Os terreiros tombados pelo IPHAN eram onze até 2018, segundo a tabela do COPENE. Depois disso, a imprensa baiana registrou mais dois, em 2024 e em 2025. Não há aqui um total oficial de hoje. Tombar é inscrever o bem num Livro do Tombo e sujeitá-lo a regras de conservação. Cada casa tem duas datas: a da decisão do Conselho Consultivo e a da inscrição.
Quais são os terreiros tombados pelo IPHAN
Os terreiros tombados pelo IPHAN até 2018 são onze: sete em Salvador e um em cada uma destas cidades, São Luís, Cachoeira, Itaparica e Recife. A tabela soma os dois aprovados depois, em Cachoeira e em Lençóis, e avisa onde a data de inscrição não foi localizada.
| Terreiro | Cidade | Nação ou tradição | Decisão do Conselho | Inscrição no Livro do Tombo |
|---|---|---|---|---|
| Casa Branca (Ilê Axé Iyá Nassô Oká) | Salvador, BA | ketu | 31/05/1984 | 14/08/1986 |
| Ilê Axé Opô Afonjá | Salvador, BA | ketu | 07/10/1999 | jun ou jul/2000 |
| Casa das Minas Jeje | São Luís, MA | jeje | 22/08/2002 | 02/02/2005 |
| Gantois (Ilê Axé Iyá Omim Iyamassê) | Salvador, BA | ketu | 21/11/2002 | 02/02/2005 |
| Bate-Folha (Manso Banduquenqué) | Salvador, BA | angola | 14/08/2003 | 03/02/2005 |
| Alaketo (Ilê Maroiá Láji) | Salvador, BA | ketu | 01/12/2004 | 30/09/2008 |
| Casa de Oxumaré (Ilê Axé Oxumaré) | Salvador, BA | ketu | 2013 | 30/10/2014 |
| Roça do Ventura (Zogbodo Male Bogun Seja Unde) | Cachoeira, BA | jeje-mahi | 04/12/2014 | dez/2015 ou 14/03/2016 |
| Omo Ilê Agbôulá | Ilha de Itaparica, BA | culto a egungun | 25/11/2015 | jul/2017 |
| Tumba Junçara | Salvador, BA | angola | 20/09/2018 | não localizada |
| Ilê Obá Ogunté (Sítio de Pai Adão) | Recife, PE | nagô, segundo a dissertação e a Folha PE | 20/09/2018 | não localizada |
| Ilê Axé Icimimó Aganju Didê (terreiro de Mãe Judith) | Cachoeira, BA | não informada na fonte | não citado; tombado em fevereiro de 2024, segundo o Bahia Notícias | não localizada; portaria de homologação em 20/06/2024 |
| Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra | Lençóis, BA | jarê | 26/11/2025 | não localizada |
As datas e as nações das nove primeiras linhas vêm da tabela da dissertação de Cunha, em cópia arquivada. A inscrição de jul/2017 do Agbôulá e a de dez/2015 da Roça do Ventura vêm da lista do IPHAN. A dissertação é um trabalho do mestrado profissional do IPHAN e escreve keto, e o texto sobre as nações do candomblé explica a diferença entre ketu, jeje e angola. A Casa Branca aparece como ketu na dissertação e como exemplar do modelo jeje-nagô numa nota do IPHAN citada pelo Brasil de Fato. O texto não escolhe entre as duas descrições. A dissertação fala em “identidade negra e nagô” no Sítio de Pai Adão. A Folha de Pernambuco chama Pai Adão de propagador do candomblé nagô no Recife. O Tumba Junçara é da nação angola, segundo Souza.
Por que cada casa tem duas datas
A decisão é o voto do Conselho Consultivo. A inscrição no Livro do Tombo vem depois, às vezes anos depois. O Gantois tem decisão em 2002 e inscrição em 2005, e o Agbôulá, decisão em 2015 e inscrição em 2017.
A lista de processos do IPHAN, em cópia arquivada, e a dissertação divergem no Opô Afonjá e na Roça do Ventura. A tabela traz as duas datas. Gerada em outubro de 2018, a lista trazia o Tumba Junçara e o Sítio de Pai Adão como tombamento aprovado, sem inscrição.
A Casa Branca é o primeiro terreiro tombado pelo governo federal, segundo Ferreira e Santos. Os Anais do Museu Paulista registram as duas datas: 31 de maio de 1984 para a decisão e 1986 para a inscrição.
Quantos são hoje
Em novembro de 2023, o Brasil de Fato ainda contava 11 terreiros tombados pelo IPHAN. O terreiro de Mãe Judith, em Cachoeira, foi tombado em fevereiro de 2024, e a portaria saiu em 20 de junho, segundo o Bahia Notícias. A fonte não diz a nação da casa nem cita o Conselho.
