Dizem que filho de Xangô entra na sala e a sala percebe. O retrato dos filhos de Xangô é um dos mais repetidos quando o assunto é orixá. É também um dos mais mal usados, porque vira teste de personalidade em três cliques.
Este artigo mostra o que a tradição de fato registra sobre o filho do rei de Oió, em luz e em sombra, o que a qualidade do orixá muda nesse perfil e como o dono da cabeça se descobre de verdade.
O estereótipo de Xangô, e o que essa palavra significa
Antes das características, vale entender de onde elas vêm. O sociólogo Reginaldo Prandi, em Deuses africanos no Brasil, usa a palavra estereótipo, não arquétipo. E ele diz de onde tirou o material: pesquisa de campo em 60 terreiros paulistas de candomblé, com trabalho mais longo em três casas.
Isso muda tudo na leitura. Não é intuição de portal de astrologia. É descrição colhida com povo de santo, e Prandi registra que os retratos batem em grande parte com os colhidos em Salvador, no Rio de Janeiro e na própria África.
No caso de Xangô, o retrato fala de pessoas que se dão bem em justiça, negócios e burocracia. Gente que sente ter nascido para ser rei ou rainha, teimosa, resoluta e gulosa, com apetite por dinheiro, comida e poder. E que cria e protege a família além do usual, o que faz delas bons amigos e bons pais.
A formulação mais antiga vem de Pierre Fatumbi Verger. Ele descreveu o arquétipo como o das pessoas voluntariosas e altivas, conscientes da própria importância, corteses no trato, mas incapazes de tolerar contradição. Para conhecer a divindade por trás disso, o texto é quem é Xangô.
As características dos filhos de Xangô
Aqui vai o ponto que quase nenhuma página diz: a lista de defeitos do filho de Xangô é o mesmo material da lista de virtudes. É o elogio visto pelo outro lado.
| Em luz | O mesmo traço em sombra |
|---|---|
| Senso de justiça, decide e sustenta a decisão | Julga rápido e não revê o veredito |
| Autoridade natural, ocupa o ambiente | Autoritarismo, não aceita ser contrariado |
| Generosidade, gosta de mesa cheia e de dividir | Excesso na comida, na bebida e no gasto |
| Coragem, encara o conflito de frente | Raiva que sobe rápido, e passa rápido |
| Orgulho que sustenta a dignidade | Prepotência e dificuldade de pedir desculpa |
| Carisma que atrai gente | Vaidade e vida afetiva dispersa |
| Protege a família com afinco | Superproteção e controle |
Nenhum orixá é nem inteiramente bom, nem inteiramente mau. A frase é de Prandi, e ele acrescenta que as noções ocidentais de bem e de mal simplesmente não organizam a religião dos orixás no Brasil.
Ninguém reúne todos esses traços, e nenhum deles é destino. O tema da virtude e da sombra em cada orixá tem página própria em o que o seu orixá diz sobre você.
Vale dizer também que esses traços valem para homens e mulheres. Filha de Xangô é tão justa, tão altiva e tão dona da própria decisão quanto qualquer filho do orixá.
Corpo e presença: o que a tradição descreve
As descrições de campo falam de corpo forte, ossatura larga, ombros abertos, estatura média e tendência a engordar. Falam também de postura altiva, do queixo alto e da voz que se impõe sem esforço.
E as mesmas fontes registram a exceção na frase seguinte: há também os magros e muito elegantes.
Guarde isso como retrato mítico, e não como diagnóstico. Corpo não determina orixá, e orixá não determina corpo. Muita gente chega ao terreiro esperando encontrar o próprio biotipo numa lista e sai frustrada, porque essa nunca foi a função do estereótipo.
A qualidade muda o filho de santo
Este é o ponto que separa um texto sério de um teste de internet. Xangô não é um só. Ele corre em qualidades, também chamadas de caminhos, e a qualidade reescreve o perfil do filho.
- Airá: o Xangô mais velho, que anda com Oxalá. Veste branco, e o Airá Modé quase não leva dendê, apenas um pingo, com contas de segui em vez de coral vermelho. O filho tende ao sereno, ao moralista, ao conselheiro. Algumas casas tratam Airá quase como orixá à parte.
- Aganju: o Xangô jovem e guerreiro, da terra firme, do vulcão e do deserto. Veste marrom e vermelho. O filho puxa para o bruto e o combativo.
- Obá Kossô: ligado ao episódio de Kossô e à afirmação de que o rei não se enforcou, que reafirma a realeza divina. O filho carrega autoridade e gosto por prestígio.
- Afonjá: o dono do talismã que recebeu de Oiá, e o patrono do Ilê Axé Opô Afonjá. O filho costuma ser o mais político dos Xangôs.
Um filho de Airá de branco, sem dendê, quase não lembra um filho de Aganju. E há mais nomes, incluindo Dadá, o irmão pacífico, que varia bastante de casa para casa. A lista completa está em qualidades de Xangô, e não se repete aqui.
Como o orixá de cabeça se confirma
Existe uma resposta única para isso, e ela não está em nenhum site.
