O axero é o estado intermediário entre o orixá e a consciência plena, em que o filho de santo fica no batuque quando a manifestação termina. Nele, a pessoa age como criança e usa uma fala própria. Quando sai do axero, não se lembra do que aconteceu.
O que é o axero no batuque
No batuque do Rio Grande do Sul, o filho de santo não “incorpora” nem “vira no santo”. A tradição diz que o filho se ocupa do Orixá. E o orixá, em regra, não larga o filho de repente. Entre a saída do orixá e a volta da pessoa a si existe uma passagem, e essa passagem é o axero.
O pesquisador Marcus Vinicius de Souza Nunes descreve o axero como “um estágio chamado intermediário entre o Orixá e a consciência plena”. Uma fala registrada por Norton Corrêa, da Mãe Ester de Iemanjá, resume assim:
“É o mesmo santo, mas fica assim como criança, nem cá nem lá, nem é mais orixá, mesmo, nem é gente.”
Mãe Ester de Iemanjá, em fala registrada por Norton Corrêa
Nome: axero, também axêro, axerê, axêre, acherê ou axerô | Onde: batuque gaúcho | Quando: na saída do orixá | Depois: o filho não lembra
A palavra muda de casa para casa, e o termo só existe no Rio Grande do Sul. Para quem vem do candomblé, a mudança de vocabulário está em batuque e candomblé: as diferenças.
Quando o axero acontece na festa
O axero vem no fim. Quando o toque chega ao encerramento, os orixás são despachados, geralmente por filhos de santo mais antigos e experientes da casa. Depois do despacho, e antes de subir em definitivo, o orixá deixa o filho em estado de axero.

A ordem tem regra. Segundo o babalorixá Erick Wolff, de tradição Cabinda, o axero não vem antes do orixá. Na casa dele, quando o axero vai embora, o orixá volta mais uma vez para dar o seu axé, e só então se despede.
E ele nem sempre aparece. O orixá pode ir embora sem que o axero chegue. Por isso não dá para prever, de fora, quem vai ficar em axero numa festa.
Como o axero age e fala
O traço que as fontes repetem é o jeito de criança. O axero brinca, ri e conversa com uma gramática que Nunes chama de “própria e incompreensível para quem não conhece o ritual”.
Parte dessa fala é trocada. Numa casa de Cabinda, o axero diz preto por branco e abrir por fechar. Numa casa de Porto Alegre, troca sim por não e frente por costas. Para quem não conhece o ritual, a conversa soa sem sentido, e é assim mesmo.
O que o axero recebe também muda de casa para casa:
- Numa casa de Arroio Grande, a pesquisa registrou refrigerante distribuído aos orixás “após eles estarem no momento de axerô”.
- Numa casa de Porto Alegre, o axero ganha frutas e guloseimas.
- Há dirigentes que não deixam o axero comer, beber nem fumar, conforme o fundamento da casa.
O axero também não tem culto próprio. Não existe assentamento nem iniciação para ele, e não há “frente” de axero. Quem serve é a casa: o visitante não leva refrigerante nem doce para o axero.
Por que o axero existe, segundo as casas
A explicação das casas passa pelo segredo de Orixá. No batuque, o filho de santo não pode saber que se ocupa com o seu orixá. Nunes descreve a regra como uma proibição a qualquer pessoa presente, inclusive a família religiosa, “de falar qualquer coisa sobre a manifestação ocorrida”.
O axero entra aí. Numa casa de Arroio Grande, a mãe de santo explicou à pesquisa o que acontece nesse momento. Os orixás “trabalham com a cabeça” do filho, para que ele não desconfie de nada. A falta de lembrança depois do axero, que Nunes registra, vai no mesmo sentido.
A rigidez desse segredo varia. Segundo a pesquisa de Nunes, ela é mais rigorosa em casas de Jeje-Ijexá; em casas de Cabinda, vai do rígido ao frouxo; em casas de Oyó, quase não é observada. O retrato de cada nação está em as nações do batuque.
A origem da palavra tem uma hipótese. Nunes vê em asiwère, termo iorubá que Verger usou para um estágio depois da manifestação em Oyó, “uma possível origem do termo axero”. O próprio autor avisa que não pode fechar a questão.
