Para dançar o xirê no candomblé ketu, os filhos da casa formam uma roda e giram no sentido anti-horário, seguindo a ordem das cantigas de cada orixá. O corpo repete gestos que contam os mitos de cada um. Quem ensina o passo são os mais velhos da casa, que a pessoa observa e repete.
Como se dança o xirê
A dança do xirê acontece em dois momentos. No primeiro, toda a comunidade dança consciente, na roda, seguindo a ordem do xirê. No segundo, quem entra em transe dança as cantigas do próprio orixá.
Na roda, cada filho de santo faz os passos gerais de cada orixá. No transe, o orixá dança a própria história, com passos a mais que a pesquisadora Naila Freitas chama de “atos”. Antes e depois do transe, todos os filhos de santo dançam ao som dos atabaques.
A roda gira em volta do centro do barracão, onde fica o ixé, a coluna de madeira em que estão enterrados os fundamentos da casa. O que é o xirê como rito, com as saudações, está em o que é xirê.
Não existe contagem de passos que valha para toda casa. O passo segue o toque do atabaque e se aprende na roda. Numa casa ketu de Goiânia, uma abiã contou que uma filha de santo lhe ensinou os passos e o que cada um significava, e ela “atenta observava e repetia”. Num terreiro ketu de Sergipe, as crianças aprendiam do mesmo jeito: “Ogum dança assim”.
Como a festa começa e a ordem dos orixás
Os filhos de santo entram no barracão em ordem hierárquica, ao som do toque de entrada, que algumas casas chamam de vamunha. Na entrada, saúda-se geralmente a porta, o axé e o pai ou a mãe de santo; em algumas casas, também os atabaques. Os toques e quem toca estão em atabaques do candomblé.
Em casas ketu como a estudada por Freitas, Exu não é tocado no xirê. Ele já foi homenageado antes, no correr do dia da festa. Numa casa ketu de Uberlândia, da linhagem da Casa de Oxumarê, todos batem cabeça para Ogum, que abre o ritual.
A ordem das cantigas muda de casa para casa, sobretudo no meio. Duas sequências ketu registradas:
- Linhagem da Casa de Oxumarê: Ogum, Oxóssi, Omolu, Ossaim, Oxumaré, Nanã, Oxum, Obá, Ewá, Oyá, Logunedé, Ayrá, Iemanjá, Xangô e Oxalá.
- Bembé do Mercado, ketu e nagô: Ogum, Oxóssi, Ossaim, Oxumaré, Omolu, Iroko, Logunedé, Iansã, Obá, Ewá, Oxum, Nanã, Iemanjá, Xangô e Oxalá.
Oxalá fecha a roda. Na tradição nagô do Recife, o babalorixá Albemar Araújo conta que Oxalá encerra e manda os orixás se virarem para a porta da rua. Jeje e angola têm toques próprios. As diferenças entre elas estão em nações do candomblé.
Por que a roda gira no sentido anti-horário
A roda do xirê gira no sentido anti-horário, e há mais de uma explicação para isso. A mais citada é a da volta no tempo. Numa casa ketu de Uberlândia, girar ao contrário é “como se os fieis voltassem no tempo, restaurando o contato com seus Ancestrais”.
Há outra leitura registrada pelo IPHAN. Mãe Manuela, do Bembé do Mercado, em Santo Amaro (BA), liga a direção ao céu e ao Sol: o xirê “é dançado no sentido de translação e se encontra com a rotação do Sol”.
“O xirê é uma conversa com os deuses.”
Baba Geri, no registro do Bembé do Mercado no IPHAN
A direção é a mesma nas duas falas. O sentido que a casa dá a ela, o pai ou a mãe de santo explica.
O que o corpo faz para cada orixá
Os gestos da roda evocam os mitos e as qualidades de cada orixá. Com fonte:
- Ogum corta com a espada e se prepara para a guerra com o escudo. A dança tem gestos ríspidos, e o toque é mais agitado.
- Oxóssi dança com o ofá, atento à caça, “mirando e acertando sua única flecha”.
- Oxum dança como quem se banha nos rios e se olha no abebê, o espelho.
- Iemanjá segura o leque, e as iaôs imitam as ondas, dobrando e erguendo o corpo.
- Oyá traz o vento e vira búfalo.
- Nanã, Oxumaré e Omolu, orixás da terra, dançam mais dobrados em direção ao chão.
- Xangô tem o toque do alujá.
- Oxalá tem toque vagaroso e dança “quebrando o corpo, com ligeira flexão dos joelhos”. No Recife, Oxaguiã dança com a espada, e Oxalufã vem curvado, apoiado no cajado.

