Doum é a terceira figura que aparece entre Cosme e Damião em boa parte das imagens brasileiras. O nome vem de Ìdòwú, que na família iorubá nomeia quem nasce logo depois de um parto de gêmeos.
Essa parte é documentada. Já a parte do irmão é outra história: pesquisadores que estudam a devoção escrevem “irmãos” entre aspas, ou dizem “segundo a crença popular”. Vale separar as camadas uma a uma, porque quase tudo que circula sobre Doum vem sem fonte.
Ìdòwú: o nome iorubá por trás de Doum
Na tradição iorubá existe um conjunto de nomes dados pela circunstância do nascimento, e não pela escolha da família. Os gêmeos são Táíwò, o primeiro a nascer, e Kẹ́hìndé, o segundo. Quem vier depois deles recebe Ìdòwú. Depois de Ìdòwú vem Àlàbá.
Dois detalhes que costumam se perder pelo caminho. Ìdòwú vale para menino e para menina, e é assim que a linguística registra o nome. E ele carrega fama de criança danada: a expressão corrente entre os nagôs é esu lehin ibeji, que se pode traduzir como o travesso que vem depois dos gêmeos. Na fonte, é elogio brincalhão.
A etimologia é incerta. O pesquisador baiano Vivaldo da Costa Lima levantou a hipótese de que o nome viesse de owú, ciúme, e é assim que ela deve ser lida: como hipótese de um autor, não como fato fechado.
Há ainda uma crença registrada em várias pesquisas: entre os iorubás tradicionais, o terceiro precisa vir ao mundo depois do parto duplo. A antropologia recolhe a formulação forte de que, sem ele, a mãe dos gêmeos enlouqueceria. É crença registrada sobre o peso que recai sobre a mãe de gêmeos, e assim ela precisa ser lida.
De Ìdòwú a Doum: como o nome atravessou
Atravessou pela boca do povo. O pesquisador de arte sacra Tadeu Mourão, num capítulo do livro Doces Santos, do Museu Nacional da UFRJ, resume a passagem numa frase seca: “Aqui, Idoú virou Doum”.
As grafias variam. Doum é a forma mais corrente hoje. Doú aparece em boa parte da bibliografia. Dohú consta de registro baiano antigo. E há ainda Dois-Dois, que em algumas fontes nomeia Doum e em outras a própria dupla, o que recomenda cuidado com o termo.
O nome também já estava fora do terreiro há bastante tempo. Em 1951, uma valsinha chamada “Cosme e Damião”, de Roberto Martins e Ari Monteiro, gravada por Gilberto Alves, cantava: “Cosme, Damião, Doum / Crispim, Crispiniano / Caboclinho da mata / Doces pra vocês eu dei”.

Doum na imagem: a miniatura, e às vezes um vaso
As esculturas brasileiras mais conhecidas mostram Cosme e Damião como meninos rechonchudos, vestidos de forma idêntica, com gorro e capa à moda do século XVIII. Quando aparece uma terceira figura, ela é idêntica aos dois, em miniatura, sempre colocada entre eles.
A antropóloga Stefania Capone registra uma variante que quase ninguém conta: às vezes Doum não é uma figura, e sim um pequeno vaso posto entre os gêmeos. Na mesma passagem, ela o chama de “guardião” dos Ibejis, e não de terceiro gêmeo.
No Brasil, as imagens dos santos rejuvenesceram e se infantilizaram, ao contrário das europeias. A terceira figura nasceu dessa mesma transformação.
O que se diz de Doum, e o que cada versão tem atrás
Esta é a parte que falta em todo lugar. Separando o que sustenta cada afirmação, fica assim:
| O que se diz | O que sustenta |
|---|---|
| Ìdòwú é o nome de quem nasce depois dos gêmeos | documentado em linguística iorubá e na bibliografia baiana |
| Doum e Doú vêm de Ìdòwú | documentado; as fontes mais sérias escrevem “parece derivar” |
| Doum recebe a primeira parte da oferenda | documentado, em duas pesquisas independentes |
| Na imagem, é uma miniatura idêntica entre os dois | documentado como iconografia |
| Doum é o terceiro irmão de Cosme e Damião | devoção brasileira; os pesquisadores marcam “segundo a crença popular” |
| Doum é orixá, ou Doum é Ibeji | não se sustenta: a pesquisa o trata como guardião, não como orixá |
| Doum morreu criança por falta de médico | não foi encontrado em nenhuma fonte consultada |
Vale abrir a última linha. Doces Santos tem 534 páginas, reúne dez pesquisadores e é a maior pesquisa de campo publicada sobre esta devoção. O livro inteiro foi varrido nesta apuração cruzando as menções a Doum, Doú e Idowu com palavras ligadas a morte. Zero ocorrências. As 64 menções ao nome tratam de nome de nascimento, iconografia, ritual e música.
Isso não desmerece quem conta a história. Ela circula, tem valor para quem a guarda e faz parte da devoção. Só não é documento, e não deve ser apresentada como tal.
