A bebida de Pombagira que a pesquisa de terreiro registra é sempre da mesma família: bebida de brinde, doce ou aromatizada, servida em taça. Espumante, champanhe, vinho branco ou doce, vermute e cidra aparecem em quatro trabalhos de campo diferentes.
Este guia mostra o que as fontes sustentam, por que a escolha muda de uma entidade para outra, e o que não se oferta.
O que as fontes registram
Quatro pesquisas independentes chegam ao mesmo tipo de bebida, ainda que mudem o rótulo.
- Reginaldo Prandi, em Pombagira e as faces inconfessas do Brasil, registra aguardente, vinho branco ou champanhe, e define a cidra como uma espécie de champanhe barata feita de maçã.
- Melina Sousa Gomes, em pesquisa apresentada na Reunião Brasileira de Antropologia, registra champanhe e martine, o vermute, como bebidas ligadas ao luxo e associadas às Pombagiras.
- Fábio da Silva Gonçalves, na dissertação sobre a comida nos terreiros de Bocaiuva, registra espumante nas giras e festas de Pomba-Gira.
- Geraldo de França Alves Júnior, em etnografia sobre o uso ritual de bebida no litoral da Paraíba, registra o vermute servido em cálice e a cidra muito estimada.
A cidra merece parágrafo próprio, porque desarma um complexo. Ela não é substituto improvisado nem gambiarra de quem não tem dinheiro, é registro legítimo e antigo, com nome e função dentro do culto. Bebida cara não agrada mais que bebida barata.
O retrato manda na taça
A escolha não é gosto de quem leva nem capricho da entidade. É o retrato dela.
Prandi resume a lógica: presenteia-se a Pombagira com as coisas que ela usa no terreiro quando incorporada, ou seja, tecidos sedosos em vermelho e preto, perfumes, joias, champanhe, cigarrilha e rosas vermelhas abertas. A taça está na mesma lista que o perfume porque as duas compõem a mesma figura.
Gonçalves formula isso de modo mais direto: a comida oferecida é um arquétipo da própria entidade. E mostra a régua funcionando na casa inteira. Doce e refrigerante para os erês, pipoca e café para os pretos-velhos, espumante e frutas vermelhas para as Pombagiras, farofa de dendê para os Exus.
É por isso que a mesma força pede coisas diferentes em casas diferentes. Prandi descreve uma entidade de muitos retratos, que vez por outra é a grande dama, fina e requintada. A dama pede taça, a entidade de rua pede o que a rua tem, e a de cemitério pede o que a calunga aceita. Os retratos estão em quem é Pombagira.
Por nome: o que dá e o que não dá para afirmar
Aqui a internet promete uma tabela que as fontes não sustentam. Gonçalves acompanhou dez Pombagiras cultuadas num mesmo terreiro e escreveu que as oferendas delas não são muito diferenciadas.
O que existe de registro nomeado é pouco, e vale dizer com a fonte ao lado:
- Maria Padilha recebe vermute em cálice, passado de mão em mão, na casa que Alves Júnior acompanhou. É uma casa, não é regra nacional. O perfil está em Maria Padilha.
- Sete Saias aparece ligada ao champanhe num manual popular que Prandi reproduz a título de ilustração. É o único registro nomeado para ela, e o peso é baixo. Veja Pombagira Sete Saias.
- A Cigana aparece com cachaça, vinho ou champanhe, à escolha, no mesmo manual. O perfil está em Pombagira Cigana.
- Rosa Caveira e Maria Mulambo não têm bebida própria em fonte acadêmica. O vinho tinto seco e o marafo que circulam são registro corrente de casa, e é assim que devem ser tratados.
Quem define a bebida é a casa, e a entidade diz na hora. Lista de internet não substitui nem uma coisa nem outra.
Como se serve, e o que se faz com o resto
O recipiente separa as entidades antes mesmo da bebida. Alves Júnior observou a diferença numa mesma noite: para a Pombagira, cálice; para caboclo e mestre, um copo rústico de barro; para preto velho, o copo típico de dose.
O ritmo também é próprio. Ele registra que elas bebem pausadamente, ao contrário de outras entidades, que viram o copo de um gole.
Há ainda o gesto de partilha, que aparece em dois campos diferentes com a mesma forma. A entidade bebe, despeja um pouco na taça do assentamento e oferece uma golada a quem veio pedir. Parte fica com ela, parte volta para o consulente.
Sobre onde se põe, Prandi anota a diferença: na umbanda a oferenda vai para fora do terreiro, na encruzilhada ou na praia, e no candomblé fica ao pé da Pombagira. O território dela está em a encruzilhada na quimbanda.
O descarte é o ponto que nenhum concorrente cobre. Gonçalves registra como norma da casa que estudou o recolhimento do material algumas horas depois. Ele discute o custo ambiental de vela, plástico e garrafa deixados na natureza. Vidro na mata não é oferenda, é lixo.
