Exu Meia-Noite é o guardião da virada. O nome marca uma hora exata, e a hora é a função: o instante em que um dia termina e outro começa, que a tradição descreve como a encruzilhada do tempo.
Encruzilhada de rua é o cruzamento de dois caminhos no espaço. Meia-noite é o cruzamento de dois dias no tempo. A falange dele trabalha nesse segundo tipo de cruzamento, e é isso que a separa das outras.
Este guia reúne a ficha da entidade, explica de onde vem o nome e mostra o que muda entre as casas.
Exu orixá e Exu guardião não são a mesma coisa
Exu orixá é o senhor dos caminhos do panteão iorubá, o primeiro a receber em qualquer rito. Sobre ele, o texto certo é quem é Exu.
Exu guardião é outra categoria: espíritos que trabalham na quimbanda e na gira da esquerda da umbanda, organizados em falanges com nome próprio.
Meia-Noite pertence ao segundo grupo, e parte das casas o coloca como chefe de falange da linha das almas.
Por que se chama Meia-Noite
Porque o nome é a hora, e a hora é o fundamento.
Toda tradição religiosa marca passagens. A virada do dia é uma delas, e a quimbanda a trata como ponto de força temporal: não é o lugar que abre, é o momento. Por isso a entrega para essa falange costuma ser marcada na hora, e não só no dia.
Dessa leitura vem a função que várias casas atribuem a ele: abrir e fechar o trabalho. Nessas casas, é o Meia-Noite quem abre a porta no começo da gira e encaminha no fim o que ficou.
A comparação ajuda. Tranca Ruas guarda a passagem de um lugar. Meia-Noite guarda a passagem de um tempo.
Ficha de Exu Meia-Noite: dia, cores, saudação e oferenda
Dia: segunda-feira | Cores: preto e vermelho | Velas: preta e vermelha | Saudação: Laroyê, Exu da Meia-Noite! | Ponto de força: encruzilhada, ou o local que a casa indicar | Oferenda: vela, charuto e bebida, conforme o fundamento da casa
O detalhe que distingue esta falange das outras é o horário. Casas de quimbanda marcam a entrega na meia-noite exata, e há linhagens que consideram esse o único horário válido para ele. Outras casas seguem o horário normal de trabalho e não tratam a hora como obrigatória.
Sobre a guia, as listas divergem: preto e branco em parte das casas, preto e vermelho em outras. As duas aparecem em fonte de casa e nenhuma anula a outra.
O que se pede a Exu Meia-Noite
O campo dele é passagem, e isso tem consequência prática no tipo de pedido.
- Fase de transição, quando a vida está entre uma coisa e outra
- Proteção em situação difícil, principalmente à noite
- Firmeza para decidir, quando a pessoa está travada entre dois caminhos
- Justiça, no sentido de acerto do que ficou pendente
Fica fora o que atinge terceiro, o que atropela a decisão de outra pessoa e o que é do médico. Vale também um aviso de bom senso: entrega na encruzilhada à meia-noite se faz com segurança pessoal em primeiro lugar, e nenhuma entidade pede que você se exponha a risco.
A divergência: chefe de gira ou falange comum
A maior divergência sobre ele é o peso que a casa lhe dá.
Nas casas que o tratam como chefe de falange da linha das almas, ele é figura central: abre a gira, fecha a gira e responde por um povo inteiro.
Em outras casas ele é uma falange do povo de rua como as demais, sem essa função de abertura, e quem abre o trabalho é outra entidade, ou o próprio dirigente.
A raiz é a de sempre: a quimbanda não teve autoridade central que padronizasse a hierarquia, e cada linhagem organizou a sua. Como funciona uma gira inteira, do início ao encerramento, está em a gira de quimbanda.
Meia-Noite não é o demônio
A hora assusta quem vê de fora, e a associação com o diabo tem origem conhecida.
Reginaldo Prandi mostra em Exu, de mensageiro a diabo que identificar Exu com o diabo foi obra do olhar missionário e colonial, e não da tradição iorubá.
Carvalho e Bairrão mostram, em umbanda e quimbanda como alternativa negra à moral branca, que a hierarquia moral entre as duas religiões é construção da sociedade brasileira.
Meia-noite, na religião, é hora de trabalho. Quem trabalha nessa hora é quem guarda a virada.
Perguntas frequentes
Exu Meia-Noite é da umbanda ou da quimbanda?
Dos dois. É cultuado na quimbanda e trabalha na gira da esquerda da umbanda. Parte das casas o coloca como chefe de falange da linha das almas.
Precisa mesmo entregar a oferenda à meia-noite?
Nas casas de quimbanda que trabalham a hora como fundamento, sim, e elas são a maioria das que registram essa falange. Em outras casas o horário segue o costume do terreiro. Pergunte ao seu dirigente, e não se exponha a risco para cumprir horário.
Qual a diferença entre Exu Meia-Noite e Exu Tranca Ruas?
Os dois são guardiões de passagem, mas de tipos diferentes. Tranca Ruas guarda a passagem de um lugar, a rua e a encruzilhada. Meia-Noite guarda a passagem de um tempo, a virada do dia. Veja quem é Exu Tranca Ruas.
Posso firmar Exu Meia-Noite em casa sozinho?
Acender vela e falar com respeito é oração, e isso todo mundo pode. Firmar assentamento exige fundamento recebido dentro de uma casa, com alguém que responda por você. Comece visitando uma gira.
Onde encontrar o material de Exu Meia-Noite
Na Joia Mística Laroyê você encontra:
- Velas preta e vermelha, de palito e de sete dias
- Charutos para a gira e para a oferenda
- Imagem de Exu e guias em preto e vermelho, e em preto e branco
- Alguidar de barro, farinha, dendê e pemba
- Ervas de proteção, com orientação de uso
Fale pelo WhatsApp ou passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG.
Referências
- Reginaldo Prandi: Exu, de mensageiro a diabo, sobre a demonização do orixá na colonização, Revista USP
- Carvalho e Bairrão: umbanda e quimbanda como alternativa negra à moral branca, Psicologia USP
- Cruz e Arruda: pesquisa de campo sobre o povo de rua em terreiros de umbanda do Rio de Janeiro, Memorandum, UFMG
- Axé Umbanda: ficha de Exu da Meia-Noite, com a linha das almas e a encruzilhada do tempo