Doum não está na hagiografia católica
E quem diz isso é um pesquisador que foi lá procurar. A Legenda Áurea, compilação do século XIII que espalhou as vidas de santos pela Europa medieval, narra a história de Cosme e Damião e nomeia três irmãos deles: Ántimo, Leôncio e Euprépio. Nenhum Doum, nem nome parecido. O livro também não traz nenhum milagre ligado a criança.
Faz sentido: na Europa, a função dos dois santos nunca esteve ligada à infância, e sim à prática médica. A infância entrou aqui.
E, para deixar claro que essa régua não é dura só com o lado africano, vale olhar os outros dois nomes da lista baiana. Sobre Crispim e Crispiniano, a Catholic Encyclopedia escreve: “It is stated that they were brothers, but the fact has not been positively proved”. Nem gêmeos eram, e nem a irmandade está provada. A própria Igreja chama a narrativa de legenda, com detalhes de pouca probabilidade histórica.
Os sete irmãos do caruru
No caruru baiano, sete meninos comem primeiro, e eles representam sete irmãos: Cosme, Damião, Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi. O preceito está em os sete meninos do caruru.
Repare de onde vêm os nomes. Alabá é o Àlàbá iorubá, o que nasce depois de Ìdòwú. E Talabi é o Tàlàbí do mesmo sistema: a criança nascida empelicada, com a cabeça coberta pela membrana. Em registro nigeriano, aliás, aparece como nome feminino. Ou seja: a lista baiana não preservou só a sequência dos gêmeos, preservou o sistema iorubá de nomes de nascimento quase inteiro. Crispim e Crispiniano vêm do outro lado, do santoral católico, e têm dia próprio em 25 de outubro, celebrado também em terreiro de umbanda.
E a lista varia. Nos anos 1940, Edison Carneiro registrou seis nomes, sem Talabi: Cosme, Damião, Crispim, Crispiniano, Doú e Alabá. A lista de sete que virou padrão veio depois.
Doum, os Ibejis e as Crianças
São coisas diferentes, e a confusão é comum. Ibeji é o orixá duplo da infância, com ficha e itan próprios em quem é Ibeji. Doum não é orixá: a pesquisa o trata como o terceiro que acompanha os gêmeos, aquele que come primeiro nas festas. Na umbanda, ele aparece ligado à linha das Crianças, e o dia de Cosme e Damião é quando isso fica mais visível.
Uma ressalva honesta para fechar. A própria ligação entre Ibeji e os santos gêmeos é tema de debate acadêmico aberto: há pesquisa recente sugerindo que a devoção afro-baiana do século XIX funcionava como devoção agregadora de vários grupos africanos, em vez de um culto a Ibeji sincretizado. Sincretismo, aqui como sempre, não é equivalência.
Perguntas frequentes
Quem é Doum?
É a terceira figura que aparece entre Cosme e Damião nas imagens brasileiras. O nome vem de Ìdòwú, que na família iorubá nomeia quem nasce logo depois de um parto de gêmeos, menino ou menina.
Doum é irmão de Cosme e Damião?
Na devoção brasileira, sim. Historicamente, não há documento que sustente isso: a hagiografia católica nomeia outros três irmãos dos gêmeos e nenhum Doum. Pesquisadores costumam escrever “irmãos” entre aspas ou marcar “segundo a crença popular”.
O que significa Idowu?
É o nome dado a quem nasce logo depois de gêmeos, dentro do conjunto iorubá de nomes ligados à circunstância do nascimento. A etimologia é incerta, e uma das hipóteses levantadas liga o nome a owú, ciúme.
Doum é orixá?
Não. A pesquisa não o trata como orixá nem como terceiro gêmeo dos Ibejis. Ele aparece ao lado deles, como guardião, e recebe a primeira parte das oferendas nas festas.
Doum morreu criança?
Essa versão circula bastante, mas não foi encontrada em nenhuma das fontes consultadas nesta apuração, incluindo um livro de 534 páginas do Museu Nacional dedicado só a essa devoção. É tradição devocional, não registro histórico.
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Referências
- MENEZES, Renata; FREITAS, Morena; BÁRTOLO, Lucas (orgs.). Doces Santos: devoções a Cosme e Damião. Museu Nacional/UFRJ, 2020. Acesso aberto
- FAKUADE, Gbenga; FRIDAY-OTUN, Joseph; ADEOSUN, Hezekiah. “Yoruba personal naming system”. Sociolinguistic Studies, v. 13, n. 2-4, 2019. PDF
- BÁRTOLO, Lucas. “Cosme e Damião: o enredo de uma cidade”. Ponto Urbe, n. 23, 2018. Artigo
- MEIER, Gabriel. “Sts. Crispin and Crispinian”. The Catholic Encyclopedia, v. 4, 1908. Verbete
- SIMAS, Luiz Antônio. O menino no cavalo de Jorge
- FREITAS, Morena B. M. Religião & Sociedade, v. 42, n. 2, 2022. Comida de Criança