Cosme e Damião na umbanda são celebrados no dia 27 de setembro como a face mais doce do axé: a linha das Crianças, os Erês, em sua ligação com os Ibejis do candomblé e com os santos gêmeos do catolicismo. É uma das datas mais queridas dos terreiros, marcada pela distribuição de doces, pelas velas cor de rosa e azul e por uma alegria que, ao contrário do que parece, limpa e renova.
Por trás da festa há três tradições distintas que o sincretismo aproximou sem fundir. Este guia explica quem são os Erês, os Ibejis e Cosme e Damião, por que o dia caiu no 27 de setembro, e mostra o passo a passo para montar a mesa da oferenda em casa ou no terreiro, com respeito e sem promessas mágicas.
Quem são as Crianças na umbanda
Na umbanda, Cosme e Damião pertencem à linha das Crianças, também chamadas de Erês ou Ibejada. São espíritos que se apresentam com temperamento infantil: falam como crianças, pedem doces, brincam, fazem manha. Mas é aqui que mora o erro mais comum. O Erê não é uma criancinha boba. É um adulto espiritual que escolhe a forma da criança porque, no axé, a doçura também é força.
A linha das Crianças tem um papel sério dentro da umbanda: é uma das mais poderosas em trabalhos de limpeza, descarrego e quebra de demandas pesadas. A leveza dos Erês desarma o que está travado, dissolve energias densas e abre caminho para a cura. Onde um guia mais grave precisa de firmeza, a Criança entra rindo e desfaz o nó.
Por isso, quem trabalha com essa linha aprende a respeitá-la. A saudação tradicional é “Salve as Crianças!” ou “Oni Beijada!”, e cada casa cultiva os seus próprios pontos cantados. Para entender como as Crianças se encaixam no conjunto das entidades, vale ler sobre os guias da umbanda e como atuam.
Erê, Ibeji e Cosme e Damião: qual a diferença
Esta é a pergunta que mais confunde quem chega à data. Erê, Ibeji e Cosme e Damião costumam aparecer juntos, mas pertencem a três planos religiosos diferentes. Misturá-los como se fossem a mesma coisa apaga a história de cada tradição.
- Ibeji é orixá, do candomblé, de raiz jeje-nagô (iorubá). É o orixá dos gêmeos, regente da infância, da fraternidade e da alegria. O nome vem do iorubá ibi (nascimento) somado a eji (dois): “nascimento duplo”. Nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi, os Ibejis chegam a vencer a própria Morte revezando o toque de tambores mágicos, e aparecem como filhos de Xangô e Oxum, ou de Oyá, ou de Iemanjá, conforme a casa. No calendário dos orixás, os Ibeji aparecem justamente em 27 de setembro, sincretizados com os santos gêmeos.
- Erê é entidade, atua na umbanda como a linha das Crianças. No candomblé, o termo nomeia o estado infantil que se manifesta no filho de santo e transmite as mensagens do orixá. Em ambos os casos, traz a força da pureza e do descarrego.
- Cosme e Damião são santos católicos, irmãos gêmeos médicos do século III, que curavam sem cobrar nada e morreram mártires. No catolicismo original não há vínculo entre eles e a distribuição de doces ou as crianças. Essa associação nasceu do encontro com o Ibeji infantil das tradições afro-brasileiras.
Ibeji é orixá (candomblé), Erê é entidade (umbanda) e Cosme e Damião são santos católicos. O sincretismo os aproximou porque os três evocam a força gêmea e infantil, mas eles não são a mesma coisa.
O sincretismo não foi coincidência, e muito menos confusão. Foi estratégia de sobrevivência. Diante da perseguição aos cultos africanos, pessoas escravizadas associaram seus orixás aos santos católicos para continuar cultuando sob outro nome. Aproximar o Ibeji gêmeo dos gêmeos Cosme e Damião foi uma forma de resistir, não uma declaração de que eles seriam idênticos. A mesma lógica explica por que a camomila, erva ligada a Ibeji e aos Erês, virou planta de doçura e infância nos terreiros.
Por que o dia é 27 de setembro
Quem procura a data encontra duas: 26 e 27 de setembro. As duas estão certas, cada uma no seu calendário.
Por muito tempo, a Igreja Católica celebrou Cosme e Damião no dia 27 de setembro. Em 1969, durante uma reforma do calendário litúrgico, a data oficial dos santos foi transferida para o dia 26. A devoção afro-brasileira, porém, manteve o 27 de setembro como o dia das Crianças, dos Ibejis e de Cosme e Damião nos terreiros. Por isso o 26 aparece como data católica e o 27 segue firme como a data popular e dos terreiros, conforme registra o Itaú Cultural ao contar a história desse sincretismo.
Na prática, o que vale para quem celebra na umbanda é o 27 de setembro. É nele que as casas montam a mesa, distribuem doces e abrem suas portas para a alegria dos Erês.
Como montar a mesa de Cosme e Damião passo a passo
A mesa das Crianças é alegre, colorida e simples. Não exige luxo: exige carinho. O que descrevemos aqui é uma referência devocional para montar a oferenda em casa, lembrando que cada terreiro tem as suas orientações próprias.
