Poucas palavras do vocabulário afro-brasileiro carregam tanto mal-entendido quanto egum. Muita gente ouve o termo e pensa em coisa ruim, encosto, espírito que atrapalha a vida de alguém.
Não é isso. Egum é o morto, o ancestral, e o culto organizado a essa ancestralidade é uma das tradições religiosas mais antigas e mais preservadas do Brasil. Este guia explica o que é, quem conduz e por que ele existe separado do culto aos orixás.
Egum não é espírito ruim
O primeiro passo é desfazer a confusão de vocabulário, porque ela vem de fora do candomblé.
No espiritismo kardecista se fala em espírito desencarnado, obsessão e sessão de desobsessão. São conceitos de outra tradição, com outra cosmologia. Egum não é espírito obsessor, não passa por reencarnação nesse sentido e não é objeto de tratamento espiritual.
Na cosmovisão iorubá, o egum é simplesmente quem já morreu. E o ancestral cultuado é uma autoridade moral da comunidade, respeitada como as pessoas mais velhas são respeitadas em vida.
Cultuar ancestral não é prática exótica nem sombria. É uma das coisas mais comuns na história da humanidade, e no candomblé ela tem nome, casa e sacerdócio próprios.
Egum, Babá Egungun e ará-orum: quem é quem
O vocabulário tem camadas, e misturá-las é o que gera confusão.
- Aiyê: o mundo dos vivos.
- Orum: o mundo espiritual, para onde vai quem morre.
- Ará-orum: habitante do orum, ou seja, quem já passou.
- Egum: o morto em sentido amplo, qualquer pessoa que partiu, sem culto individual estabelecido.
- Babá Egungun: o ancestral masculino ilustre, preparado por ritos específicos para ser invocado e cultuado.
A diferença entre os dois últimos é o coração do assunto. Nem todo egum é Babá Egungun. O Babá é o antepassado que a comunidade escolheu cultuar e fez nascer ritualmente para o culto, o que exige fundamento, casa e sacerdote.
Esse culto pertence à matriz ketu/nagô, de origem iorubá na região de Oyó. As nações jeje e angola tratam a ancestralidade por caminhos próprios, com outros nomes e outra liturgia, como mostra o artigo sobre as nações do candomblé. Não são equivalências.
Por que o culto fica separado do culto aos orixás
Essa separação costuma ser lida como medo ou perigo. Não é. É diferença de categoria.
Orixá é força da natureza e ancestral divinizado. Egum é o morto. São ordens distintas da existência, e cada uma pede sua liturgia, seu calendário e seu sacerdócio.
Por isso o culto acontece em casas próprias, os Ilê Egum, conduzidas por sacerdotes que não são os babalorixás e ialorixás do candomblé de orixá. A hierarquia é paralela e independente daquela descrita em cargos e hierarquia no candomblé.
Há ainda uma diferença de acesso. A festa de orixá tem parte pública, com barracão aberto e visitantes. A saída do Babá é cercada de protocolo restrito, e boa parte do que acontece é reservada aos iniciados.
Vale registrar isso com honestidade: muito do culto não é informação pública, e este texto não preenche essas lacunas com invenção.
O ojé, o ixan e o eku
Quem conduz o culto é o ojé, o sacerdote iniciado com os ritos completos. Acima dele estão o alagbá, chefe de um terreiro de egum, e o alapini, sacerdote supremo do culto no Brasil.
Outros cargos organizam o trabalho:
- Amuixã: iniciado com ritos ainda incompletos, sem poder de invocar o ancestral.
- Atokun: o condutor do Babá durante a saída.
- Alagbê: o responsável pelo tambor, como no toque de atabaques.
Dois objetos são centrais. O ixan é a vara ritual do ojé, tocada no chão com palavras e gestos que chamam e ordenam o ancestral. Ela também mantém a distância física entre o Babá e os presentes. O eku, também chamado axó, é a roupa litúrgica de camadas bordadas que cobre o corpo inteiro.
Aqui está a informação mais importante e menos divulgada do tema. O Babá Egungun não incorpora. Ele se materializa pela roupa sagrada e conversa com os vivos a partir dela, o que separa estruturalmente esse culto do transe de possessão do candomblé de orixá. Encostar no eku é falta grave.
E as mulheres? Elas têm cargos próprios e essenciais, como iyalodê, iyá egbé, erelu e as atós, cultuadoras do egum. O que a mulher não recebe é a iniciação de ojé. A razão está na divisão iorubá entre ancestralidade masculina, do Egungun, e ancestralidade feminina, do Gèlèdé.
