Os malandros na umbanda formam uma linha inteira de entidades, e Zé Pelintra é só o nome mais conhecido dela. A figura veio do malandro das ruas do começo do século XX, que a umbanda passou a cultuar entre as décadas de 1930 e 1960.
Este guia mostra de onde vem o malandro e onde a linha fica em cada casa. Também traz os nomes que as fontes registram, a roupa, as cores, a bebida e a saudação.
Quem são os malandros na umbanda
O malandro foi primeiro um tipo social das primeiras décadas do século XX, e depois virou entidade pela prática da umbanda e do catimbó. O pesquisador Pedro Guimarães Pimentel publicou o estudo na revista Mneme, da UFRN. Ele mostra que o malandro vivia entre a vadiagem e a profissão, como a dos sambistas. E a vadiagem era crime pelas leis da época.
A navalha e a capoeira fazem parte desse retrato histórico. Nos anos 1920 e 1930, eram formas de sobrevivência de quem vivia à margem, e o malandro foi um dos maiores representantes desse grupo.
Para Mario Teixeira de Sá Júnior, trazer baianos e malandros para o panteão foi um jeito de a umbanda sacralizar o humano marginalizado. E ajudou a aliviar o estigma que caía sobre os exus.
A malandragem que o povo brasileiro herdou do negro foi “condição indispensável para sobreviver às hostilidades da discriminação e do racismo”.
Pai Rodney, na CartaCapital
O pesquisador Rodrigo de Sousa da Silva, em artigo da UFAC, vai na mesma direção: na umbanda, a malandragem de Zé Pelintra fala da proximidade da entidade com o homem.
O malandro da Lapa e o mestre da Jurema
Duas leituras convivem. Nas umbandas do Rio, o malandro é o homem da Lapa, do morro, do bar e do cabaré, e esses são os espaços que aparecem nos pontos cantados.
No catimbó nordestino, Seu Zé é mestre juremeiro. Ali a imagem é outra: pés no chão, camisa e calça brancas, chapéu de palha e lenço vermelho no pescoço. A Jurema é tradição própria do Nordeste, com seus Mestres e Mestras, e o site tem uma página sobre ela em Jurema sagrada.
Se o Zé do catimbó e o da malandragem carioca são o mesmo, a própria tradição não sabe dizer. O perfil completo dele está em Zé Pelintra.
Onde a linha fica em cada casa
A linha dos malandros não tem lugar único. A pesquisa de campo registra arranjos diferentes, cada um numa casa:
| Como a casa organiza | O que foi registrado |
|---|---|
| Junto com os exus | Os malandros são cultuados na falange de exu, como subtipo com especificidades |
| Gira própria | O malandro ganhou gira específica, separada dos exus, com outros “Zés” |
| Sem linha | Zé Pelintra é o único malandro e comanda o trabalho das pombagiras |
| Perto dos baianos | Zé tem acesso fácil à gira de baiano e às vezes se manifesta como baiano |
| Na porta | Pela relação com Exu, protege porteiras, cancelas e tronqueiras |
Por isso a pergunta “malandro é Exu?” não tem resposta de uma palavra. A enciclopédia registra que Zé Pelintra incorpora em gira de exu sem ser dessa linha. A apostila da Sociedade Espiritualista Mata Virgem diz que os malandros não são exus, mas trabalham dentro da linha deles. E numa das casas estudadas, eles são tratados como subtipo de exu. Quem define é a sua casa. Para entender Exu, veja quem é Exu.
A vizinhança com os baianos também é real. Numa observação de quatro anos em terreiros de Curitiba, Zé Pelintra circulou entre a esquerda e a direita e às vezes veio como baiano. A linha dos baianos está em baianos na umbanda.
Nomes de malandros e malandras
Entre os malandros, os nomes que aparecem em mais de uma fonte são Zé Pelintra, Malandrinho, Zé do Coco, Zé Pretinho, Camisa Preta e Camisa Listrada. Cada casa conhece outros, e costumam ser nomes populares e duplos.
A linha também tem malandras. O nome mais comum começa com Maria e ganha um segundo nome, como Maria Navalha. Elas costumam vestir vermelho e usar flores no cabelo e na roupa.
