Os filhos de Omolu são descritos como pessoas reservadas, calmas, tímidas e pessimistas, que gostam de silêncio. O retrato muda de autor para autor, e Pierre Verger chega a falar em pessoas que “gostam de exibir seus sofrimentos”. No candomblé, o tabu registrado para eles é ir a funerais. Pipoca não está na lista de comidas proibidas de Verger.
Como são os filhos de Omolu
Os traços que mais se repetem são a timidez e a reserva. O ar sério esconde bondade. Para conhecer o orixá por trás dos filhos, veja quem é Obaluaê.
O sociólogo Reginaldo Prandi resume assim o que o candomblé diz deles:
“Seus filhos aparentam um aspecto deprimido. São negativos, pessimistas, inspirando pena.”
“Eles parecem pouco amigos, mas é porque são tímidos e envergonhados”. E fecha: precisam “de um pouco de atenção e uma pitada de amor”.
Prandi chama esses retratos de estereótipos. Ele os colheu em 60 terreiros paulistas de candomblé e diz que coincidem em grande parte com os de Salvador, do Rio e da África. Para ele, o que conta para o iniciado “é sentir-se próximo do modelo divino”.
Um trabalho de conclusão de curso da UFJF descreve os filhos de Obaluaê como “reservadas, calmas, pacatas e pessimistas”. O mesmo texto os chama de tímidos, cautelosos e amantes do silêncio, como pede a saudação Atotô.
Nome do filho: omolussi | Tabu: ir a funerais | Dia: segunda-feira | Contas no candomblé: vermelho, branco e preto
O “arquétipo” de Verger e o teste de Augras
Verger dá a descrição mais dura de todas. No livro Orixás, ele escreve:
“O arquétipo de Obaluaê é o das pessoas com tendências masoquistas, que gostam de exibir seus sofrimentos e as tristezas das quais tiram uma satisfação íntima.”
Para Verger, essas pessoas podem chegar a “situações materiais invejáveis” e largar tudo “por causa de certos escrúpulos imaginários”. Mas também podem se dar ao bem-estar dos outros, esquecendo os próprios interesses. “Arquétipo” é palavra dele. O termo de Prandi é estereótipo.
Entre as fontes, o único teste psicológico com filhos de santo é o da psicóloga Monique Augras e de Angela Maria Correa (FGV). Pelos mitos, Omolu seria “agressivo, mas controlado”, e às vezes voltaria a agressividade contra si. O relacionamento “não parece muito fácil”. Elas apontam ainda, como possibilidade, ansiedade e preocupação com o próprio corpo.
Os filhos de Omolu ouvidos destacaram a pertinácia do orixá. “Quando quer alguma coisa luta até conseguir”, disseram. No teste, os filhos de Omolu tinham “o mesmo tipo de vivência”, e dois mostravam ansiedade nítida.
Quantos eram? Três. As autoras avisam que a amostra é pequena. Três pessoas não fazem regra. Por que esses retratos não servem de teste de personalidade está em o que seu orixá diz sobre você.

O tabu de ir a funerais
Nas duas fontes que o registram, o tabu do filho de Omolu é ir a funerais. Está na tabela de Prandi. O trabalho da UFJF repete: o tabu “dos seus filhos” é “o de ir a funerais”.
Na mesma tabela de Prandi, o tabu de Xangô é parecido, mas mais largo: “contato com mortos e cemitérios”. O de Omolu fala só do funeral.
As fontes não dizem até onde vai o tabu: velório, enterro, cemitério ou axexê. Na prática, depende da casa. A psicóloga Dalva Barbosa estudou o Axé Baraleji, casa ketu de Goiás chamada “Casa dos Filhos de Omolu”. Lá, quando morreu a ialaxé, esposa dele, foi o próprio babalorixá, Tito de Omolu, quem saiu do hospital para cumprir no terreiro os primeiros ritos. A dissertação não discute o tabu.
Filho de Omolu que perdeu alguém e não sabe se vai ao velório pergunta ao pai ou à mãe de santo antes. A resposta é da casa.
Filho de Omolu pode comer pipoca?
Nenhuma fonte aberta põe a pipoca como quizila geral do filho de Omolu. A pipoca é a comida dele. Na tabela de Prandi, é “pipoca com fatias de coco”. No Olubajé fotografado por Lucas Barreto de Souza em Salvador, a comida vai em folha de mamona e é pega com as mãos. O preparo está em pipoca de Obaluaê.
Verger lista o que as pessoas ligadas a Obaluaê não comem, e Abrantes (UFRJ) dá a página:
- carne de carneiro;
- peixe de água doce de pele lisa e caranguejos;
- banana-prata, jacas, melões e abóboras;
- frutos de plantas trepadeiras.
A pipoca não está ali. Verger conta que, na segunda-feira, o adro da Igreja de São Lázaro, na Bahia, se cobre de pipocas que as pessoas passam no corpo para se proteger de doenças. Em 2024, a Prefeitura de Salvador registrou uma ialorixá que oferece banho de pipoca em frente à mesma igreja.
