Conta o mito, narrado por Mãe Stella de Azevedo Santos, que Oiá era filha adotiva do caçador Odulecê. Quando ele morreu, ela juntou os instrumentos de caça dele num pano e dançou por sete dias. Na sétima noite entrou na mata e deixou os pertences ao pé de uma árvore sagrada. Olorum se comoveu e deu a ela o poder de guiar os mortos até o orum.
Nasceu ali o axexê, o rito fúnebre do candomblé. Ele não substitui o velório nem o enterro: acontece depois, no terreiro, e cuida do que a certidão de óbito não alcança.
Este guia explica o que o rito faz, o que acontece com os assentamentos, quem passa por ele e como cada nação o chama.
O que o axexê faz
O antropólogo Reginaldo Prandi, apoiado na obra de Juana Elbein dos Santos, resume o rito em três finalidades:
- Desfazer o assentamento do ori, aquele que foi fixado no bori.
- Desfazer os vínculos com o orixá pessoal e, com eles, os vínculos com a comunidade do terreiro.
- Despachar o egum, para que deixe o aiê e siga para o orum.
Repare que nenhuma das três tem a ver com o corpo. O axexê trata dos laços rituais que a pessoa construiu em vida, e que não se desfazem sozinhos.
O axexê não é festa. Tem canto e tem dança, mas o clima da celebração é propositalmente contido e triste.
O rito que inverte a iniciação
Cada gesto do axexê espelha, ao contrário, um gesto da feitura.
| Na iniciação | No axexê |
|---|---|
| A cabeça foi raspada e o oxu, fixado | O oxu é retirado logo após a morte |
| A cabeça foi lavada com amaci | A cabeça é lavada de novo, e essa água abre o despacho |
| O ori e o orixá foram assentados | Os assentamentos são desfeitos |
| O quelê foi amarrado no pescoço | O quelê é rompido |
| Os fios de conta foram cruzados | Os fios são rompidos e recolhidos |
Quem já leu sobre a trajetória do iaô reconhece a lista inteira. É a mesma sequência, lida de trás para frente.
Daí vem a regra de proporção: quanto mais tempo de santo, mais complexo o rito. Mais anos de iniciação significam mais vínculos a cortar.
O que acontece com o ori, o axé e os assentamentos
A antropologia iorubá descreve a pessoa em unidades espirituais, e cada uma tem destino próprio.
- Emi, o sopro vital, volta ao princípio da vida e é constantemente reutilizado.
- Ori desaparece, porque é único e pessoal. Ninguém herda o destino de outro. O ibá de ori é despachado.
- O orixá pessoal retorna ao orixá geral, do qual era uma parte mínima.
- Egum, o espírito com a biografia e a memória da pessoa, segue para o orum.
Sobre os objetos, Prandi é direto: os itens sagrados do morto são desfeitos, partidos e despachados num grande balaio que sai do terreiro. A trouxa com os fios rompidos, o quelê e as roupas rasgadas é o carrego. No dia seguinte, antes do pôr do sol, canta-se o arremate.
Nem toda casa desfaz tudo, e vale a ressalva. Giselle Cossard registra que os assentamentos nem sempre são desmanchados, e Prandi observa que assentos de fundadores costumam ficar com o terreiro. As duas leituras convergem num ponto: quem decide é o jogo. O sacerdote consulta o oráculo peça por peça.
Há ainda a versão mínima, hoje a mais comum: despacham-se os otás com um pouco de canjica e reaproveita-se o restante.
Quem passa por axexê e quanto tempo dura
Não é só o mais velho de santo que tem laços a cortar. Prandi registra que mesmo o abiã que já fez bori precisa ter o assento de ori despachado, em cerimônia mais simples.
O carrego de egum é a cerimônia fúnebre mínima devida a qualquer iniciado. O axexê completo é o que se faz para pessoa graduada na religião, e antecede o carrego.
Sobre a duração, as fontes divergem:
| Fonte | Duração |
|---|---|
| Cossard, via verbete de referência | uma, três ou seis noites, mais o arremate no dia seguinte |
| Antropólogo Fábio Lima | sete dias para os mais velhos, três para certos iniciados, um para os mais novos |
| Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular | de três a sete dias, começando depois do enterro |
O que todas concordam: a duração é proporcional ao tempo de santo e varia por casa e por nação. Não existe um número único.
Muitas casas ainda repetem o rito em intervalos: um mês, um ano e a cada sete anos são os mais citados. Prandi credita a repetição à influência do catolicismo, que repõe a missa fúnebre em datas regulares.
Sobre ogãs e ekedis, o mais honesto é dizer o que se sabe. São pessoas confirmadas, têm vínculos rituais e por isso também recebem rito. A forma exata varia por casa e por cargo, e não encontramos fonte segura para detalhar.
Axexê, sirrum e mukundu: o nome em cada nação
Tratar candomblé como bloco único apaga a diferença real. O rito fúnebre tem nome próprio em cada nação.
| Nação | Nome do rito |
|---|---|
| Ketu (iorubá) | axexê, também grafado asèsè |
| Jeje (fon) | sirrum, também grafado sirrun |
| Angola (banto) | mukundu, com ntambi como variante |
| Mina jeje e mina nagô | tambor de choro |
Há um detalhe bonito escondido nesse vocabulário. Em língua fon, sirrum e zerim nomeiam os instrumentos que substituem os atabaques no rito. O tambor de festa cala, e outro som entra no lugar.