Prandi é direto: descobrir a origem mítica de alguém é prerrogativa religiosa do pai ou da mãe de santo, pelo jogo de búzios. Esse conhecimento, escreve ele, é imperativo no processo de iniciação. As casas acrescentam o bori como confirmação, e é ali que a coisa se firma.
Some a isso o segundo orixá. Prandi registra que cada pessoa tem uma divindade associada, o juntó, com papel importante na definição do comportamento. Cruzando o orixá de frente, o de junto, a qualidade de cada um e o odu, ele conclui que as variações servem de modelo em número quase inesgotável. O assunto está em orixá de frente e de junto.
Ou seja: o argumento mais forte contra a leitura de horóscopo vem justamente do pesquisador que catalogou os estereótipos. O caminho certo está descrito em como saber qual é o meu orixá.
O que o filho de Xangô cuida e usa
Quem é de Xangô lida com um conjunto material bem definido, e conhecê-lo ajuda tanto o filho de santo quanto quem quer presentear alguém da casa.
Ficha de Xangô: cores vermelho e branco (marrom ou vermelho escuro em alguns caminhos, branco puro em Airá) | dia quarta-feira | saudação Kaô Kabiesilé | ferramenta oxê, o machado de duas lâminas | pedra de raio, o edun àrá | assentamento em gamela de madeira | sincretismo com São Jerônimo, 30 de setembro.
A comida dele é o amalá, o quiabo cortado no dendê servido sobre acaçá ou inhame, com receita em amalá de Xangô. E aqui cabe desfazer um boato que circula: quiabo não é quizila de Xangô, é a marca dele.
A quizila mais citada é outra, e ela tem uma dobra interessante. Na prática de terreiro, Xangô não lida com egum, o mundo dos mortos, e isso organiza boa parte do resguardo de quem é dele. Ao mesmo tempo, os itans ligam o próprio Xangô à origem do culto aos eguns. As duas coisas convivem na tradição, e quem explica o resguardo da sua casa é o seu dirigente. O agrado doméstico está detalhado em oferenda para Xangô.
Perguntas frequentes
Como é a personalidade dos filhos de Xangô?
A tradição descreve gente de forte senso de justiça, autoridade natural e generosidade de mesa cheia, que decide rápido e sustenta a decisão. O outro lado dos mesmos traços aparece como autoritarismo, orgulho difícil de dobrar e explosões de raiva que sobem e passam depressa.
Como saber se sou filho de Xangô?
Por lista de características, não se sabe. Quem descobre o orixá de cabeça é o babalorixá ou a ialorixá, pelo jogo de búzios, e a confirmação vem no bori. Reconhecer-se num retrato é um bom ponto de partida para procurar uma casa séria, nada além disso.
Qual a diferença entre filho de Airá e filho de Aganju?
Airá é o Xangô mais velho, que anda com Oxalá, veste branco e puxa o filho para o sereno e o conselheiro. Aganju é o Xangô jovem e guerreiro, da terra firme e do vulcão, que veste marrom e vermelho e puxa para o combativo.
Filho de Xangô é briguento?
O retrato fala de raiva que sobe rápido e passa rápido, não de brigão permanente. A tradição associa essa energia à indignação diante da injustiça, e não ao gosto pelo conflito. Reduzir alguém a esse traço é injusto, e o próprio estereótipo não autoriza a leitura.
Qual o dia e a saudação de Xangô?
Quarta-feira na maioria das casas brasileiras, e a saudação é Kaô Kabiesilé, grafada também Kawó Kabiyesile, que se traduz como salve o rei. A data festiva mais forte é 30 de setembro, dia de São Jerônimo no sincretismo da Bahia e do batuque gaúcho.
Onde comprar o material de Xangô
Na Joia Mística Laroyê, você acha o material do rei de Oió com procedência:
- Guias em vermelho e branco: montadas ou em miçanga avulsa para a casa consagrar
- Oxê de Xangô: o machado de duas lâminas, em metal e em madeira
- Velas vermelhas e brancas: avulsas, de sete dias e em par
- Gamelas e alguidares de barro: para o assentamento e para o amalá
- Dendê, quiabo seco, camarão e pemba: para a firmeza que o seu dirigente orientar
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Uma última palavra. O estereótipo de Xangô serviu, na pesquisa de Prandi, como modelo de identidade para o povo de santo se reconhecer. Ele nunca foi laudo, nunca foi sentença e nunca substituiu o búzio da sua casa.
Referências
- Reginaldo Prandi: Deuses africanos no Brasil, com o estereótipo de Xangô, a nota dos 60 terreiros paulistas e a definição de juntó, capítulo I de Herdeiras do Axé (Hucitec, 1997), na página do autor na USP
- Augras e Correa: estudo de 1979 que trata a identificação do dono da cabeça como equivalente mítico de psicodiagnóstico, com ressalva das próprias autoras, Arquivos Brasileiros de Psicologia
- Wikipédia: verbete sobre Xangô, com os caminhos do orixá, o oxê, o amalá, a quarta-feira e o sincretismo
- O Candomblé: texto de terreiro sobre as qualidades de Xangô, com Airá Modé sem dendê e as contas de segui