Existe quizila pessoal de pipoca? Existe. Um estudo da UFRB ouviu gente de terreiros do Recôncavo. Um entrevistado conta que um rapaz de 18 anos não come pipoca. Foi depois que “pocou as pernas” e ele teve que passar pipoca no corpo. O relato não diz o orixá dele. A autora separa a quizila de preceito da quizila pessoal de cada filho de santo.
Abrantes chama Obaluayê de orixá “cheio de quizilas”, e as casas têm as suas. O babalorixá Mário Cesar Barcellos dá a Omolu as quizilas “claridade e amêndoa”. Em Bocaiuva (MG), uma casa registra abacaxi, e outra, abacaxi e carne de porco, que valem também para os médiuns. E a quizila do pai de santo pode passar aos filhos de santo da casa. O que é quizila está em quizilas no candomblé.
Jagun não é Azoani: qualidade e juntó mudam o filho
Ninguém é filho de “Omolu em geral”. Para Prandi, o orixá da pessoa “deriva de uma qualidade do orixá geral”, que pode ser jovem ou idoso. Roger Bastide, citado por Augras, contou 14 subdivindades de Omolu.
Um filho de Jagun ouvido por Samuel Abrantes liga a qualidade ao jeito dele. “O meu é JAGUN, que é um OMOLU guerreiro, jovem menino”, disse, “daí esse meu temperamento”. Ele contou treze qualidades e admitiu: “Eu não sei todas”. Sobre Azoani, disse que “é bem JEJE” e veste palha azul.
Há ainda o segundo orixá da pessoa, o juntó, que Prandi chama de “divindade associada”. Quem busca “filho de Omolu e Iansã” ou “com Oxum” quase sempre fala disso. Nenhuma fonte aberta fala de casal que combina. O juntó está em pode ser filho de mais de um orixá?.
Omolussi: a guia e quem confirma o orixá
O filho de Obaluaê é chamado omolussi. No candomblé, as contas dele são vermelhas, brancas e pretas. Verger registra dois colares na Bahia: o lagidiba, de discos pretos, ou contas marrons com listras pretas. Na umbanda do Núcleo Umbandista São Sebastião, a cor é “branco e preto”. Como a umbanda trata o orixá está em Omolu na umbanda.
Quem diz se você é de Omolu é o pai ou a mãe de santo. Prandi escreve que é “prerrogativa religiosa do pai ou mãe-de-santo” descobrir o orixá “através do jogo de búzios”. O descubra seu orixá é ponto de partida, e o orixá pela data de nascimento é brincadeira declarada. Nenhum dos dois substitui o jogo.
Confirmado o orixá, a guia segue as cores que a casa der. O que se leva ao orixá está em oferenda para Omolu. Se quiser conferir uma guia ou a palha que a sua casa pediu, a Joia Mística Laroyê atende pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
Filho de Omolu pode comer pipoca?
Nenhuma fonte aberta põe a pipoca entre as quizilas gerais do filho de Omolu. Ela é a comida do próprio orixá, e a lista de proibições de Verger não a traz. Há caso de quizila pessoal de pipoca. Vale a palavra da sua casa.
O que filho de Omolu não pode comer?
Depende da casa. Verger lista carneiro, peixe de pele lisa, caranguejo, banana-prata, jaca, melão e abóbora. Barcellos fala em amêndoa. Em Bocaiuva (MG), abacaxi e, numa casa, carne de porco.
Filho de Omolu pode ir a velório?
O tabu registrado por Prandi e por um trabalho da UFJF é ir a funerais. As fontes não dizem se vale para velório, enterro e cemitério do mesmo jeito. Quem precisa ir pergunta antes ao pai ou à mãe de santo.
Filho de Omolu pode comer carne de porco?
Numa das duas casas de Bocaiuva (MG) estudadas na UFMG, não: ali a quizila de Obaluaiê é abacaxi e carne de porco. Na outra, só abacaxi. Verger não lista o porco. É regra de casa.
Como saber se sou filho de Omolu?
Pelo jogo, feito pelo pai ou pela mãe de santo da sua casa. Prandi diz que descobrir o orixá de cabeça é prerrogativa deles. Teste on-line e retrato de personalidade são curiosidade. Não confirmam nada.
Referências
- Prandi, Horizontes Antropológicos (UFRGS, 1995): Deuses africanos no Brasil contemporâneo
- Verger, livro (Corrupio, 1981): Orixás
- Augras e Correa, Arquivos Brasileiros de Psicologia (FGV, 1979): estudo com filhos de santo
- Guimarães, UFJF (2017): Obaluaê, o médico entre os orixás
- Abrantes, UFRJ (1996): Atotô Obaluayê Ajuberu
- Gonçalves, UFMG e Unimontes (2017): a comida nos terreiros de Bocaiuva
- Santos, UFRB (2018): Práticas alimentares nos terreiros
- Barbosa, UCB (2006): A escuta do filho de santo sobre a morte
- Souza, Fotocronografias (UFRGS, 2021): Olubajé no Ilê Axé Akaraizô
- Prefeitura de Salvador (2024): Festa de São Lázaro
- Núcleo Umbandista São Sebastião: Omulú