O agogô é um sino de ferro sem badalo, de uma ou duas campânulas, tocado com uma vareta, e no candomblé é ele que dá a linha-guia do toque. No ketu, forma o conjunto com os três atabaques, rum, rumpi e lé. Em geral, é o agogô que começa o toque, e os couros entram depois.
O que é o agogô e para que serve no candomblé
O agogô serve para segurar o tempo de tudo o que acontece no toque. Ele repete uma frase curta e fixa, a linha-guia, do começo ao fim de cada toque, e os atabaques, o canto e a dança se apoiam nela. O pesquisador Edilberto Fonseca, da UERJ, escreve que o gã ou agogô tem o status de “maestro” do conjunto.
Família: idiofone de metal | Forma: uma ou duas campânulas | Material no terreiro: ferro | Toca-se com: vareta | Função: linha-guia | Outros nomes: gã, gan, gonguê, ferro
Linha-guia é a tradução de Carlos Sandroni para o timeline do ganense J. H. Kwabena Nketia.
Na tese A linguagem dos tambores, feita na Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador, Ângelo Cardoso registrou o que os músicos dizem.
“Quando você perder o ritmo, preste atenção no gã.”
O tocador de agogô não faz variação: firmado o padrão, ele mantém até o próximo toque. Por isso a pesquisadora Angela Lühning, citada por Cardoso, diz que ele tem “uma tarefa de extrema responsabilidade”. No Gantois, nas aulas do projeto Rum Alagbê, um erro no gã era visto como a causa da quebra do conjunto inteiro.

Agogô, gã e gonguê: a diferença por nação
Na prática do terreiro, agogô e gã são o mesmo instrumento. Alguns autores chamam de gã o de uma campânula e de agogô o de duas, mas Cardoso observou que a maioria dos fiéis usa os nomes como sinônimos. Quase sempre se toca uma campânula só; a exceção é o ijexá, que às vezes usa as duas.
O nome muda com a nação e a região. Veja o mapa completo em nações do candomblé: ketu, jeje e angola.
- Ketu ou nagô: agogô ou gã, como sinônimos. Em alguns terreiros, só “ferro”.
- Angola: no Templo de Cultura Bantu Redandá, na Grande São Paulo, o nome é gã ou gonguê, e é o som do gonguê que abre a cerimônia e chama os atabaques.
- Jeje: a palavra gã seria de origem ewe, segundo Olga Cacciatore.
- Nordeste: gonguê, também na capoeira e no maracatu.
A origem do nome tem duas leituras. Para Barros, agogô é palavra iorubá que significa “sino”; para Lühning, também iorubá, mas com o sentido de “tempo”. Gonguê viria de ngunga, do ambundo.
Quem toca o agogô no terreiro
No candomblé, quem toca o agogô é um ogã do conjunto, sob o comando do alabê, o dono do tambor. O alabê puxa os cânticos, ensina, zela pelos instrumentos e providencia as cerimônias de consagração deles. Os cargos estão explicados em cargos e hierarquia no candomblé.
O aprendizado começa pelo ferro. O alabê ensina primeiro a linha do agogô de cada toque; depois vêm o lé e o rumpi, e o rum fica por último. Quem ainda não firmou a linha-guia não vai para o couro.
No campo de Cardoso, em Salvador, mulher tocando os instrumentos era ocorrência “extremamente rara”. Na umbanda a regra muda de casa para casa.
Agogô comprado e agogô da casa
O agogô do barracão passa pela consagração que o alabê conduz, e esse rito é fundamento da casa. O da loja ainda não passou por ele. Serve para estudar a linha-guia em casa, para a curimba que vai cruzá-lo ou para levar ao zelador. No agogô duplo, as duas campânulas de ferro têm tamanhos diferentes e dão sons desiguais.
Na maior parte das casas estudadas a vareta é de metal. Há registro de vareta de madeira, mais comum no samba e na capoeira. Se a sua casa pediu um modelo específico, dá para conferir pelo WhatsApp antes de comprar.
Agogô na umbanda: o ferro da curimba
Na umbanda, o agogô toca na curimba, junto com os atabaques e o canto dos pontos. Os mestres de curimba ouvidos pela historiadora Victória dos Santos, da USP, chamam o agogô de “maestro”, o instrumento que marca o compasso. O funcionamento da curimba está em curimba na umbanda.
A presença dele não é igual em todo terreiro. No Templo Amor e Caridade Pena Verde, em São Paulo, a curimba quase não usa o agogô. Já o Mestre Obashanan diz que “toda a orquestra ritual tem que ter um agogô”.
Nos três terreiros paulistas estudados, tambores e agogôs são objetos consagrados. No Templo de Umbanda Caboclo Pena Branca, em Taubaté, a curimba tem uma firmeza para o Caboclo Girassol, com vela e flores. Ao lado, ervas maceradas para os curimbeiros lavarem as mãos antes de tocar. A firmeza de cada casa segue o que está em firmeza na umbanda.
