As ervas de Iansã não têm uma lista única: cada casa e cada pesquisa de terreiro registra a sua, e só a espada-de-iansã aparece em várias delas. Os levantamentos que ouviram os terreiros também alertam que algumas dessas plantas são tóxicas se ingeridas.
A resposta vem de pesquisas de campo publicadas. Receita de banho não há, porque nenhuma delas descreve um.
Quais são as ervas de Iansã?
Não há uma lista só. Cada fonte dá plantas diferentes, e a mais citada é a espada-de-iansã. A tabela mostra o que cada pesquisa ou casa registra.
| Fonte | Tradição e lugar | Plantas citadas para Iansã |
|---|---|---|
| FUCESP | Umbanda, São Paulo | Aguapé, espada de Iansã, carqueja, folhas de bambu |
| Terreiro Pai Maneco | Umbanda, Curitiba | Catinga-de-mulata, cordão-de-frade, gerânio, açucena, folha de rosa branca, erva-de-santa-bárbara |
| Ilé Àsé Odé | Batuque, Rio Grande do Sul (uma casa) | Espada de Iansã, arruda, folha de pitangueira |
| Purcino, UFSB | Candomblé ketu e ijexá, Bahia | Aroeira-branca (com Exu), peregun-de-Oyá, folha-do-fogo, entre outras |
| Santos e Fortuna, UNEB | Umbanda, Teixeira de Freitas (BA) | Cerca de oito, entre elas aroeira, alfavacão, arruda, boldo, comigo-ninguém-pode, guiné, manjericão e pinhão-roxo |
A FUCESP, o terreiro Pai Maneco, a casa de batuque, Bianca Purcino e Joyce Santos e Jorge Fortuna são as cinco linhas. Na angola, uma dissertação da UERJ liga o hibisco a Matamba, o inquice, sem dizer que ela é Iansã. Outra dissertação da UERJ registra o flamboyant, com Euá, Oyá e Xangô, e a amendoeira, com Oyá Igbalé. São árvores, e o que é “de Iansã” nas pesquisas inclui flor e árvore, não só folha.
A ficha da orixá está em quem é Iansã.
Por que as listas não batem
As listas não batem por cinco motivos, e todos aparecem nas pesquisas.
- A mesma erva serve a mais de um orixá. Colli Silva e Silva, da USP, ouviram 13 lideranças de oito terreiros de umbanda da Grande São Paulo: “muitas vezes uma mesma erva se circunscreve no domínio de mais de um orixá”. Em Teixeira de Freitas, nenhuma das plantas de Iansã é só dela.
- A lista é da casa, não do livro. A FUCESP escreve “Algumas ervas”, e a própria lista se declara parcial.
- O mesmo nome vira espécie diferente. A aroeira de Purcino é a Lithraea, e a de Santos e Fortuna, a Schinus.
- A mesma planta é quente numa casa e cheirosa em outra. Em dois terreiros de Santarém (PA), a comigo-ninguém-pode e a espada-de-são-jorge são fervidas antes do uso num deles, e noutro a espada é erva cheirosa de banho. O quadro das ervas quentes e frias está em ervas quentes e frias.
- A planta vem de fora. No terreiro de Teixeira de Freitas, 20 das 39 plantas estão no quintal e 19 são compradas. O Santuário Nacional da Umbanda não permite coletar plantas.
O mesmo vale para as ervas de outros orixás, como mostra ervas de Oxóssi.
A espada-de-iansã: o nome e a planta
A espada-de-iansã é a Sansevieria trifasciata var. laurentii, segundo Purcino e segundo Pagnocca, Zank e Hanazaki, da UFSC. A espada-de-ogum é a var. trifasciata, e a lança-de-Ogum é a S. cylindrica. Em São Paulo, as lideranças ouvidas citam “as espadas ou lanças de São Jorge/Santa Bárbara”.
Cuidar da planta e posicioná-la na casa são assuntos de espada de Santa Bárbara, a planta de Iansã. Para a espada de Ogum, veja espada de São Jorge.

O que não vai na boca: as plantas tóxicas
Entre as plantas citadas para Iansã, várias não devem ser ingeridas. A fonte de cada alerta vem a seguir.
“suas folhas não podem ser ingeridas, pois são tóxicas”
É o que a mãe de santo do terreiro de Teixeira de Freitas informou sobre a comigo-ninguém-pode. Sobre a espada-de-são-jorge, os autores escrevem que os entrevistados a apontaram como tóxica para ingestão.
- Comigo-ninguém-pode. Os autores da pesquisa da UFSC a chamam de “planta tóxica”. Ela está entre as plantas mais citadas nas intoxicações registradas em Belém, com 11,2% dos casos. Veja comigo-ninguém-pode.
- Espada (as duas variedades). Pagnocca e os colegas a chamam de tóxica. Uma revisão veterinária da UFFS atribui a toxicidade a saponinas esteroidais e glicosídeos pregnânicos, mas os dados são de cães e gatos. Dose para pessoas, nenhuma fonte consultada traz.
- Pinhão-roxo. É a planta mais citada nos casos de intoxicação do Pará, com 25,1%. Santos e Fortuna o ligam a Ogum, Iansã, Oxóssi e Xangô.