Em 26 de novembro de 2025, o Conselho Consultivo aprovou o Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, em Lençóis, segundo outra reportagem do Bahia Notícias. Ele é apresentado como o terreiro de jarê mais antigo em funcionamento no país. A relatora escreveu que expressa “uma tradição afro-brasileira singular”. Por isso a tabela não lhe dá nação de candomblé.
O que o tombamento protege num terreiro
O tombamento protege o bem material: a área que o IPHAN e a comunidade delimitam como o terreiro. Entram as construções do culto, as moradias do mesmo terreno, as árvores sagradas, os caminhos, as fontes de água e trechos de mata, segundo Cunha.

A lei que rege o tombamento é o Decreto-Lei 25/1937. Ele proíbe destruir, demolir ou mutilar o bem tombado (art. 17). Reparar, pintar ou restaurar exige autorização prévia do órgão de patrimônio, hoje o IPHAN. O art. 18 pede a mesma autorização para construir na vizinhança de modo que reduza a visibilidade do bem.
Em 2023, segundo o Brasil de Fato, o IPHAN ajuizou ação junto à Advocacia-Geral da União contra uma obra próxima à Casa Branca que invadia a privacidade do bem. A decisão liminar saiu em setembro daquele ano.
O que o tombamento não muda
O Decreto-Lei 25/1937 trata do bem material e não usa as palavras culto, rito nem religião. A arquiteta Marcia Sant’Anna, ex-servidora do IPHAN, escreveu que o tombamento deve respeitar a dinâmica de uso religioso e os limites de ocupação da comunidade.
”[…] o tombamento, nesses casos, deve se destinar a garantir a privacidade e a permanência desses espaços, em face das inúmeras ameaças de ocupação inadequada […]”
Marcia Sant’Anna, em texto citado na dissertação de Cunha
- A autonomia da comunidade foi uma preocupação do processo. Em parecer de 25 de maio de 1984, Fry lembrou a preocupação do setor de tombamento com os efeitos do ato sobre “uma instituição viva e dinâmica”. Ele sugeriu cautela “para não ferir a autonomia da comunidade do candomblé”. Fry escreveu ainda que as gameleiras sagradas da casa “jamais poderão ser cortadas” e que o tombamento “apenas faria realizar as intenções da comunidade”. O conselheiro Gilberto Velho escreveu que as medidas de preservação “não devem se constituir em empecilhos”.
- A casa não precisa ficar congelada. Para Cunha, o tombamento não proíbe alterações, e sim a destruição, a mutilação e a demolição. Os terreiros, diz ela, não necessariamente ficariam “engessados”.
- A terra continua sendo outra questão. O terreiro de Mãe Judith foi alvo de tentativas de invasão por uma empresa de celulose em 2018 e 2019. Depois do tombamento, o sacerdote disse: “Esse tombamento nos protege, mas queremos ainda a regularização da terra para conseguir mais garantias legais”.
O tombamento é um instrumento de proteção do bem, não uma blindagem. Os ataques a terreiros são tema do texto sobre racismo religioso, e as penas estão no texto sobre a lei contra intolerância religiosa.
Tombamento e registro: qual é a diferença
Tombamento protege bens materiais, e registro reconhece bens imateriais. O tombamento vem do Decreto-Lei 25/1937, que fala em bens móveis e imóveis. O registro vem do Decreto 3.551/2000, que criou quatro livros: saberes, celebrações, formas de expressão e lugares.
Tombamento: bem material, Decreto-Lei 25/1937, Livros do Tombo | Registro: bem imaterial, Decreto 3.551/2000, quatro livros de registro
Nos dois casos fala-se em inscrição, mas em livros diferentes. No registro, a inscrição tem como referência “a continuidade histórica do bem e sua relevância nacional”. A tabela deste texto é de tombamento de terreiros, ou seja, de bens materiais. Ela não é um registro da religião. O que o IPHAN tombou foram terreiros. Na busca por título nos Bens Culturais Registrados, feita em 2 de outubro de 2026, não aparece registro do candomblé nem da umbanda.
Tombamento estadual e municipal: Bahia, Rio, São Paulo e Belo Horizonte
Tombamento estadual e municipal também protege terreiros, e cada esfera tem o próprio órgão. Alguns terreiros têm proteção em mais de um nível.
- Bahia (IPAC). Em 23 de julho de 2026, o Diário Oficial publicou o tombamento estadual de dois terreiros, segundo o Bahia Notícias. São o Ilê Asé Kalè Bokùn, de nação ijexá, em Salvador, e o Omo Ilê Agbôulá, em Itaparica, que já era tombado pelo IPHAN. O culto a egungun está no texto sobre egum no candomblé.
- Rio de Janeiro (INEPAC). Segundo a Revista Museu, o Diário Oficial publicou em 1º de junho de 2016 o tombamento provisório do Ilê Axé Opô Afonjá de São João de Meriti. É a casa de Coelho da Rocha, em São João de Meriti, e não consta da tabela federal.