Agogô e Ogum: o ferro do orixá
Ogum é o orixá do ferro forjado, da metalurgia e da guerra. Como o agogô é de ferro, há mestres que dedicam o instrumento a ele: o Mestre Roncali conta que “algumas tradições do candomblé” fazem isso. É costume de algumas casas, não regra.
Na Casa Branca, o instrumento de ferro ligado a Ogum é outro: o cadacorô, duas peças de ferro batidas uma na outra nas festas dele. O agogô não está entre os cinco instrumentos de fundamento dessa casa.
Cores no ketu: azul escuro ou verde | Dia: terça-feira | Saudação: Ogunhê | Jeje: Gun | Angola: Roximucumbe
As velas dos orixás que aparecem no toque
Nenhuma fonte manda acender vela para o agogô. A vela entra pelo orixá, com a cor da tradição. As velas virtuais dos orixás deste artigo ficam juntas aqui:
- Ogum: a vela de Ogum, ou uma vela azul escura, a cor das contas dele no ketu. Em muitas casas de umbanda, pelo sincretismo com São Jorge, Ogum também leva vermelho e branco.
- Exu: em qualquer cerimônia do candomblé ele é o primeiro a ser homenageado; a vela de Exu leva vermelho e preto, as cores dele no ketu.
- Oxalá: o adjá, a sineta de metal do barracão, é ligado a ele. O branco é a cor da vela de Oxalá.
Todas as cores estão no catálogo de velas virtuais. Para saber se Ogum rege a sua cabeça, o teste descubra seu orixá é um primeiro passo. A confirmação fica com o jogo da sua casa.
O agogô fora do terreiro
O agogô saiu do candomblé e ganhou a rua. Nei Lopes registra que ele se popularizou nas baterias das escolas de samba cariocas entre os anos 1940 e 1950. Os africanos escravizados trouxeram o instrumento ao Brasil, segundo o Instituto Musica Brasilis.
- Afoxé: mantém o agogô como referência, ao lado dos ilus e do xequerê.
- Capoeira, maracatu e maculelê: com o nome de gonguê.
No barracão, porém, o agogô não acompanha a festa: ele chama o orixá junto com os couros, no momento que os alabês chamam de “dar rum ao orixá”. O lugar dele na roda está em o que é xirê.
Perguntas frequentes
O que é agogô no candomblé?
É o sino de ferro, de uma ou duas campânulas, que toca a linha-guia do toque. No ketu, forma o conjunto com os atabaques rum, rumpi e lé. Os músicos chamam o agogô de maestro, porque tambores, canto e dança se orientam por ele. Em geral é ele que começa o toque.
Qual a diferença entre agogô e gã?
Nos terreiros, quase nenhuma. Alguns autores chamam de gã o de uma campânula e de agogô o de duas, mas a maioria dos fiéis usa os dois nomes como sinônimos. Quase sempre se toca uma campânula só; o ijexá às vezes usa as duas. Na angola também se diz gonguê.
Quem toca o agogô?
No candomblé, um ogã do conjunto, sob o comando do alabê, que ensina os toques e cuida da consagração dos instrumentos. O aprendizado começa pela linha do agogô, antes do lé, do rumpi e do rum. Na umbanda, toca quem a curimba da casa autoriza, e a regra varia.
O agogô é de Ogum?
Há mestres que dedicam o agogô a Ogum, orixá do ferro forjado, e contam que algumas casas de candomblé fazem isso. Não é regra geral: na Casa Branca, o ferro de Ogum é o cadacorô, tocado nas festas dele. Siga o que a sua casa ensina.
O que significa a palavra agogô?
A palavra vem do iorubá. Para Barros, quer dizer sino; para Angela Lühning, tempo. O nome gã seria de origem ewe, e gonguê viria de ngunga, do ambundo. As fontes divergem, e as duas leituras de agogô aparecem na pesquisa sobre o candomblé.
Referências
- UERJ, Edilberto Fonseca: Dar rum ao orixá: ritmo e rito nos candomblés ketu-nagô (2006)
- UFBA, Ângelo Cardoso: A linguagem dos tambores, tese de doutorado (2006)
- UDESC, Luciano Candemil: As linhas-guia das melodias do candomblé ketu (2017)
- UnB, Leonardo Malagrino: Os ritmos no candomblé de nação angola (2017)
- USP, Victória dos Santos: Nós atravessamos os caminhos para curimbá (2023)
- Revista USP, Alberto Ikeda: O ijexá no Brasil (2016)
- Horizontes Antropológicos, Reginaldo Prandi: Deuses africanos no Brasil contemporâneo (1995)
- Anais da ANPPOM, Costa e Queiroz: o toque Vassi a partir do terreiro do Gantois (2024)
- Instituto Musica Brasilis: verbete Agogô
- UFPB, LABEET: verbete Agogô no acervo de idiofones