Nomes de erês não vêm de lista pronta. O nome nasce da relação entre a pessoa, o orixá e a casa, e por isso muda de terreiro para terreiro.
Existe, sim, uma regra de formação, e ela é diferente no candomblé e na umbanda. Saber a regra vale mais do que decorar nomes: com ela dá para entender qualquer nome que você ouvir na sua casa.
Nomes de erês: como eles funcionam
Nenhuma lista que circula na internet é canônica. Cada pessoa iniciada tem o seu erê, e ele é particular. Como registra a pesquisa de campo de Morena Freitas, num mesmo centro pode haver dois Pedrinho da Cachoeira e três Mariazinha da Praia, e nem por isso são a mesma entidade.
Três coisas seguem daí:
- Nome repetido não é entidade repetida. Homônimas existem e são comuns.
- Nem toda Criança tem sobrenome. Muitas ficam só no primeiro nome.
- Uma pessoa pode ter mais de um erê. No candomblé, isso é registrado como normal.
No dia de Cosme e Damião, que é quando a linha mais aparece, esses nomes circulam mais do que em qualquer outra data do ano.
De onde vem o nome de um erê
São duas regras distintas. Confundir as duas é o erro mais comum.
No candomblé, ketu e nagô: o nome vem do orixá da cabeça. Ele se liga às características do orixá que dá passagem e costuma sair da natureza dele: árvore, flor, folha, peixe, pássaro. Filho de Oxóssi tende a erê com nome de mata; filha de Oxum, com nome de água doce. E o gênero do erê acompanha o orixá, não a pessoa: numa casa acompanhada por pesquisa, uma iaô filha de Oxóssi tem erê “homem”.
Na umbanda fluminense: diminutivo mais sobrenome de lugar. O primeiro nome quase sempre vem no diminutivo, e o sobrenome diz a qual lugar e a qual entidade aquela Criança pertence. O mapa dos sobrenomes, na lista de campo de Freitas, é este:
| Sobrenome | Orixá ou energia |
|---|---|
| da Praia, da Beira da Praia, de Iemanjá, do Mar | Iemanjá, águas salgadas |
| da Cachoeira | Oxum, águas doces |
| da Mata | Oxóssi |
| da Pedreira, de Xangô | Xangô |
| de Iansã | Iansã |
| do Oriente | linha do Oriente |
A regra tem exceção dentro da própria lista que a formula: “Moisés”, “Tinoco” e “Jandirinha” não seguem o padrão. Isso é honestidade da fonte, e é bom que seja assim. Quem são essas entidades e como elas trabalham está em erês na umbanda.

Nomes de erês por orixá, com a origem de cada um
O que vem abaixo não é catálogo: são nomes registrados em casas específicas, por pesquisa publicada, com lugar e data. Servem para mostrar o padrão, não para ninguém adotar.
No candomblé ketu, colhidos em Salvador, em Sergipe e em Santo Amaro da Purificação:
| Nome | Orixá |
|---|---|
| Espada, General, Capitão | Ogum |
| Princesa da Fonte das Águas Claras, Conchinha | Oxum |
| Flor da Noite | Iansã |
| Caçador, Murici, Bem-te-vi de Oxóssi | Oxóssi |
| Oxê | Xangô |
| Gaivota de Iemanjá, Pérola do mar, Pratinha | Iemanjá |
| Beija-flor de Logun Odé | Logun Odé |
| Pombinho de Oxalá | Oxalá |
Na umbanda do Rio, da lista de campo ouvida em giras de vários centros:
| Nome | Linha |
|---|---|
| Sereinha de Iemanjá, Solzinho de Iemanjá, Pedrinho da Praia, Mariazinha da Praia | Iemanjá |
| Pedrinho da Cachoeira, Rosinha da Cachoeira, Ritinha da Cachoeira, Crispim da Cachoeira | Oxum |
| Flechinha da Mata, Folhinha da Mata, Pedrinho da Mata, Caboclinho da Beira da Mata | Oxóssi |
| Rosinha da Pedreira, Estrelinha de Xangô | Xangô |
| Raio de Iansã, Ventinho de Iansã | Iansã |
| Joãozinho, Mariazinha, Ritinha, Jandirinha, Tinoco, Moisés | sem sobrenome |
Uma lacuna que vale declarar: muita gente procura nome de erê de Omolu, Obaluaê e Oxumarê, e não há registro publicado desses nomes em pesquisa aberta. Os que circulam vêm de listas copiadas entre blogs. Aqui eles não entram. Para entender a lógica de cada orixá, vale o que são os orixás.
Quem dá o nome do erê
Quase sempre, o próprio erê. Como descreve a pesquisa publicada na revista DESIDADES, da UFRJ, o nome costuma ser dito pela própria entidade no primeiro momento da incorporação, ainda durante a feitura de santo. Também acontece de o babalorixá ou a ialorixá informar o nome ao iaô, e de outra entidade fazer isso.
Nada no erê é aleatório: o nome, a roupa e os instrumentos que ele escolhe dizem de onde ele vem.
Duas consequências práticas. A primeira: não existe jeito de descobrir o nome do seu erê por teste ou por lista. Ele vem da casa e da entidade. A segunda: há nome que não se diz. Numa das pesquisas consultadas, um pesquisador registra a frase de um interlocutor: “não estou autorizado a dizer o nome do erê”.
Se o que você quer é entender qual linha o acompanha, e não o nome, o teste de qual é a sua entidade aponta a linha. O nome, esse, é assunto da sua casa.
