O doce de Cosme e Damião é distribuído em 27 de setembro como pagamento de promessa e como homenagem aos santos gêmeos e às entidades crianças. No catolicismo não havia ligação nenhuma entre os dois irmãos e o doce.
A prática nasceu aqui, da associação que os africanos escravizados fizeram entre os santos gêmeos e os orixás crianças. E, no mesmo dia, acontecem duas coisas que muita gente confunde: o saquinho que vai para a mão da criança e o prato que fica para o santo.
De onde vem o doce de Cosme e Damião
Da associação com Ibeji. Como explicou o professor Agnaldo Cuoco Portugal, da UnB, à Agência Brasil, os africanos escravizados não podiam cultuar suas divindades abertamente e aproximaram os orixás gêmeos dos santos católicos. A tradição de dar doce vem dessa aproximação, e não do santoral. Quem é Ibeji está em quem é Ibeji, e a história da data de 26 e 27 de setembro tem artigo próprio.
O costume é mais antigo do que costuma se dizer. O livro Doces santos, publicado pelo Museu Nacional da UFRJ em 2020, levantou mais de quinhentas ocorrências dos santos na imprensa carioca ao longo do século XX. Os primeiros anúncios de distribuição de doces a crianças são de uma devota, em 1924 e 1926, no Jornal do Brasil. Nos anos 1930 a prática já aparece com regularidade, e no fim da década já havia publicidade de fábrica de doces para a data.
Em grande parte do Rio de Janeiro, dos subúrbios à Pequena África, os santos gêmeos já eram celebrados com doces pelo menos desde os anos 1920.
Perguntados por que davam doce, os devotos entrevistados pela pesquisa deram três respostas, nesta ordem: por promessa, porque eu gosto e por tradição. O saquinho saiu do Rio e chegou ao resto do país junto com a expansão da umbanda.
Oferenda ou distribuição: as duas coisas do mesmo dia
São gestos distintos, e a diferença resolve quase toda a confusão em volta da data.
O prato do santo é oferenda. Antes de montar os saquinhos, muitas famílias separam dois doces de cada tipo, ou três quando se quer incluir Doum. Os doces vão num prato perto da imagem dos gêmeos, para que eles sejam os primeiros a comer. Com flores, velas e copos de água, esse prato vira um altar doméstico e fica montado até o fim da festa. Depois, os doces são despachados, isto é, postos como oferenda num jardim ou numa praça.
O saquinho é presente. Ele vai para a mão da criança que bate à porta. A pesquisa de campo de Morena Freitas descreve o dia 27 em dois tempos num terreiro do Rio: a distribuição de saquinhos à tarde e a gira festiva à noite, quando quem mais come doce são as Crianças.
Não é arranjo novo. Um depoimento de 1978 já descrevia isso: “de dia eu dou os saquinhos das crianças e de noite, na hora da festa, aí a gente dá os pratinhos”.
| Saquinho | Prato do santo | |
|---|---|---|
| Para quem | a criança que pede | os santos e as entidades |
| Quando | de dia, na porta de casa | montado antes, fica até o fim |
| Destino | é para levar e abrir | despachado no jardim ou na praça |

O que vai no saquinho, e o que é “cocô de rato”
Os doces brancos estão sempre presentes: suspiro, cocada, manjar, maria-mole. Segundo a pesquisa de Freitas, eles representam bem as Crianças, associadas à pureza.
A escolha não é aleatória: ela segue o fundamento alimentar de cada erê. Em casas do Rio registradas por pesquisa, por exemplo, erê de umbanda não toma refrigerante escuro, que costuma ser oferecido aos exus mirins.
E aqui vai a resposta para uma das buscas mais curiosas da semana do 27. “Cocô de rato” não é boato nem ofensa: é o apelido popular de uma pipoquinha de arroz doce, vendida no comércio como pipoca de arroz ou arrozinho doce. Ele aparece listado entre as guloseimas clássicas do saquinho em pelo menos três trabalhos acadêmicos sobre a festa. Nada a ver com veneno.
Pode pegar o doce? Os três casos
Depende de qual doce. São três situações diferentes, e só uma delas é dúvida de verdade.
O saquinho entregue na porta: pode. Ele foi feito para isso. Pedir doce, aliás, é atividade de criança: adulto que pede faz isso em nome de uma criança, e pode ouvir não. A idade limite não é fixa, e é negociada ali mesmo, na porta. Numa cena registrada pela pesquisa, uma avó pediu saquinho para o neto que ficara dormindo em casa. Ouviu que só ganhava doce quem estivesse presente.
O prato posto no altar ou despachado na praça: não. Aquilo é oferenda, tem destino próprio e não foi posto ali para ninguém levar. É o caso que mais confunde quem não é de terreiro. Já confundia em 1952, quando um jornal carioca registrou, com estranheza, crianças achando num gramado do Leblon um prato de papelão com cocadas, balas, três rosas brancas e duas figuras dos santos.
