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Ervas & Fitoterapia 9 min de leitura

Abô: o que é, para que serve e por que não se ferve

Abô é a água de folhas maceradas a frio que o candomblé usa em banho, assentamento e obrigação. Veja para que serve, quem prepara e o que o separa do amaci.

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Cabaça de barro cheia de água escura com folhas verdes frescas maceradas, sobre esteira de palha, ao lado de vela branca acesa e quartinha de barro.

Resumo

Abô, àgbo em iorubá, é a água das folhas: várias ervas frescas maceradas a frio dentro da água, coadas depois de algumas horas de descanso. A casa usa esse líquido no banho, na lavagem dos fios de conta e dos assentamentos, e nas obrigações, da iniciação até a última.

A folha do abô não vai ao fogo. A descrição de campo mais detalhada do rito registra maceração por atrito, esfregando folha contra folha dentro da água, sem fervura em nenhuma etapa. Quem ferve está fazendo um banho de erva de casa, que é outra coisa e também tem lugar.

Abô e amaci não são dois líquidos de natureza diferente, são dois destinos da mesma água de folha: o amaci é o rito de cabeça, conduzido pela casa. E abô é banho: duas das folhas mais citadas nos terreiros pesquisados são tóxicas por ingestão.

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9 min de leitura

O abô (àgbo, em iorubá) é a água das folhas. Várias ervas frescas maceradas a frio dentro da água, deixadas descansar e depois coadas. É esse líquido que a casa usa no banho, na lavagem dos assentamentos e nas obrigações.

Este guia mostra quem prepara, por que a folha não vai ao fogo, e o que separa o abô do amaci e do banho de casa.


O que é o abô no candomblé

Nas casas de nação ketu, o abô atravessa a vida ritual inteira, da iniciação à última obrigação.

A pesquisa de Pedro Freire Botelho recolhe a formulação de José Flávio Pessoa de Barros. Ali o àgbo é a mais importante das misturas vegetais do culto aos orixás, e a ligação entre o mundo dos orixás e o dos homens. Dentro do candomblé, a folha não é acessório. Ela é a matéria que carrega o axé.

Quem manda na folha

O dono da folha é Ossaim, também grafado Ossain, Ossanha ou Òsányìn conforme a casa e a nação. Nenhuma cerimônia se faz sem ele, porque é ele quem detém o segredo do vegetal. O provérbio que resume isso aparece em três registros independentes:

Kó sí ewé, kó sí Òrìsà. Sem folha não há orixá.

No candomblé de nação angola, a mesma regência é de Katendê, o inquice das folhas e da ciência, um dos inquices do candomblé de angola. Mais sobre o orixá em quem é Ossaim.

Quem prepara o abô

O cargo tem nome: babalossaim, ou olosanyin, o sacerdote das ervas. Botelho registra, a partir de Roger Bastide, que esse sacerdócio não conhece o transe: a função dele é colher a folha e cuidar do rito de retirada.

Quando a casa não tem olosanyin, quem cumpre a função é o próprio babalorixá ou a ialorixá, e não se delega isso a outro filho de santo. Cada zelador tem a sua forma de fazer.

Daí vem o limite honesto deste artigo. Ele explica o que é o abô, não ensina a fazer. A composição é conhecimento de cargo, e o ofó que desperta a folha não se aprende em texto de internet.


Por que a folha do abô não vai ao fogo

A descrição de campo mais detalhada desse preparo está na tese de Luiz Fernando da Silva Anastácio, defendida na USP em 2023. Ele observou o rito de Sasányìn:

  1. As folhas colhidas descansam sobre a esteira.
  2. São lavadas e voltam para a igbá, a cabaça.
  3. Retiram-se com as mãos os galhos e as folhas murchas.
  4. Saúda-se Exu, acende-se a vela, e as cantigas de Ossaim começam.
  5. As folhas são esfregadas umas nas outras dentro da água, como quem esfrega roupa para lavar, e o movimento não para enquanto as cantigas durarem.
  6. O preparo decanta algumas horas, é coado, e só então serve.

Em algumas casas o babalorixá ainda abre um obi, mastiga e asperge sobre as folhas antes de soltá-las na água.

Não há fogo em nenhuma etapa. O que se quer é o sangue verde da folha, extraído pelo atrito. O Ilê Oxalá Segbo diz isso sem rodeio: as ervas do abô se maceram em água pura ou de chuva, e não se fervem.

Em banho de erva existem três técnicas legítimas, cada uma para um tipo de matéria: maceração a frio para folha fresca, infusão em água quente para folha seca, e decocção, a fervura, para casca, semente e cipó. Daí a confusão. Quem ferve não errou de técnica: está fazendo um banho de ervas de casa, que é outra coisa.


Abô, amaci e banho de ervas: o que separa os três

AbôAmaciBanho de casa
O que éágua de folhas maceradas, com fundamento da casaa mesma água de folha aplicada na cabeça do iniciadobanho de limpeza que a pessoa prepara para si
Onde se aplicacorpo, fio de conta, louça, assentamento, chão do barracãocabeça, o oricorpo, do pescoço para baixo
Quem conduzolosanyin ou o dirigentedirigente da casa, com resguardoa própria pessoa
Faz sozinhonãonãosim
Preparomaceração a friomaceração na água das quartinhas do roncómaceração, infusão ou decocção

O ponto que quase todo texto erra: abô e amaci não são dois líquidos de natureza diferente. São dois destinos da mesma água de folha. Botelho define o amaci como o líquido de folhas maceradas na água das quartinhas do roncó, para banhar a cabeça dos iniciados.

