Quando os Erês chegam na gira, o terreiro muda de cor. As entidades crianças trazem risada, doce, brincadeira e uma leveza que desarma qualquer peso. Mas quem pensa que é só folia se engana. Por trás da inocência mora uma das forças mais respeitadas da umbanda, capaz de curar males espirituais com a mesma naturalidade com que pede um pirulito.
Este guia explica quem são os Erês na umbanda, também chamados de Ibejada ou linha das Crianças, como eles se diferenciam do orixá Ibeji, como trabalham na gira, por que os doces são tão importantes e qual é a ligação deles com São Cosme e São Damião.
Quem são os Erês na umbanda
Os Erês são entidades que se apresentam com jeito, fala e vontade de criança. São alegres, doces, brincalhonas e muito amorosas, mas também podem ser teimosas quando querem. Na umbanda, formam a linha das Crianças, conhecida também como Ibejada.
A maioria das casas entende os Erês como espíritos que já viveram na terra e desencarnaram ainda pequenos, e por isso guardam os trejeitos da última infância. Outras casas os veem como crianças muito evoluídas, próximas dos orixás. As tradições divergem, e isso é próprio da umbanda, que nunca foi uma religião de fórmula única.
O que todas concordam é sobre a função dos Erês: eles são mensageiros dos orixás. Apesar do jeitinho de criança, são profundamente respeitados pelos caboclos e pelos pretos-velhos, que reconhecem neles uma pureza que abre portas fechadas para outros guias.
Saudação: “Salve as Crianças! Salve a Ibejada!” É com esse chamado alegre que os terreiros recebem a chegada dos Erês na gira.
Erê, Ibeji e Cosme e Damião: as diferenças
Aqui mora uma confusão comum, então vale separar com cuidado. O Ibeji é o orixá, os gêmeos divinos, o orixá-criança ligado à energia da infância. O Erê é a entidade, o espírito que incorpora no médium com jeito de criança. São coisas diferentes: um é orixá, o outro é guia.
O sincretismo entra por aí. Durante a colonização, o povo negro associou os Ibeji aos santos católicos São Cosme e São Damião, dois irmãos gêmeos e médicos, para poder cultuar sua fé sob a repressão. Não é que Ibeji “seja” Cosme e Damião. O sincretismo foi uma estratégia de resistência histórica, e as duas devoções seguem distintas em suas origens.
Vale ainda uma nota sobre o candomblé, para não misturar as tradições. No candomblé, “erê” costuma nomear um estado de energia infantil ligado ao próprio orixá do iniciado, e não uma entidade autônoma como na umbanda. Cada casa e cada tradição tem seu fundamento.
Como os Erês trabalham na gira
Quem já viu uma gira de Crianças reconhece a cena. Os Erês pulam, brincam, pedem doce, fazem perguntas fora de hora e falam com a língua enrolada de quem ainda está aprendendo. No meio de tanta alegria, acontece o trabalho sério. Veja o que eles costumam fazer:
- Benzimentos: benzem crianças e adultos, com fama especial para males de criança, como o “quebranto”.
- Passes e limpeza: aplicam passes energéticos que desmancham peso e tristeza.
- Abertura de caminhos: por serem mensageiros dos orixás, ajudam a destravar situações emperradas.
- Aconselhamento pela simplicidade: dizem verdades diretas, do jeito que só uma criança tem coragem de dizer.
A brincadeira não é distração. É a forma que o Erê tem de trabalhar. Enquanto joga bola ou pula corda, ele está lendo a pessoa e movimentando energia. A leveza é o método, não o descuido.
Doces, oferendas e o dia das Crianças
Falar de Erê é falar de doce. Nas giras de Ibejada, o doce não é um agrado a mais: é considerado a comida das Crianças, e é oferecido em abundância. Balas, pirulitos, brigadeiros e frutas enchem as mesas e depois são distribuídos, num gesto de partilha que é a marca da linha.
Além dos doces, os Erês gostam de brinquedos e de comidas afro tradicionais, como o mugunzá e o caruru. Cada casa firma suas oferendas conforme o fundamento, sempre com orientação do dirigente. O Estado de Minas registra como essa partilha de doces vira festa de comunidade nos terreiros.
O grande dia da linha acompanha o de São Cosme e São Damião, celebrado em 27 de setembro. Como explica a reportagem da Band, a data oficial da Igreja passou para 26 de setembro em 1969, mas o povo manteve o 27, com distribuição de doces em ruas e terreiros.
Oferenda de Erê é gesto de carinho e partilha, não moeda de troca por resultado garantido. O doce é entregue com alegria e devoção, sempre orientado pela casa, nunca como promessa de “resolver” a vida.
O respeito por trás da brincadeira
É fácil olhar a gira de Crianças e achar que é só festa. Mas reduzir os Erês a “bagunça” é não entender a umbanda. A inocência deles é justamente a chave da força que carregam.
Por não terem malícia, os Erês alcançam lugares que a energia adulta, mais pesada e cheia de defesas, não alcança. É por isso que os grandes guias os respeitam tanto. Um preto-velho experiente sabe que, quando a Criança chega, algo delicado vai ser tratado com uma doçura que só ela tem.
Essa linha ensina algo simples e profundo: a fé também se vive com leveza. Para situar os Erês no conjunto maior da religião, vale conhecer as sete linhas da umbanda e o papel dos guias na casa.
Perguntas frequentes
O que são erês na umbanda?
Os erês são entidades crianças da umbanda, também chamadas de Ibejada ou linha das Crianças. São espíritos que se apresentam com jeito de criança, alegres e doces, e trabalham como mensageiros dos orixás. Apesar da brincadeira, fazem benzimentos e passes, e são muito respeitados pelos outros guias da casa.
Qual a diferença entre erê e Ibeji?
Ibeji é o orixá, os gêmeos divinos ligados à energia da infância. O erê é a entidade, o espírito que incorpora no médium com jeito de criança. Um é orixá, o outro é guia. O orixá Ibeji foi sincretizado com São Cosme e São Damião durante a colonização, como estratégia de resistência.
Como os erês trabalham na gira?
Os erês trabalham brincando. Enquanto pulam, pedem doce e fazem graça, aplicam benzimentos, passes e limpezas energéticas. Têm fama especial para curar males de criança, como o quebranto, e para abrir caminhos. A leveza é o método deles, e não falta de seriedade no trabalho.
Qual a oferenda dos erês?
A oferenda principal são os doces, oferecidos em abundância, porque para a Ibejada o doce é comida, não só agrado. Também gostam de brinquedos, frutas e comidas afro como mugunzá e caruru. Cada casa firma suas oferendas conforme o fundamento e a orientação do dirigente.
Qual o dia dos erês na umbanda?
As giras de Crianças acompanham o dia de São Cosme e São Damião, celebrado em 27 de setembro. A data oficial da Igreja mudou para 26 em 1969, mas o povo manteve o 27, com muita distribuição de doces nas ruas e nos terreiros, num clima de festa e partilha.
Onde encontrar itens para os Erês
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para firmar sua devoção à linha das Crianças com respeito ao fundamento da sua casa:
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