No santuário de Zé Pelintra na Lapa, o pesquisador Carlos Eduardo Santos Maia registrou imagens de Maria Navalha e de Maria do Cais. Segundo o informante, Maria Navalha está mais ligada à Lapa e Maria do Cais tem influência nordestina. O filósofo Rafael Haddock-Lobo chama Maria Navalha de “pombagira malandra carioca”. Para a linha feminina da esquerda, veja quem é Pombagira.
Roupa, cores, bebida e saudação
A roupa mais conhecida é a do malandro carioca: terno branco, camisa de seda, sapato bicolor, chapéu panamá e gravata vermelha. Outra imagem comum é a camisa listrada sobre calça branca.
Cores: branco e vermelho | Objetos: chapéu, gravata vermelha, bengala, baralho, lenço vermelho | Saudação: “Salve a malandragem!”
A bebida com mais registros é a cerveja. No terreiro que Silva analisou, Zé Pelintra bebe cerveja e fuma cigarro. Nos bares do Rio, a imagem dele fica em altar improvisado, com vela ou lâmpada vermelha e, quase sempre, um copo de cerveja. A Mata Virgem registra casas que servem também cachaça, batida ou conhaque. A bebida e o fumo são oferenda definida pela entidade e pela casa, e ficam no rito.
No Rio de Janeiro, a Lei municipal 7.549/2022 criou o Dia do Zé Pelintra, em 7 de julho. A notícia da Câmara do Rio registra que a data serve a quem sofre intolerância religiosa, racismo e xenofobia. Algumas casas usam 28 de outubro.
Onde se oferece e o que não se pede
O malandro é da rua. Nos pontos cantados, os espaços dele são o bar, a rua, o morro e o cabaré. No santuário da Lapa, as velas são quase todas brancas, com algumas vermelhas e bicolores, ao lado de cervejas e cigarros.

Promessa de ganhar no jogo, destravar dinheiro ou trazer alguém de volta não tem lugar aqui, e nenhuma entidade séria vende isso.
Dentro da própria umbanda há quem rejeite o malandro que chega sambando e negue a ele o lugar de guia espiritual. Maia registra essa crítica como uma das posições em disputa. Cada casa segue o seu fundamento.
Perguntas frequentes
Malandro é Exu?
Depende da casa. Há terreiro que cultua os malandros junto com os exus, como subtipo, e há casa que dá a eles gira própria. A enciclopédia registra que Zé Pelintra incorpora em gira de exu sem ser dessa linha.
Malandro é direita ou esquerda?
Transita entre as duas. Numa pesquisa de quatro anos em terreiros de Curitiba, Zé Pelintra passou pela esquerda e pela direita. No catimbó, o mestre juremeiro também pode estar de um lado ou do outro. A posição na gira é decisão da casa.
O que o malandro gosta de beber?
A cerveja é a bebida com mais registros, tanto em terreiro quanto no santuário da Lapa. Algumas casas servem também cachaça, batida ou conhaque. A oferenda é definida pela entidade e pelo dirigente, e não se improvisa.
Maria Navalha é pombagira?
Ela é descrita como pombagira malandra carioca, e a classificação junta as duas coisas. Na umbanda, as malandras são a correspondente feminina da linha, e Maria Navalha é o exemplo mais citado.
Onde comprar artigos para a linha dos malandros
Na Joia Mística Laroyê você encontra o que a sua casa usa para a malandragem:
- Imagens de Zé Pelintra, de terno branco, gravata vermelha e chapéu panamá
- Velas bicolores vermelha e branca e velas brancas, de palito e de sete dias
- Guias brancas e vermelhas, nas cores da linha
- Chapéus panamá, gravatas e lenços vermelhos
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Referências
- Pedro Guimarães Pimentel: a sacralização do malandro, Mneme, UFRN, 2011
- Rodrigo de Sousa da Silva: Zé Pelintra, a umbanda e o malandro, UFAC, 2020
- Janderson Bax Carneiro: Zé Pelintra e as ressignificações do malandro, dissertação, PUC-Rio, 2012
- Carlos Eduardo Santos Maia: Salve, Seu Zé! Salve, Malandragem! Salve, Lapa!, Latitude, UFAL, 2022
- Mario Teixeira de Sá Júnior: Baianos e malandros, Interletras, 2006
- Câmara Municipal do Rio: Lei do Dia do Zé Pelintra, 2022
- Pai Rodney: Malandro, mestre e protetor, CartaCapital, 2018