O doce faz mal? O que circula todo setembro é uma lenda urbana antiga, do mesmo molde do pânico das guloseimas adulteradas do Halloween. A checagem do Boatos.org, de 2022, rastreou o áudio que viralizou no país. Chegou a zero caso confirmado de morte por doce distribuído. O caso que deu origem ao boato foi investigado pela Polícia Civil do Rio: as câmeras do trem mostraram que a adolescente não recebeu nada de ninguém.
Vale registrar o que a busca não encontrou. A pesquisa mais completa sobre a festa, com 534 páginas e sete anos de campo no Rio, não traz uma ocorrência da palavra “envenenado”. O tema não aparece no campo.
O medo que a etnografia registra no dia 27 é de outra ordem. Numa vila do subúrbio carioca, Lucas Bártolo descreveu o receio dos moradores em relação a desconhecidos que entram atrás de doce. Medo de estranho na rua, não medo do doce.
Uma última coisa, para quem tem dúvida por causa da própria fé: receber um saquinho não obriga ninguém a comer o doce. E a tradição já resolveu isso sozinha, com uma etiqueta nova que a pesquisa registra: quem entrega costuma pedir licença aos pais da criança antes.
A criança em primeiro lugar
É o fundamento por trás de tudo. No caruru baiano, a comida vai primeiro aos donos da festa e depois a sete crianças, que comem juntas; só então os adultos se servem. É a hierarquia da mesa invertida, dos mais novos para os mais velhos, e o caruru de Cosme e Damião tem artigo próprio.
O saquinho carioca repete a mesma lógica em outra escala: o santo come primeiro, no prato do altar, e a criança vem logo depois. No Rio saem as crianças às ruas atrás de saquinho; na Bahia, serve-se o caruru. Duas expressões da mesma data.
Sobre idade, é bom desfazer uma confusão comum. A promessa mais típica dos gêmeos é a dos sete anos: quando uma criança nasce, promete-se dar doce por esse período, pedindo saúde e proteção para ela. São sete anos de quem promete, não idade de quem recebe. Muita gente estende o compromisso por décadas, como registrou a pesquisa: “dou desde que eu era criança, até o dia que Deus quiser”.
Terreiros do Rio hoje somam à distribuição a entrega de alimentos, roupas e itens de higiene, transformando a data em ação social. O passo a passo da mesa na umbanda está em artigo próprio.
Perguntas frequentes
Pode pegar o doce de Cosme e Damião?
O saquinho entregue na porta é presente e é para pegar. Já o prato de doces posto perto da imagem dos santos, ou despachado num jardim ou numa praça, é oferenda e tem destino próprio: esse não se pega.
O doce de Cosme e Damião faz mal?
A história do doce envenenado é lenda urbana. A checagem do Boatos.org rastreou o boato e chegou a zero caso confirmado de morte por doce distribuído, e a maior pesquisa de campo sobre a festa não registra nenhum caso. Como em qualquer doce, vale o bom senso de sempre.
O que é o “cocô de rato” do saquinho?
É o apelido popular de uma pipoquinha de arroz doce, vendida no comércio como pipoca de arroz ou arrozinho doce. Ela aparece entre as guloseimas clássicas do saquinho em vários trabalhos acadêmicos sobre a festa.
O doce de Cosme e Damião é católico ou da umbanda?
Os santos são católicos, mas a distribuição de doces não vem do catolicismo. Ela nasceu da associação entre os santos gêmeos e os orixás crianças, e se espalhou pelo país junto com a umbanda, saindo do Rio de Janeiro.
Qual a diferença entre o doce do saquinho e o doce da mesa do santo?
O saquinho é presente para a criança. O doce da mesa é oferenda: fica no altar doméstico até o fim da festa e depois é despachado. Muitas famílias separam dois doces de cada tipo, ou três quando incluem Doum, para o prato do santo.
Se ficar em dúvida sobre o que a sua casa pediu para o dia 27, dá para conferir pelo WhatsApp da loja.
Referências
- MENEZES, Renata; FREITAS, Morena; BÁRTOLO, Lucas (orgs.). Doces santos: devoções a Cosme e Damião. Museu Nacional/UFRJ, 2020. Acesso aberto
- FREITAS, Morena B. M. Religião & Sociedade, v. 42, n. 2, 2022. Comida de Criança: doces (e) ibejadas da umbanda
- BÁRTOLO, Lucas. Revista Intratextos (UERJ), v. 9, n. 1, 2018. Entre a caridade, a diversão e o medo
- DIAS, Júlio Cesar Tavares. Ciências Sociais e Religião, v. 17, n. 23, 2015. O doce de Cosme e Damião
- Agência Brasil (EBC), 2021. Entenda de onde vem a tradição de dar doces
- MATSUKI, Edgard. Boatos.org, 2022. Checagem do boato dos doces envenenados