O Gèlèdé cultua as Iyá Mi Agbá, as mães ancestrais, condensadas na figura de Iyá Nlá. Ali a força é coletiva, e não individual como no culto ao Babá. A UNESCO reconheceu o patrimônio oral Gèlèdé como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Itaparica: onde o culto sobreviveu no Brasil
Se o culto de Egungun chegou inteiro ao Brasil, foi por causa de uma ilha.
A tradição oral e a rede de terreiros situam a chegada no início do século XIX. As casas inaugurais ficam todas na Ilha de Itaparica, na Bahia:
- Vera Cruz, datada por volta de 1820
- Mocambo, do século XIX, ligada a assentamentos trazidos de Lagos
- Encarnação, por volta de 1840
- Tuntun, por volta de 1850, o único dos inaugurais ainda em funcionamento
A casa mais conhecida é o Omo Ilê Agboulá, fundado em 1934 em Ponta de Areia. Em 2015 ele foi tombado pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil. A Rede de Terreiros Egùngùn reúne a cronologia dessas casas contada pelos próprios terreiros.
Sobreviver custou caro. O pesquisador Fábio Velame, da UFBA, descreve três ciclos de ameaça ao culto. Primeiro veio a repressão policial das primeiras décadas do século XX. Depois, a pressão imobiliária sobre a ilha a partir dos anos 1960. Hoje, a intolerância religiosa.
Itaparica também guarda outra tradição de ancestralidade e memória negra, a Festa da Boa Morte, no Recôncavo.
Egum, axexê e ori: o que muda em cada um
São três conceitos que o leitor costuma embaralhar, e a diferença é simples.
| Conceito | O que é | Quando acontece |
|---|---|---|
| Axexê | Rito funerário que desfaz os vínculos do morto com o aiyê | Uma vez, logo após a morte |
| Culto de egum | Culto continuado ao ancestral já preparado | Em ciclo, por gerações |
| Ori | A cabeça espiritual de quem está vivo, o destino individual | Ao longo da vida |
O axexê encerra; o culto de Egungun perpetua. E o ori não tem relação com morte alguma. O rito funerário está explicado em o que é axexê.
Na tradição se conta ainda que Oyá, a orixá que o Brasil conhece como Iansã, é a única que transita no universo dos eguns, na qualidade Oyá Igbalé. Isso vem do corpo mitológico do candomblé de orixá e é narrado assim pelas casas.
Perguntas frequentes
O que é egum no candomblé?
Egum é o morto, quem deixou o aiyê e passou a habitar o orum. Quando esse ancestral recebe ritos próprios e passa a ser cultuado pela comunidade, ele é chamado Babá Egungun. O culto é de matriz ketu e nagô, com sacerdócio e casas separadas.
Qual a diferença entre egum e orixá?
Orixá é força da natureza e ancestral divinizado, cultuado no barracão com transe de possessão. Egum é o morto, cultuado em casa própria, onde o Babá se apresenta vestido no eku e não incorpora em ninguém. São categorias distintas da cosmovisão iorubá.
Por que o culto aos eguns é feito em casa separada?
Porque orixá e morto pertencem a ordens diferentes da existência, cada uma com liturgia, calendário e sacerdócio próprios. Não é questão de perigo, e sim de separação ritual. Casa de orixá não vira casa de egum, e o contrário também não acontece.
Quem é o ojé e o que ele faz?
O ojé é o sacerdote iniciado do culto de Egungun, com os ritos completos. Ele invoca e conduz o Babá usando o ixan, a vara ritual. Acima dele estão o alagbá, chefe de terreiro de egum, e o alapini, sacerdote supremo do culto no Brasil.
Mulher pode ser iniciada no culto de Egungun?
A mulher tem cargos próprios e indispensáveis, como iyalodê, iyá egbé, erelu e as atós. O que ela não recebe é a iniciação de ojé. A ancestralidade feminina tem culto próprio na tradição iorubá, o Gèlèdé, dedicado às Iyá Mi.
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Assuntos de fundamento se aprendem no terreiro, com quem tem obrigação e responsabilidade. Este texto é material de estudo, e não orientação de prática.
Referências
- Juana Elbein dos Santos: Os Nàgô e a Morte, obra de referência sobre pàdè, àsèsè e o culto égun na Bahia
- Revista da ABPN: artigo de Fábio Velame sobre o culto Egúngún no Brasil e a história do Omo Ilê Agboulá
- Cadernos de Arte e Antropologia: pesquisa de Andréa D’Amato sobre fotografia e ancestralidade no Omo Ilê Agboulá
- Rede de Terreiros Egùngùn: cronologia das casas de Itaparica contada pelos próprios terreiros
- UNESCO: registro do patrimônio oral Gèlèdé como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade