O tamboreiro de batuque é o músico ritual que toca os tambores, puxa as rezas e conduz a festa de nação. Para chegar lá, ele passa anos aprendendo todas as rezas, a hora de começar e parar o ritual e o funcionamento da casa.
O que acontece no salão durante o toque já está no nosso guia da festa de batuque. Aqui o assunto é o ofício: como alguém se forma, o que é alabê, a quem pertence o tambor e quanto se cobra.
O que o tamboreiro faz na festa
Na festa, o tamboreiro puxa as rezas e os presentes respondem, tudo em iorubá. Ele é a segunda autoridade do ritual, depois do pai ou da mãe de santo.
A antropóloga Ana Paula Silveira estudou casas de Pelotas e Rio Grande. Ali, quando o orixá ocupa o chefe da casa, o tamboreiro mestre cuida da execução ritual da cerimônia. Uma tamboreira de nação Jêje de Rio Grande resume a responsabilidade:
“É ele quem controla a vinda dos orixás e deve tá atento a tudo que acontece ali.”
Eneida de Oxalá, tamboreira, na pesquisa de Ana Paula Silveira (UFRGS)
O tamboreiro também precisa conhecer a liturgia de cada nação. A tamboreira Sherlen de Obá explica que não adianta aceitar tocar Oyó sem saber a ordem das rezas nem a hora de tirar o ecó. O que fazer quando “arrebenta a balança” apareceu em todas as entrevistas de uma pesquisa da UFRGS como atribuição do tamboreiro, e é segredo ritual. A balança de Xangô tem seu lugar no texto sobre Xangô no batuque.
Tamboreiro ou alabê: o que muda no nome
Tamboreiro é o nome antigo do batuque. O termo alabê também circula, e a tese de Claudio Soares dos Santos o registra como sinônimo.
Entre os próprios tamboreiros não há consenso. A tamboreira Pantiovila de Oxalá entende que são nomes para a mesma função, mas vê o alabê como importação recente do candomblé. O pesquisador Leo Moraes anota ainda uma controvérsia: há quem diga que a palavra significaria “mendigo” em iorubá. Moraes não confere essa tradução, e ela fica como disputa.
No candomblé ketu, o nome e a função seguem outra lógica, explicada em atabaques do candomblé.
Como se forma um tamboreiro
Entre os mais velhos corre a ideia de que “o tamboreiro já vem de berço”. O mestre Borel, lembrado por Luis de Xapanã, dizia que tambor não se ensina. Mesmo assim, o caminho existe, e tem etapas conhecidas.
- Brincadeira de criança. As crianças tocam em latinhas e cantam os axés imitando os adultos.
- O agê primeiro. A criança começa pelo agê, o instrumento mais fácil, e só depois vai para o tambor.
- Treino sem tambor sagrado. Em casas do Vale do Rio Pardo, o aprendiz treina em caixas de madeira ou baldes velhos antes dos tambores consagrados.
- Aprendiz de um mestre. Por volta da pré-adolescência, o jovem acompanha tamboreiros experientes e não recebe pagamento. O repertório é “aprendido no bolo”, no calor dos rituais.
- Repertório em ordem. Primeiro os axés dos orixás, depois os de egum e os dos outros lados.
As escolas de tambor apareceram em meados dos anos 1980, segundo os mais velhos ouvidos pelo etnomusicólogo Reginaldo Gil Braga, por falta de tamboreiros formados nas casas. Nelas o aluno aprende as pancadas isoladas e depois junta a pancada com a resposta do axé. O repertório de egum ficava fora das escolas. Na pesquisa de 2023, os tamboreiros concordaram que o tambor se aprende “em cena”, saindo para tocar.
A iniciação é parte do ofício. Seu Ademar do Ogum resumiu: “não existe tamboreiro sem feitura”. O rito que consagra ao mesmo tempo o tambor e quem vai tocá-lo se chama axé de mão, ou axé de tambor. Ele é feito pela casa, dentro do fundamento.
O grau exigido tem duas leituras. Moraes escreve que, para conduzir um ritual, o tamboreiro deve ser pronto e receber o axé de tambor de outro tamboreiro. Os quatro tamboreiros que ele entrevistou aceitam como mínimo o aprontamento de cabeça com quatro-pés. Os graus estão explicados em graus de iniciação no batuque.

O tambor pertence à casa
O tambor sagrado não é do tamboreiro: pertence à casa de religião a que serve. Ilú e inhã têm uma corda longa de tensão e ficam frouxos, esticados só na hora de tocar.
Numa casa Jêje-Ijexá de Pelotas, afrouxar o couro indica o descanso do orixá, e esticar é preparar o orixá para responder no instrumento. Uma tamboreira de Rio Grande separa o tambor da casa, que não sai dela, do tambor feito para tocar na rua.
Quem é o dono do tambor divide as falas. Em Pelotas, Andrea do Bará diz que o santo dono do tambor é o santo dono da casa. Em Porto Alegre, Sherlen de Obá chama Xangô de dono do tambor. As duas visões convivem.
Cadência, toques e o que mudou
No batuque, toque sempre foi sinônimo de festa. Em 1946, o musicólogo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo gravou 30 discos em Porto Alegre, 25 deles de música de culto.
Muita coisa mudou desde então. Hoje o repertório Jêje é tocado por todos os lados: depois das rezas de cada orixá, tira-se o correspondente no Jêje. Um tamboreiro antigo chamava de “três em um” a mistura de Cabinda, Jêje-Ijexá e Oió na mesma obrigação.
O andamento também acelerou. O velho estilo é mais lento. Na pesquisa de 2023, os tamboreiros criticaram as pancadas aceleradas e contaram que muitas vezes a pressa é pedida pelo próprio pai de santo que contrata. Antônio Carlos do Xangô dizia aos alunos que a nação “é ritmo, é cadência”.
Quanto cobra e o dia do tamboreiro
Poucas casas de batuque têm tamboreiro próprio, e a maioria contrata. Antigamente, segundo Antônio Carlos do Xangô, tamboreiro nem era pago. Entre eles, a dificuldade do ofício ganhou o nome de “axé de miséria”.
Em Porto Alegre, três tamboreiros ouvidos numa tese de 2021 contaram que a festa dura cerca de 7 horas e que cobram entre R$ 600 e R$ 1.000 por noite. Cresceram também as equipes, com dois ou três tamboreiros e tocadores de agê.
Uma tamboreira de Rio Grande resume que “tocar o tambor não é questão de força física, é questão de técnica”. Para os tamboreiros ouvidos por Moraes, a proibição de mulher no tambor é do candomblé, e Antônio Carlos aprendeu a tocar com uma mulher. Nos dias de menstruação, as tamboreiras passam o toque a colegas.
Porto Alegre celebra o Dia Municipal do Tamboreiro em 28 de setembro, pela Lei nº 12.972, de 2022. Em Canoas, a data é 22 de novembro.
Perguntas frequentes
O que é alabê no batuque?
É outro nome para o tamboreiro. Parte dos tamboreiros vê o termo como importação recente do candomblé e prefere “tamboreiro”, o nome antigo do batuque.
Mulher pode ser tamboreira no batuque?
Pode. O batuque tem tamboreiras, e os tamboreiros ouvidos por Moraes dizem que a proibição de mulher no tambor é do candomblé. Durante a menstruação, elas costumam passar o toque a colegas.
Dá para virar tamboreiro só com curso?
Não. As escolas dão base, mas os tamboreiros dizem que o tambor se aprende “em cena”. E, como disse seu Ademar do Ogum, “não existe tamboreiro sem feitura”. A iniciação é feita pela casa.
Onde comprar para o batuque
Na Joia Mística Laroyê você encontra:
- Guias e fios de conta: nas cores dos orixás.
- Adjá: a sineta de metal usada no ritual.
- Velas: de sete dias e palito, em várias cores.
Instrumento comprado não vem consagrado: quem faz o axé é a casa. A loja fica em Extrema-MG. Chame no WhatsApp e entregamos para todo o Brasil.
Referências
- UFRGS: Moraes, o ofício dos tamboreiros de batuque, 2024
- Revista da ABEM: Braga, ensino e aprendizagem entre tamboreiros de nação, 2005
- Debates do NER (UFRGS): Braga, a gravação de 1946 e a tradição do tambor, 2013
- UFRGS: Silveira, aprontando tamboreiras de nação, 2008
- UNISC: Santos, os impactos econômicos da festa de batuque, 2021
- UNISC: Bitencourt, tambor que educa, 2018
- Prefeitura de Porto Alegre: Lei nº 12.972, de 2022
- Prefeitura de Canoas: notícia sobre o Dia do Tamboreiro, 2022