Erê no candomblé e Criança na umbanda
Não é a mesma coisa, e é por isso que os nomes não funcionam igual.
| Candomblé (ketu, nagô) | Umbanda (linha das Crianças) | |
|---|---|---|
| O que é | estado ligado ao orixá do iniciado, entendido como qualidade infantil do orixá e intérprete do santo | entidade da linha das Crianças, também chamada ibejada |
| Quando aparece | na feitura e em vários momentos do terreiro | em gira, mais ligada a datas festivas |
| De onde vem o nome | do orixá da cabeça e da natureza dele | do diminutivo mais sobrenome de lugar |
| Quantos por pessoa | pode ser mais de um | cada pessoa tem a sua |
Vale registrar o que a pesquisa diz sobre erê e Ibeji. No estudo de Luis Nicolau Parés, publicado na Afro-Ásia da UFBA, está escrito que, a rigor, erê e Ibeji não têm relação: na tradição jeje-nagô baiana, os Ibeji não descem em corpo humano. Muitas casas hoje trabalham as duas coisas juntas, e isso é assunto de fundamento de cada uma. O orixá gêmeo tem ficha própria em quem é Ibeji.
A nação também muda o vocabulário. Em casa jeje do Maranhão, a figura infantil feminina é a tobôssi, com linha própria, que a pesquisa recomenda não confundir com o estado de erê do candomblé nagô. Na nação angola, o par de Ibeji é o inquice Vunji. Como resumiu uma dirigente ouvida pelo Brasil de Fato: “Erê é criança, Ibeji é criança e Ibejada é criança”. No fundamento, a pesquisa separa as três; na vivência das casas, elas se encontram.
Os nomes que aparecem no dia 27 de setembro
Crispim aparece na lista de campo como nome de Criança, com sobrenomes diferentes: Crispim da Cachoeira e Crispim da Mata. Ele vem de São Crispim, que com São Crispiniano tem dia próprio em 25 de outubro, celebrado também em terreiro de umbanda.
Doum aparece de dois jeitos: como sobrenome de Criança, no “Doum da Cachoeira” da lista fluminense, e como a terceira figura das imagens de Cosme e Damião. Ele não é orixá, e a história inteira está em quem é Doum.
Já “Cosmim” e “Damiãozinho” circulam bastante em listas de internet e não têm registro publicado. Não estão errados: podem ser nomes vivos numa casa específica. Só não há pesquisa que os tenha recolhido, e por isso não entram aqui como referência.
Por que a sua casa pode usar outro nome
Porque o nome se fecha na relação, não no catálogo. Parte do que circula na internet, inclusive, não veio do congá: veio da loja. A pesquisa mostra que imagens de erê chegam com etiqueta, “Rosinha”, “Pedrinho”, o que ajuda quem está começando a escolher uma peça. O nome de verdade se define depois, entre o devoto e a entidade.
“Depende da casa” não é evasiva aqui. É o fato: casas diferentes, nações diferentes e dirigentes diferentes nomeiam de formas diferentes, e a única resposta certa sobre o seu erê é a que vem do seu terreiro.
Perguntas frequentes
Quais são os nomes dos erês?
Não existe lista oficial. O que a pesquisa registra são nomes de casas específicas, como Pedrinho da Mata e Sereinha de Iemanjá na umbanda do Rio, ou Espada e Conchinha no candomblé ketu. Nome repetido em centros diferentes não é a mesma entidade.
Como se dá o nome de um erê?
Quase sempre é o próprio erê que diz o nome, na primeira incorporação, durante a feitura de santo. Também acontece de o dirigente da casa informar o nome ao iniciado, ou de outra entidade revelá-lo.
Qual é o nome do erê de cada orixá?
No candomblé, o nome se liga ao orixá da cabeça e costuma sair da natureza dele: mata e caça para Oxóssi, água doce para Oxum, fogo e pedra para Xangô. Na umbanda, o sobrenome indica a linha: da Praia é Iemanjá, da Cachoeira é Oxum, da Mata é Oxóssi.
O nome do erê no candomblé é igual ao da Criança na umbanda?
Não. São tradições distintas e regras distintas. No candomblé o nome vem do orixá da cabeça; na umbanda, é diminutivo mais sobrenome de lugar. Os termos também mudam: erê é o mais usado no candomblé, ibejada na umbanda.
Dá para descobrir o nome do meu erê?
Não por teste nem por lista. O nome vem da entidade e da casa, e há quem tenha o nome e não esteja autorizado a dizer. Quem está começando pode conversar com o dirigente do terreiro.
Se a sua casa pediu material para a mesa das Crianças e você ficou em dúvida sobre o que levar, dá para conferir pelo WhatsApp da loja.
Referências
- FREITAS, Morena B. M. Religião & Sociedade, v. 42, n. 2, 2022. Comida de Criança: doces (e) ibejadas da umbanda
- PARÉS, Luis Nicolau. “O triângulo das Tobosi”. Afro-Ásia, n. 25-26, 2001, UFBA. PDF
- URPIA, Ana Maria de O.; CONCEIÇÃO, Leandro dos Santos. DESIDADES, n. 32, 2022, UFRJ. O estado de erê
- FALCÃO, Christiane Rocha. “Ele já nasceu feito”: o lugar da criança no Candomblé. Dissertação de mestrado, UFPE, 2010.
- WILKER, Lucas. Brasil de Fato, 25 de setembro de 2025. Erê, Ibeji e Ibejada