodrigues Dorneles e José Carlos Gomes dos Anjos: Oferendas? Preparos e composições afro-religiosas, Revista Espaço Acadêmico, 2021
- Maria Eduarda Rodrigues da Silva: Correr gira, exus e pombagiras em Corumbá e Ladário, dissertação, UFMS, 2024
- Ramon Sobreira e Carlos Saldanha Machado: práticas afro-brasileiras e meio ambiente no Rio, Revista Visões, 2008
- Heloisa Lima de Carvalho: mulheres e pombagiras em Cuiabá, dissertação, UFMT, 2018
- Casa do Vô Benedito: Exu, Pombagira e Exu Mirim, terreiro de umbanda, Campo Largo (PR)