O Bará do Mercado é o assentamento do orixá Bará no centro do Mercado Público de Porto Alegre, bem no cruzamento das quatro alamedas internas. No chão, um mosaico de pedras e bronze com sete chaves marca o ponto que recebe cumprimentos, saudações e oferendas todos os dias.
O mosaico é recente, de 7 de fevereiro de 2013. O culto no lugar é antigo: há relatos de que o Bará é celebrado ali desde pelo menos o século XIX.
O que são as sete chaves no chão do Mercado Público
O mosaico mostra sete chaves presas às pontas de sete correntes, em raio sobre fundo vermelho. Ele entrou na lista de marcos do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre. A obra saiu de um pedido de casas de matriz africana à prefeitura. O registro do Bará do Mercado como patrimônio imaterial foi pedido por Mãe Norinha de Oxalá, então presidente da CEDRAB, à Secretaria Municipal da Cultura.
A chave não é enfeite. O antropólogo Vitor Queiroz, que pesquisa o assentamento, explica a ligação:
“Ele é associado à chave, porque se ele não abrir ou fechar, nada acontece. A encruzilhada é literalmente o lugar para onde todo mundo vai e de onde todo mundo sai. Ele é o porteiro, o mestre de cerimônias.”
Vitor Queiroz, antropólogo da UFRGS, em entrevista ao Nonada Jornalismo
Ocutá, em iorubá, quer dizer pedra sagrada. É assim que a lei municipal nomeia o que está assentado ali. O que existe sob o piso não se descreve, e a pesquisa de campo registra que isso não se sabe. A ficha do orixá, com cores, dia e saudação, está no guia sobre quem é Bará no batuque.
Quem assentou o Bará ali: duas versões
A pesquisa não fecha a origem, e quem diz que fecha está inventando. Existem duas versões em circulação, as duas registradas em trabalho acadêmico.
- Os escravizados do antigo largo. A primeira atribui o assentamento às pessoas escravizadas que viviam no espaço onde o mercado foi construído.
- O Príncipe Custódio. A segunda atribui ao africano que viveu em Porto Alegre no começo do século XX, e é a mais contada na cidade.
O prédio em volta tem história própria. O Mercado Público sofreu quatro incêndios: 1912, 1976, 1979 e 2013. Virou patrimônio histórico cultural de Porto Alegre em 1979, pela lei municipal 4317/77. São dois tombamentos diferentes. Um é o prédio, o outro é o ocutá.
O que o povo de santo faz ao passar
No dia a dia, o mosaico circular recebe dezenas de oferendas miúdas, sobretudo moedas e balas de mel. Quem é de religião cumprimenta e saúda ao atravessar o cruzamento. O mercado segue funcionando em volta.
O lugar também é passagem obrigatória na iniciação do batuque, num rito chamado passeio. O ciclo de obrigações do batuque, no qual o passeio se encaixa, está explicado em obrigação no batuque.
Uma pesquisa de campo acompanhou um desses passeios. Naquela casa, o babalorixá mandou levar sete moedas para o Bará. Três vão com a mão direita na primeira travessia do cruzeiro central, e mais quatro na segunda, em direção ao cais. A explicação foi simples: o valor não importa, o número importa.
Guarde este ponto: esse é o registro de uma casa, dentro de um rito de iniciação conduzido por babalorixá. Não é receita para repetir por conta própria. Quem orienta o seu caminho é a sua casa.
O ocutá tombado: o que a lei protege
A Lei nº 12.824, de 17 de março de 2021, tomba o Ocutá do Bará do Mercado Público como patrimônio histórico cultural de Porto Alegre. A Câmara aprovou o projeto em dezembro de 2020. O então prefeito não sancionou, e quem promulgou foi o presidente da Casa, vereador Márcio Bins Ely. A publicação saiu no Diário Oficial em 30 de março de 2021.
O texto é curto e direto no que proíbe:
“Ficam vedadas escavações no Ocutá do Bará do Mercado Público, tombado por esta Lei, bem como a realização de obras ou procedimentos que o alterem, o modifiquem, o removam, o inutilizem, o danifiquem ou o descaracterizem.”
Artigo 3º da Lei municipal 12.824, de 2021
Qualquer obra no local depende de aprovação prévia do órgão competente. Quando a imprensa escreve que o ocutá é patrimônio “desde 2020”, está contando a aprovação na Câmara. A lei é de 2021.
As datas: a festa de junho e o Bate Folhas da Virada
A festa no Bará do Mercado acontece em 13 ou 29 de junho. A escolha depende da linha religiosa da casa. São as mesmas datas juninas que organizam o dia de Exu, 13 de junho em outras tradições.
No fim do ano, o mercado recebe o Bate Folhas da Virada. A edição registrada em 2022 durou três dias, das 10h às 18h30. Benzedeiras e erveiros aplicavam banhos de purificação e davam conselhos para o ano que começava.
Vela e fio de conta de Bará a Joia Mística tem, em Extrema-MG, pelo WhatsApp. O rito é da casa, com o seu babalorixá ou a sua ialorixá.
Por que no Rio Grande do Sul se diz Bará
No batuque gaúcho, Bará é orixá. Ele tem lugar próprio no panteão, à frente dos caminhos, das portas e das encruzilhadas. Em outras tradições, a mesma força aparece sob outro nome e outro fundamento. Misturar os vocabulários confunde quem está aprendendo.
As diferenças entre Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda e Nagô estão reunidas em as nações do batuque. A religião inteira está explicada em o que é batuque.
Perguntas frequentes
O que é o Bará do Mercado em Porto Alegre?
É o assentamento do orixá Bará no cruzamento das alamedas internas do Mercado Público. No chão, um mosaico de pedras e bronze com sete chaves marca o ponto. O lugar recebe oferendas e saudações todo dia e é devoção do batuque gaúcho.
Quem assentou o Bará no Mercado Público?
Há duas versões registradas em pesquisa, sem veredito. Uma credita o assentamento às pessoas escravizadas que viviam no espaço onde o mercado foi erguido. A outra credita ao Príncipe Custódio, africano que viveu na cidade no começo do século XX, versão mais contada hoje.
O Bará do Mercado é tombado?
Sim. A Lei municipal 12.824, de 17 de março de 2021, tomba o Ocutá do Bará. Ela veda escavações e exige aprovação prévia para obras no local. O prédio do mercado já era tombado desde 1979, por outra lei.
Qual é o dia da festa do Bará do Mercado?
A festa é em 13 ou 29 de junho, e a escolha depende da linha religiosa de cada casa. Nos últimos dias de dezembro acontece também o Bate Folhas da Virada, com benzedeiras e erveiros no mercado.
O Bará do Mercado de Pelotas é o mesmo?
Não. São pontos de devoção distintos, em cidades diferentes. O de Pelotas fica no Mercado Central e tem história própria, lembrada no artigo sobre o dia de Exu. Este artigo trata do assentamento de Porto Alegre.
Referências
- UFRGS: etnografia do Bará no Mercado Público, TCC de Alicia Cima Rodriguez, 2023
- Reunião Brasileira de Antropologia: o mercado sagrado, de Olavo Ramalho Marques, 2008
- Câmara Municipal de Porto Alegre: o Ocutá do Bará oficializado como patrimônio, 2021
- Porto Alegre: texto da Lei nº 12.824, de 17 de março de 2021
- Nonada Jornalismo: entrevista sobre a etnografia do Bará do Mercado, 2022
- Brasil de Fato RS: o Bate Folhas da Virada no Bará do Mercado, 2022