O que não se oferta
Esta é a parte que evita erro, e cada item tem fonte.
- Cerveja não é o retrato dela. Gomes coloca a cerveja no campo do caboclo, e nenhuma das quatro fontes a registra como bebida de Pombagira. Não é veto absoluto, porque quem manda é a casa, mas não é o padrão.
- Destilado forte fora do perfil. A mesma pesquisadora escreve que cachaça e uísque estão mais ligados aos Exus. O guia deles é oferenda para Exu.
- Botão de rosa. Prandi é específico: rosas vermelhas abertas, nunca botões. Há registro de casa que aceita as duas formas, como mostra a rosa nas oferendas, então confira na sua.
- Bebida que a entidade não pediu. Alves Júnior registra que a entidade define o tipo e a quantidade que aceita. Levar por conta própria o que ela não pediu não é agrado.
- Bebida alcoólica onde a casa não trabalha com álcool. Isso muda tudo, e tem seção própria abaixo.
Uma confusão de vocabulário atravessa o assunto e vale desfazer. O anis que aparece nas listas de oferenda de Pombagira é o anis estrelado, a especiaria, e não o licor de mesmo nome. O licor é registro corrente de casa, não de pesquisa.
As casas que não trabalham com álcool
Isso não é exceção rara, é divergência real, e a mesma pesquisa documenta os dois lados na mesma cidade. Num dos terreiros que Gonçalves estudou, bebida e cigarro são constantes no rito e no cotidiano. No outro, fumar durante a gira é tratado como desrespeito, e a casa trabalha com café, açafrão e óleo de coco.
Gomes dá a régua geral: cada centro tem modo de funcionamento próprio, e a heterogeneidade entre terreiros é grande. Não existe norma nacional sobre isso.
Vale registrar como as próprias casas explicam o uso. Uma mãe de santo entrevistada por Alves Júnior diz que não bebe e não fuma, e que quem consome é a entidade. Gonçalves registra a mesma crença: os elementos são instrumento de trabalho energético, não bebedeira.
A conclusão prática cabe numa frase. Se você tem casa, pergunte ao dirigente antes de levar bebida, e se não tem casa, leve o mais simples e não invente. Quem quer ir mais fundo encontra o caminho em assentamento de Pombagira, que é assunto de casa e não de texto.
Perguntas frequentes
Qual Pombagira gosta de cerveja?
Nenhuma das quatro pesquisas de campo consultadas registra cerveja como bebida de Pombagira. Melina Sousa Gomes situa a cerveja no campo do caboclo. Onde a cerveja aparece no terreiro, é como bebida de convívio da casa, não como agrado da entidade. O padrão registrado é bebida de brinde em taça.
Qual Pombagira gosta de vinho?
O vinho branco aparece em Prandi como bebida de Pombagira em geral, e o vinho doce circula em registro de casa para a Cigana. Não existe lista confiável que separe as Pombagiras por rótulo. A etnografia mais detalhada do tema registra que as oferendas delas variam pouco entre si.
O que a Pombagira Sete Saias gosta de beber?
O único registro nomeado é champanhe, e vem de um manual popular que Prandi reproduz apenas como ilustração etnográfica. É pouco para virar regra. O caminho honesto é perguntar na casa que cuida de você, porque a entidade indica na gira o que aceita.
Pode oferecer bebida sem álcool para Pombagira?
Pode, e há casas que trabalham exatamente assim. A pesquisa de Fábio Gonçalves documenta terreiros que não usam álcool nem fumo e substituem por café e outros elementos. Espumante sem álcool circula como prática de casa para entidades de retrato jovem. Confirme com o seu dirigente.
Onde encontrar o material da oferenda
Na Joia Mística Laroyê você encontra os itens que aparecem nessas fontes:
- Taça e cálice para o agrado e para o assentamento
- Velas vermelha e preta, de palito e de sete dias
- Alguidar de barro em vários tamanhos
- Charuto e cigarrilha
- Perfume, rosa vermelha e fita nas cores dela
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Se você ainda não sabe qual entidade caminha com você, o teste do Exu é a porta de entrada. O contraste está em o que preto velho gosta de ganhar, onde o consenso é o café.
Referências
- Reginaldo Prandi: o capítulo que descreve o agrado da Pombagira, o champanhe e a cidra, Herdeiras do Axé, Hucitec, 1996
- Melina Sousa Gomes: a pesquisa sobre consumo de bebida em terreiro de umbanda, Reunião Brasileira de Antropologia, 2016
- Fábio da Silva Gonçalves: a dissertação sobre a comida nos terreiros de Bocaiuva, UFMG e Unimontes, 2017
- Geraldo de França Alves Júnior: a etnografia sobre o uso ritual de bebida em centros umbandistas, Reunião Brasileira de Antropologia, 2018