Por isso o amaci exige dirigente. A cabeça tem tratamento próprio, e o porquê está em o que é o ori e em o que é amaci.


O abô lava o que não é gente

Boa parte do abô de uma casa nunca toca em pele humana. A tese da USP registra que o líquido coado serve para lavar os objetos sagrados e para banhar. Uma casa de angola detalha a lista: alguidares, louças, fios de conta, paramentas, artigos dos igbás, roupas de santo, e até o chão do barracão.

Existe abô que não se toma, e ele é a maior parte. Lavar assentamento com abô é rotina.

  • Abô velho não se usa. A folha perde a função litúrgica e o líquido azeda.
  • O que sobra tem destino. Vai para o ojubô de Ossaim e depois é despachado no rio ou no mato.

As folhas do abô e seus orixás

A composição se monta por pares de oposição, e a oposição não é só quente contra fria: é também macho contra fêmea. Uma fonte de terreiro descreve o àgbo como combinação em quatro folhas ou múltiplos de quatro, com a quantidade variando de casa para casa.

O levantamento de Bianca Purcino, em dois terreiros de candomblé do sul da Bahia, sustenta isso com exemplo. A gameleira branca, irokò, é folha quente e do sexo masculino, indicada para banhos dos filhos de Exu e de Oxalá. O akòkó é planta masculina consagrada a Xangô. A régua de temperatura em detalhe está em ervas quentes e frias.

A tabela abaixo é o registro daqueles dois terreiros, não uma regra nacional. Folha por orixá varia de casa para casa.

FolhaNome de casaUso registradoOrixá
PeregumDracaena fragransproteção, sacudimentoOgum
Tapete de Oxaláewé bàbálimpeza de corpoOxalá
Manjericãoawó erédédefumação, limpezaOxum e Oxalá
QuioiôOcimum gratissimumsacudimento, defumaçãoOmolu e Oxóssi
Aroeira brancaájobi fumfumobrigação de cabeça, banhoExu e Iansã
AkòkóNewbouldia laevisbanho de prosperidadeXangô
Mariwôìgi ôpèproteção da casaOgum, Omolu, Oxaguiã

Folhas rituais dispostas em pares sobre madeira escura, com cuia de barro cheia de água ao centro e velas acesas ao lado.

Três dessas já têm ficha no blog: peregum, tapete de Oxalá e manjericão. Se você ainda não sabe de quem é a sua cabeça, comece pelo teste do orixá.


Beber o abô: o que as fontes dizem e o risco real

Há casas que bebem. Duas fontes de terreiro independentes registram a prática. Uma descreve o àgbo servindo também como bebida e remédio. A outra registra o costume de beber o banho quando a pessoa chegou à casa depois de ingerir álcool.

A ressalva vem colada. O levantamento da UNILA em terreiros de Foz do Iguaçu aponta a arruda e o comigo-ninguém-pode entre as espécies mais citadas nas casas pesquisadas. As duas são tóxicas por ingestão.

  • O comigo-ninguém-pode está entre as principais causadoras de envenenamento no Brasil. Os quadros vão de edema e irritação de mucosa até asfixia, e a faixa de 0 a 4 anos é a mais atingida.
  • A arruda tem atividade abortiva registrada, com efeito embriotóxico e teratogênico do extrato aquoso das folhas.

Abô é banho. Onde existe a tradição de beber, ela é decisão da casa, com folha escolhida pela casa. Gestante, criança e pessoa em tratamento não improvisam.


Perguntas frequentes

Qual a diferença entre abô e amaci?

O amaci é a água de folhas aplicada na cabeça do iniciado, num rito conduzido pela casa. O abô é o uso amplo da mesma água: banho no corpo, lavagem de fios de conta, louças e assentamentos. Mesmo líquido, destinos diferentes.

Pode fazer abô em casa?

O abô de fundamento não. Quem prepara é o olosanyin ou o dirigente, com a folha e o ofó daquele terreiro. Sozinha, a pessoa pode fazer um banho de ervas de limpeza, que não substitui o abô nem o amaci.

Pode beber o abô?

Há casas que bebem, em situações específicas, e isso está registrado em pesquisa de terreiro. Mas duas das folhas mais comuns nos terreiros pesquisados são tóxicas se ingeridas. Ingestão só com orientação do dirigente, nunca por receita de internet.

Quanto tempo dura o abô?

Pouco, e não se usa abô velho: a folha macerada perde a função litúrgica e o líquido azeda. O que sobra vai para o ojubô de Ossaim e é despachado no rio ou no mato.


Onde comprar as ervas e o material do abô

Na Joia Mística Laroyê você encontra o que a prática pede:

  • Ervas frescas e secas por maço ou por orixá
  • Quartinhas e alguidares de barro em vários tamanhos
  • Velas brancas de palito e de sete dias
  • Pano branco e esteira para o preparo
  • Obi e orobô para o rito de abertura

Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.


Referências

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