Axero é o mesmo que erê?
Parecem, pelo jeito de criança, mas as casas não concordam que sejam a mesma coisa. No candomblé de nação ketu, o erê é “o filho do orixá” e corresponde ao estado infantil dele, com papel na reclusão da feitura. Na umbanda, os erês são entidades infantis que trabalham na gira.
| Tradição | Nome | O que é |
|---|---|---|
| Batuque | axero | passagem entre o orixá e a consciência, sem culto próprio |
| Candomblé ketu | erê | estado infantil do orixá, presente na feitura |
| Umbanda | erês | entidades infantis com gira própria |
O babalorixá Erick Wolff diz que o nome axero “não está associado” ao erê do candomblé. Um blog de casa Jeje-Ijexá afirma o contrário, que no candomblé eles são chamados de erês. Os erês da umbanda têm artigo próprio em erês na umbanda, e as crianças do batuque, em Ibeji no batuque.
Como o visitante trata o axero
O axero é um momento de descontração, e mesmo assim pede respeito. Uma casa Jeje-Ijexá resume: apesar das brincadeiras, os axeros “ainda conservam a essência do orixá”. Na prática, isso quer dizer:
- Não comente com o filho de santo, depois, o que ele fez ou falou. O segredo vale para todos os presentes.
- Não pergunte a ninguém da casa se aquela pessoa se ocupou.
- Guarde a câmera. No batuque, os orixás não podem ser filmados nem fotografados depois que chegam ao terreiro. Da chegada do orixá ao fim do toque, a regra das casas é não filmar.
- Siga quem é da casa. Na dúvida sobre o que fazer, pergunte baixinho a alguém da casa, sem interromper o toque.
As casas tratam a quebra do segredo como falta grave. A roupa, a hora de chegar e o resto da etiqueta de uma festa estão em festa de batuque: como é e o que fazer.
Perguntas frequentes
O que é estar em axero?
Estar em axero é ficar no estado de passagem entre o orixá e a consciência plena, no fim da ocupação. A pessoa age como criança, fala do seu jeito e, quando sai desse estado, não se lembra do que aconteceu. É um estado próprio do batuque do Rio Grande do Sul.
O axero é o orixá?
As casas dizem que o axero ainda conserva a essência do orixá, por isso pede respeito. Mas ele não é cultuado à parte: não tem assentamento, iniciação nem frente própria. Numa fala registrada por Norton Corrêa, “é o mesmo santo”, mas “nem cá nem lá”.
O axero muda de nação para nação?
O que muda mais é o segredo em volta dele. Segundo Nunes, a regra é mais rígida no Jeje-Ijexá, variável na Cabinda e quase ausente no Oyó. Também mudam o que o axero come e bebe, e se pode comer, conforme o fundamento de cada casa.
De onde vem a palavra axero?
A origem é incerta. Nunes aponta como possível raiz o iorubá asiwère, que Verger registrou num estágio depois da manifestação, nos ritos de Oyó. Ele mesmo diz que não pode fechar a questão. Entre os batuqueiros, a palavra tem várias grafias, como axêro, axerê e axêre.
Referências
- Marcus Vinicius de Souza Nunes: o segredo de Orixá no Batuque afro-sul, Revista Calundu, UnB, 2020 (cópia arquivada)
- Dênis Moura de Quadros: o batuque do Rio Grande do Sul em dois contos, R. Letras, UTFPR, 2020
- Anderson Machado: trajetória religiosa de Mãe Preta D’Ogum em Arroio Grande, TCC, Unipampa, 2023
- Emerson Giumbelli e Leonardo Oliveira de Almeida: O enigma da quimbanda, Revista de Antropologia, 2021
- Camargo, Santos e Scorsolini-Comin: A feitura do santo, Psicologia & Sociedade, 2018
- Yuri Prado: os dois irmãos no caruru de Cosme e Damião, GIS, USP, 2022
- Babalorixá Erick Wolff de Oxalá: o axêro na tradição do Batuque, 2017
- Hendrix Silveira: Quem é o axerê?, 2008
- Nação Jêje-Ijexá RS: os axêres, 2012
- Iyalorixá Fernanda d’Oxum Alaorô: o acherê ou axêro