- São Paulo (Condephaat). O Axé Ilê Obá, no Jabaquara, foi o primeiro terreiro tombado pelo órgão, em 1990. Seis casas vieram em 2019, entre elas o Santuário Nacional da Umbanda, em Santo André, segundo o Jornal da USP.
- Belo Horizonte (município). A Prefeitura tombou o Ilê Wopo Olojukan em 1995. Em julho de 2020, o conselho municipal de patrimônio publicou regras de proteção para a vizinhança, segundo o O Tempo. Entre elas estão árvores plantadas nos limites do terreno, o “pano verde”, para manter a privacidade dos rituais. Novas construções devem respeitar a distância de 5 metros do muro e não podem ter janelas voltadas para o terreiro.
Nenhum terreiro da tabela federal fica em Minas Gerais.
Perguntas frequentes
Quais terreiros são tombados pelo IPHAN?
Até 2018 eram onze. Sete ficam em Salvador: Casa Branca, Opô Afonjá, Gantois, Bate-Folha, Alaketo, Oxumaré e Tumba Junçara. Os outros são a Casa das Minas, em São Luís, e a Roça do Ventura, em Cachoeira. Completam o Agbôulá, em Itaparica, e o Sítio de Pai Adão, no Recife. Depois vieram dois, em 2024 e em 2025.
Qual foi o primeiro terreiro tombado pelo IPHAN?
A Casa Branca, em Salvador, segundo Ferreira e Santos. A decisão do Conselho Consultivo é de 31 de maio de 1984, e a inscrição no Livro do Tombo, de 1986. Por isso as fontes citam 1984 ou 1986, conforme contem a decisão ou a inscrição.
Existe terreiro de umbanda tombado?
Sim, em São Paulo. O Condephaat tombou em 2019 o Santuário Nacional da Umbanda, em Santo André. O tombamento é estadual, e não do IPHAN. Nas fontes usadas para a tabela federal, nenhuma casa é descrita como de umbanda, e Minas Gerais também não tem casa na tabela.
O que muda quando um terreiro é tombado?
O bem material passa a ter regras: não pode ser destruído, demolido nem mutilado, e reparo, pintura e restauro dependem de autorização prévia. O tombamento deve respeitar a dinâmica de uso religioso, escreveu a arquiteta Marcia Sant’Anna. A regularização da terra é outra questão.
Tombamento é o mesmo que registro de patrimônio imaterial?
Não. O tombamento protege bens materiais, pelo Decreto-Lei 25/1937. O registro reconhece bens imateriais, como saberes e celebrações, pelo Decreto 3.551/2000. A tabela deste texto é de tombamento de terreiros, ou seja, de bens materiais, e não é um registro do candomblé como religião.
Referências
- Juliana da Mata Cunha, mestrado profissional do IPHAN, 2018: Quem pode mais do que o dono da casa? Participação social no processo de patrimonialização do Terreiro Ilê Obá Ogunté (Sítio de Pai Adão), cópia arquivada no Wayback Machine. O endereço original do IPHAN redireciona para a página inicial
- IPHAN: Lista de Processos de Tombamento, planilha gerada em outubro de 2018, cópia arquivada no Wayback Machine
- Luciane Barbosa de Souza, COPENE 2018: os terreiros de matriz africana nos processos do IPHAN
- Luciane Barbosa de Souza, COPENE 2018: o tombamento do Ilê Axé Iyá Nassô Oká pelo IPHAN, um estudo de caso
- Ferreira e Santos, Revista de Políticas Públicas (UFMA), 2018: proteção e preservação do patrimônio cultural das religiões afro-brasileiras
- Anais do Museu Paulista, 2022: o tombamento do Terreiro da Casa Branca
- Presidência da República: Decreto-Lei 25/1937, arts. 1º, 4º, 17 e 18
- Presidência da República: Decreto 3.551/2000, art. 1º
- IPHAN: Bens Culturais Registrados, coleção de bens imateriais, consulta por título em 02/10/2026
- Folha de Pernambuco, 21/09/2018: Iphan tomba, no Recife, o terreiro de Pai Adão
- Brasil de Fato, 02/11/2023: tombamento de terreiros e quilombos pelo Iphan
- Bahia Notícias, 21/06/2024: terreiro de Cachoeira após o tombamento
- Bahia Notícias, 26/11/2025: Iphan aprova tombamento do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra
- Bahia Notícias, 23/07/2026: terreiros de Salvador e Itaparica tornam-se patrimônio cultural da Bahia
- Revista Museu, 02/06/2016: Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá é tombado pelo estado do Rio de Janeiro
- Jornal da USP, 15/01/2025: livro sobre tombamentos de terreiros paulistas
- O Tempo, 27/07/2020: o pano verde do primeiro terreiro de Belo Horizonte