O ketu segue a mesma lógica sonora. No lugar dos atabaques entram um pote de cerâmica batido com leques de palha e duas cabaças emborcadas em alguidares com água.
Uma limitação que vale declarar: as fontes que consultamos confirmam o nome do rito na nação angola, mas não descrevem a liturgia dele. Preferimos registrar a lacuna a preenchê-la com suposição.
Egum é ancestral, não assombração
Egum é o espírito do morto: a memória, a biografia, a ligação concreta daquela pessoa com a comunidade. Não é entidade genérica, não é espírito atrasado, não é alma penada.
Esse vocabulário vem da umbanda e do espiritismo kardecista, tradições respeitáveis e distintas do candomblé. Importá-lo apaga o conceito iorubá. Prandi chama esse processo de umbandização do candomblé e o descreve como perda.
Depois de completado o rito, o egun se torna egungun, o ancestral honrado que pode voltar a interagir com a comunidade. Em Itaparica, na Bahia, o Terreiro Omo Ilê Agbôula é a casa mais antiga dedicada só ao culto aos babá egum. Fundado em 1940, foi reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil em 2015.
Esse culto é especializado e concentrado em poucas casas. Ele não é rotina de terreiro de orixá.
Entre os orixás, quem preside o axexê é Iansã, a quem se atribui a condução dos mortos até o orum. Manifestam-se também Nanã, Euá, Omulu, Oxumarê, Ogum e, por vezes, Obá. Xangô não participa.
A família de sangue, a família de santo e o ciclo que se fecha
A ordem prática costuma confundir quem chega de fora.
Logo após a morte, os sacerdotes cuidam da retirada do oxu. Depois vem o enterro, assunto da família civil, do cartório e do cemitério. Só depois disso o terreiro organiza o axexê.
No terreiro, o rito acontece em dois espaços. Num recinto reservado, onde poucos entram, os objetos são desfeitos. No barracão ficam os membros da casa, os parentes e os amigos, e ali todos dançam. O morto é representado por uma cabaça vazia que recebe moedas.
Este artigo descreve o sentido do rito, não o procedimento. O axexê é conduzido por sacerdote com fundamento, e boa parte dele acontece onde só o fundamento entra.
Prandi termina o estudo dele com uma constatação incômoda. A maioria dos iniciados acaba não recebendo sequer um dia de axexê, por custo, por falta de sacerdote habilitado ou por desinteresse da família civil. E resume o que está em jogo: sem axexê, o ciclo não se fecha.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura o axexê?
Não há número fixo. As formas mais citadas são uma, três, seis ou sete noites, seguidas do arremate na tarde seguinte. A duração é proporcional ao tempo de iniciação: sete dias para os mais velhos de santo, um dia para os mais novos. Cada casa e cada nação tem sua medida.
Quem pode participar do axexê?
No barracão ficam os membros do terreiro, os parentes de sangue e os amigos, e todos dançam para o egum. Já o recinto reservado, onde os objetos são desfeitos, recebe apenas quem tem fundamento para estar ali. Não é exclusão social, é divisão ritual de função.
O que é o carrego de egum?
É a trouxa que reúne o que foi desfeito: fios de conta rompidos, o quelê, roupas rasgadas e os objetos partidos. Também nomeia a cerimônia fúnebre mínima devida a qualquer iniciado, mais curta que o axexê completo. Exu é propiciado antes, porque é ele quem leva o carrego.
Qual a diferença entre axexê, sirrum e mukundu?
São nomes do rito fúnebre em nações diferentes. Axexê é ketu, sirrum é jeje e mukundu é angola, com ntambi como variante. O propósito é próximo, mas a liturgia, os cantos e a língua mudam. Nas casas de mina o rito aparece como tambor de choro.
O axexê substitui o velório e o enterro?
Não. O velório, o enterro ou a cremação seguem a via civil normal, com toda a burocracia de óbito. O axexê vem depois, no terreiro, e trata do que a lei não trata: os vínculos rituais entre a pessoa, o orixá dela e a comunidade de santo.
Onde encontrar itens de uso litúrgico
Um lembrete antes de tudo: o axexê não se compra. Quem precisa dele deve procurar o próprio terreiro. O que a loja oferece são os itens de uso corrente da vida religiosa.
Na Joia Mística Laroyê, você encontra:
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Para estudar o tema a fundo, o texto de referência é Conceitos de vida e morte no ritual do axexê, de Reginaldo Prandi, aberto no site da USP. A leitura acadêmica mais recente é Os ritos mortuários no candomblé, de Yasmin Estrela Sampaio. E a obra fundadora continua sendo Os Nàgô e a morte, de Juana Elbein dos Santos.
Referências
- Reginaldo Prandi (USP): Conceitos de vida e morte no ritual do axexê
- Yasmin Estrela Sampaio (SciELO, revista Mediações): Os ritos mortuários no candomblé