O que reunir
- Doces variados: balas, pirulitos, chocolates, cocada, brigadeiro
- Bolo, com frequência cortado em pedaços (muitas casas usam sete)
- Guaraná em copinhos individuais, a bebida preferida das Crianças
- Pipoca e frutas como banana e maçã
- Brinquedos coloridos, novos ou bem cuidados
- Velas cor de rosa e azul, as cores da linha das Crianças
- Flores e fitas rosa e azul para decorar a toalha
Passo a passo
- Escolha o local. Forre o chão ou uma mesa baixa com uma toalha limpa e colorida, de preferência num jardim, gramado ou área aberta, longe de encruzilhadas.
- Arrume os doces e o bolo no centro, dispondo tudo com capricho. A apresentação faz parte da homenagem.
- Sirva o guaraná em copinhos pequenos e distribua a pipoca, as frutas e os brinquedos ao redor.
- Acenda as velas rosa e azul. Um padrão comum reúne três velas rosa, três azuis e uma branca, mas a quantidade varia conforme a casa.
- Salve as Crianças. Saúde a corrente dos Erês e de Cosme e Damião, tradicionalmente sete vezes, com um pedido sincero ou uma oração de gratidão.
Dica de devoção: monte a mesa com o coração leve, como quem prepara uma festa para crianças amadas. A intenção alegre é o tempero principal da oferenda. Evite bebida alcoólica: a mesa das Crianças é doce.
Para escolher as velas com consciência do que cada cor representa, veja o guia de velas rituais e seus significados.
O caruru dos sete meninos
Em muitas famílias, sobretudo na Bahia e na matriz de raiz do candomblé, a celebração ganha o caruru de Cosme e Damião, um prato votivo feito de quiabo, azeite de dendê e camarão seco, acompanhado de feijão-fradinho, pipoca, farofa e outras comidas de santo. Vale registrar que esse caruru é tradição de raiz baiana e do candomblé, reconhecida como patrimônio imaterial da Bahia, e não uma prática exclusiva da umbanda, como mostra a reportagem da Agência Brasil.
O ritual tem uma regra bonita: o caruru é servido primeiro a sete crianças de até sete anos, que representam os sete irmãos da tradição. Além de Cosme e Damião, entram nessa conta Doum (também chamado Idowú, o irmão que nasce depois dos gêmeos e protege as crianças pequenas), Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi. Só depois que os pequenos se servem é que os adultos comem. A criança, aqui, vem sempre em primeiro lugar.
Cuidados ao celebrar a linha das Crianças
A oferenda das Crianças é uma das mais acessíveis da umbanda, mas alguns cuidados preservam o respeito à tradição:
- Nada de promessa mágica. A mesa de Cosme e Damião é devoção e celebração, não uma fórmula que resolve problema em prazo marcado. Quem trabalha com fé não negocia com o axé.
- Caridade faz parte da festa. Distribuir os doces a crianças de verdade, na vizinhança ou em instituições, é o coração da data. A alegria que se reparte é a oferenda que mais agrada aos Erês.
- Cada casa tem o seu jeito. Quantidade de velas, comidas e orações variam entre terreiros e nações. Se você é de uma casa, siga a orientação do seu pai ou mãe de santo. O passo a passo daqui é referência, não dogma.
- Respeite a força da linha. Por trás da brincadeira há trabalho espiritual sério de limpeza e cura. Tratar o Erê como anedota fofa é não enxergar o axé que ele carrega.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre Erê, Ibeji e Cosme e Damião?
São três tradições distintas. Ibeji é orixá dos gêmeos no candomblé de raiz iorubá. Erê é a entidade infantil da umbanda, a linha das Crianças. Cosme e Damião são santos católicos, irmãos gêmeos médicos. O sincretismo os aproximou pela força gêmea e infantil, mas eles não são a mesma coisa.
Quantas velas e de que cor se acende para Cosme e Damião?
As cores da linha das Crianças são o rosa e o azul. Um padrão comum reúne três velas rosa, três azuis e uma branca, mas a quantidade muda de casa para casa. O importante é a intenção alegre e o respeito, não o número exato de velas.
O que oferecer na mesa de Cosme e Damião?
Doces, balas, pirulitos, bolo (muitas vezes em sete pedaços), guaraná, pipoca, frutas e brinquedos coloridos, com velas e flores rosa e azul. Em algumas tradições de raiz, entra também o caruru de quiabo e dendê dos sete meninos. Evite bebida alcoólica: a mesa das Crianças é doce.
Por que o dia de Cosme e Damião é 27 de setembro e não 26?
A Igreja Católica celebrava os santos no dia 27, mas em 1969 transferiu a data oficial para o dia 26. A devoção afro-brasileira manteve o 27 de setembro como o dia das Crianças, dos Ibejis e de Cosme e Damião. Por isso as duas datas convivem, e nos terreiros vale o 27.
Onde comprar artigos para Cosme e Damião
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- Velas cor de rosa e azul, nas cores de Cosme e Damião e dos Erês
- Imagens de Cosme e Damião e dos Ibejis para o seu altar
- Velas brancas para completar a mesa da oferenda
- Ervas e defumadores, como a camomila ligada à doçura das Crianças
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Referências
- Itaú Cultural: história da festa dos gêmeos Ibeji e Cosme e Damião
- Agência Brasil: reportagem sobre o caruru de Cosme e Damião como patrimônio da Bahia