- Arruda. “É uma das plantas mais comumente utilizadas para indução de aborto no Brasil”, escrevem Clarke, Rates e Bridi, da UFRGS, e os dados por período da gestação são contraditórios. O alerta vale para a ingestão.
- Aroeira. O Ministério da Saúde registra reações alérgicas na pele e mucosas pelo contato direto com a aroeira-da-praia (Schinus), e diz que o extrato não pode ser usado por grávidas. O documento não trata da aroeira-branca de Purcino.
Nada disso é receita, e este artigo não ensina chá.
Quem colhe a folha, e com que licença
Quem colhe, nos terreiros pesquisados, é quem a casa designa. Em dois terreiros de Santarém, de Mina e de candomblé ketu, a coleta e o manuseio ficam com o Bàbálósányìn ou a Iyálósányìn, que dominam “período, locais, cantos de permissão, cantos de agradecimento”. Uma liderança de umbanda paulista conta que “quando os orixás vão pegar ervas, eles pedem licença”, e nunca por desperdício.
No capítulo sobre Ossaim, Verger escreve que a colheita das folhas “deve ser feita com extremo cuidado, sempre em lugar selvagem”. Ele não diz de que casa ou nação fala, e a regra não é de Iansã.
Regra de colheita própria de Iansã não foi localizada nas pesquisas consultadas. A planta também não é a receita inteira: Verger registrou fórmulas com as encantações, “tão essenciais quanto os outros ingredientes”.
E o banho de Iansã?
Nenhuma fonte consultada descreve um banho de Iansã com função, para abrir caminho, para o amor ou para prosperidade. Isso é o que o leitor procura, e a pesquisa não dá. O que a pesquisa registra é um alerta: num terreiro de Mina, o sacerdote diz que “combinações errôneas” podem causar “choques” e “aquizilamentos”.
O banho de fundamento, o abô e o amaci são da casa, e quem os prepara é o dirigente. O que são está em o que é abô. O que se leva a Iansã está em oferenda para Iansã.
Quem precisa de uma erva que a casa pediu e não sabe como conferir o material pode tirar a dúvida pelo WhatsApp com a equipe da Joia Mística.
Perguntas frequentes
Quais são as ervas de Iansã?
Não há lista única. A FUCESP cita aguapé, espada de Iansã, carqueja e bambu. Um terreiro de Curitiba cita catinga-de-mulata e cordão-de-frade. A espada-de-iansã é a mais repetida. A lista da sua casa vale mais que a de qualquer pesquisa.
Qual erva usar no banho de Iansã?
Nenhuma fonte consultada descreve um banho de Iansã com função, como abrir caminho ou atrair amor. O banho de fundamento é da casa, e quem o prepara é o dirigente. Antes de usar qualquer erva, confirme com ele e lembre que várias plantas citadas para Iansã são tóxicas se ingeridas.
Espada de Iansã é a mesma que espada de São Jorge?
São variedades da mesma espécie. A espada-de-iansã é a Sansevieria trifasciata var. laurentii, e a espada-de-ogum é a var. trifasciata, segundo Purcino e a pesquisa da UFSC. A lança-de-Ogum é outra espécie, a Sansevieria cylindrica, segundo Purcino. O cuidado com a planta está no guia da espada de Santa Bárbara.
Pode fazer chá com as ervas de Iansã?
Nenhuma fonte consultada indica chá. A mãe de santo ouvida em Teixeira de Freitas diz que as folhas da comigo-ninguém-pode não podem ser ingeridas, os entrevistados apontam a espada como tóxica para ingestão, e a arruda tem alerta para grávidas. Não beba folha de terreiro.
Referências
- Bianca Purcino, UFSB: Perfil etnobotânico em terreiros de candomblé no sul da Bahia
- Joyce Santos e Jorge Fortuna, Research, Society and Development: A etnobotânica de um terreiro de umbanda em Teixeira de Freitas
- Matheus Colli Silva e Vagner Gonçalves da Silva, Interagir (UERJ): Um bosque de folhas sagradas
- Barboza et al., Nova Revista Amazônica (UFPA): Sem as plantas a religião não existiria
- Pagnocca, Zank e Hanazaki, Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine: The plants have axé
- Thaís Salatiel de Azevedo, UERJ: Saberes ancestrais sobre o uso de flores no candomblé de angola e na umbanda
- Vitor Amorim Moreira de Azevedo, UERJ: Ewé Igbo, árvores sagradas do candomblé
- Santos et al., Revista Fitos (Fiocruz): Intoxicação por plantas no Estado do Pará
- Clarke, Rates e Bridi, Infarma: Um alerta sobre o uso de produtos de origem vegetal na gravidez
- Ministério da Saúde: Schinus terebinthifolius, aroeira-da-praia
- UFFS: Intoxicação por Monstera deliciosa e Sansevieria trifasciata em animais de companhia
- FUCESP: Iansã
- Terreiro Pai Maneco: Iansã, senhora dos ventos e das tempestades
- Ilé Àsé Odé: Orixás, características
- Pierre Verger, Corrupio: Orixás, ficha da obra
- Fundação Pierre Verger: Ewé, o uso das plantas na sociedade iorubá