Transe não é passo de dança. Na roda, a pessoa faz os passos gerais que a casa ensinou, e o resto é do orixá.
Quem dança, quem toca e quem assiste
A roda é dos filhos da casa, e o lugar de cada um segue a hierarquia, mesmo quando quem está de fora não percebe. Em geral, a ordem vai de quem tem mais tempo de iniciação até quem se iniciou por último. Cada um tem um papel na festa.
| Quem | O que faz na festa |
|---|---|
| Iaô, ebomi, ialorixá | dançam a roda e podem entrar em transe |
| Abiã | participa da festa e tem lugar na fila do xirê |
| Ekedi | não entra em transe; acompanha e cuida do orixá |
| Ogã | não entra em transe; garante a ordem do culto |
| Mais velhos e convidados | ocupam bancos e cadeiras de honra |
A roupa acompanha o grau. No dia a dia do terreiro ketu, a roupa é branca, a chamada roupa de ração, e em alguns momentos as mulheres usam o pano da costa branco. O abiã recebe um fio de contas branco e passa a usar roupa branca. Recém-iniciados não usam bata. Se a sua casa pediu roupa de ração ou fio de contas branco para a primeira festa, a loja confere com você pelo WhatsApp.
Durante a festa, os mais novos pedem a bênção aos mais velhos. O gesto e a fala certos estão em como pedir a bênção no candomblé. Os cargos da casa estão em cargos no candomblé.
Quem vem de fora observa. Se a casa chamar para a roda, siga quem está do seu lado; na dúvida, pergunte.
Quando o orixá chega
Nem todo orixá vem. Pode-se cantar para um orixá, ele não vir, e a roda seguir para o próximo. No Bembé, depois da sequência que louva de Exu a Oxalá, vem outra sequência, “mais ou menos umas vinte músicas”, que chama os orixás.
Quando o orixá chega, ogãs e ekedis garantem a ordem. A ekedi acompanha o orixá, enxuga o suor, veste e dança ao lado dele. Depois ele volta vestido com a roupa, as cores, as ferramentas e os adornos, pronto para dar rum. Rum é o nome do atabaque maior e também do momento do xirê dedicado a um orixá.
O orixá dança pelo barracão e pode abraçar e saudar quem está ali. Ele se comunica com gestos de abraçar, tocar e até falar, com quem dança e com quem assiste. Se ele vier até você, receba com respeito e deixe que a ekedi conduza.
Perguntas frequentes
Quem pode dançar na roda do xirê?
Os filhos da casa: iaôs, ebomis e quem dirige o terreiro, que podem entrar em transe. No ketu, o abiã, ainda não iniciado, também tem lugar na fila do xirê. O lugar de cada um segue o tempo de iniciação. Visitante observa e só entra se a casa chamar.
Todo orixá vem em toda festa?
Não. O transe não acontece em toda cantiga: pode-se cantar para um orixá, ele não vir, e a roda passar ao próximo. Em festa pública de rua, como o Bembé do Mercado, não há transe. O que acontece em cada festa depende da casa e do orixá.
Dá para aprender a dança do xirê em vídeo?
O passo do xirê se aprende na casa, olhando e repetindo os mais velhos. Cada casa tem o seu jeito, e a ordem muda de uma para outra. O vídeo mostra a forma, mas quem ensina o sentido de cada gesto é quem dança ao seu lado na roda.
O que fazer quando o orixá abraça você?
Receba com respeito, sem puxar e sem prolongar. O orixá se comunica abraçando, tocando e às vezes falando com quem está no barracão. A ekedi acompanha o orixá o tempo todo, e é ela quem conduz. Câmera só com autorização da casa.
Referências
- IPHAN e UFRB: registro do Bembé do Mercado, instrução de registro, 2019
- Christiane Rocha Falcão: A idade do santo, crianças e autoridade ritual no candomblé, Horizontes Antropológicos, 2021
- Raphael Felipe da Silva de Jesus: No balanço do mar, a dança de Iemanjá, Em Sociedade, PUC Minas, 2022
- Naila Porcina de Souza Freitas: Passos para o Santo, dança dos orixás, atos e itans, TCC, UFG, 2021
- Fernando Cardoso Rezende Alves: Xirê, o ritual como performance, TCC, UFU, 2017
- José Roberto Lima Santos: O guarda-roupas de candomblé, ABRACE, 2021
- Tatiana Maria Damasceno: Xirê, uma performance corporal de restauração da energia vital, ABRACE
- Danielle Romani: Orixás, dança que encena gestos de divindades, Revista Continente, 2012
- Adriano Azevedo: A roda de Candomblé, uma aproximação com a Ancestralidade, Farol da Bahia, 2023