São Lázaro e Obaluaê caminham lado a lado na fé brasileira: o santo católico coberto de chagas, cercado de cães, e o orixá que veste a palha da costa e domina as doenças e a cura. Nos dois, a mesma imagem se repete, a de quem conhece a ferida por dentro e, por isso, sabe curá-la.
Mas afinal, São Lázaro é Obaluaê? A resposta envolve ainda um terceiro nome. Na tabela do sociólogo Reginaldo Prandi, Obaluaê é “Sincretizado com São Lázaro e São Roque”, os dois juntos (Horizontes Antropológicos), e qual santo vai com qual face muda de casa para casa.
Quem foi São Lázaro
Aqui mora a primeira surpresa: existem dois Lázaros no Novo Testamento, e a devoção popular fundiu os dois num só.
O primeiro é Lázaro de Betânia, irmão de Marta e Maria, amigo de Jesus. É aquele que Cristo ressuscitou depois de quatro dias no túmulo, uma das passagens mais fortes do Evangelho de João. Sua festa litúrgica cai em 17 de dezembro.
O segundo é o Lázaro da parábola contada por Jesus no Evangelho de Lucas. Um mendigo pobre, coberto de feridas, deitado à porta de um homem rico, com os cães lambendo suas chagas. Da fusão dos dois nasceu o São Lázaro do povo: o protetor dos doentes, dos leprosos, dos pobres e dos animais.
Por causa das chagas, ele virou o santo invocado contra as doenças de pele e as moléstias do corpo. A imagem clássica mostra o santo apoiado em muletas, com feridas nas pernas e dois cães a seu lado. É essa figura que vai encontrar o orixá.
Obaluaê, o orixá da doença e da cura
Obaluaê, também chamado Omulu, é o orixá que rege as enfermidades e, ao mesmo tempo, o poder de curá-las. Seu nome vem do iorubá e significa algo como “rei, senhor da terra”. É o médico dos pobres, aquele que traz a doença mas também guarda o remédio.
Aqui damos apenas o essencial, porque o blog já tem o perfil completo dele. Para conhecer a mitologia, as cores, as oferendas e o arquétipo, vale ler quem é Obaluaê (Omulu). O que nos interessa agora é entender por que esse orixá encontrou São Lázaro.
Alguns pontos ajudam a enxergar a ponte com o santo:
- Saudação: “Atotô!”, que pede silêncio e respeito
- Símbolo: o xaxará, cetro “feito de fibras das folhas do dendezeiro com búzios”, na tabela de Prandi
- A palha: Obaluaê dança coberto pela roupa de palha da costa, que esconde o corpo marcado
- Oferenda: a pipoca estourada na areia, chamada doburu, a flor do Velho
- Dia: segunda-feira
Repare que o orixá também carrega no corpo a marca da doença, assim como o santo das chagas. Não é coincidência que o povo tenha unido os dois.
Por que São Lázaro virou Obaluaê
O encontro não foi acaso, e também não foi escolha livre. Durante a escravidão, os africanos eram proibidos de cultuar seus orixás. A saída foi esconder o orixá atrás da imagem de um santo católico de domínio parecido. Assim os terreiros reverenciavam Obaluaê enquanto, aos olhos do senhor de engenho, rezavam a São Lázaro.
O elo que uniu os dois é a ferida que cura. São Lázaro é o santo coberto de chagas, ligado à doença e à volta da morte, já que um dos Lázaros ressuscitou. Obaluaê é o orixá que domina a peste e a saúde, senhor da terra e da passagem. Diante de domínios tão próximos, a associação foi natural.
Por isso o sincretismo não é fusão nem igualdade teológica. É uma estratégia de resistência, a forma que os africanos escravizados acharam de manter viva a sua fé. São Lázaro segue sendo São Lázaro para o católico, e Obaluaê segue sendo Obaluaê para o povo de santo. O mesmo mecanismo une Nossa Senhora Aparecida e Oxum e aparece nos santos juninos e os orixás.
O sincretismo não apaga nenhuma das duas religiões. Ele guardou o orixá vivo debaixo do manto do santo, num tempo em que cultuá-lo abertamente era proibido.
São Lázaro ou São Roque? A dúvida das duas faces
Aqui está a parte que mais confunde. Obaluaê nem sempre sincretiza com São Lázaro. Prandi dá os dois santos juntos; o Santuário Nacional da Umbanda escreve que ele “Pode ser sincretizado também com São Roque e São Bento”; e o Núcleo Umbandista São Sebastião (NUSS) acrescenta: “Outros o sincretizam a São Roque e outros a São Cipriano.” Uma explicação muito citada está nas duas faces do orixá.
Uma leitura que Gildeci Leite registra “no imaginário popular baiano” (Fragmentos de Cultura) distingue Omulu, a face mais velha, curvada, coberta de chagas e ligada à morte, de Obaluaê, a face jovem, que já venceu a doença e a domina de pé. Cada face puxa um santo:
| Face do orixá | Santo na leitura baiana | Motivo |
|---|---|---|
| Omulu (velho, das chagas) | São Lázaro | ambos ligados às feridas e ao retorno da morte |
| Obaluaê (jovem, curador) | São Roque | santo que se curou da peste e cura epidemias |
| Outras casas | São Bento (Santuário) e São Cipriano (NUSS) | variação de casa |
São Roque, aliás, também aparece com um cão e uma ferida na perna, marca da peste de que se curou. Por isso os dois santos e as duas faces se misturam com facilidade na devoção popular. O importante é entender que não existe correspondência única. A Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina (TUCTVC) faz o inverso da tabela: “Omulu é sincretizado com São Roque e Obaluaê com São Lázaro.” E no terreiro de tambor de mina de São Paulo estudado por Prandi, cada vodum tem o seu santo: Acóssi é São Lázaro, Azile é São Roque e Xapanã é São Sebastião (Nas pegadas dos voduns).
Na nação angola, por exemplo, essa mesma energia da doença e da cura aparece como o inkice Kavungo (ou Kafunge), com seus próprios cânticos e fundamentos. Para entender essas diferenças entre tradições, veja as nações do candomblé.
As datas de festa de São Lázaro e Omulu
O calendário reflete essa riqueza de associações, com mais de uma data importante ao longo do ano.
A data litúrgica de São Lázaro é 17 de dezembro, ligada a Lázaro de Betânia. Já a grande festa popular de São Lázaro em Salvador acontece no último domingo de janeiro, na Igreja de São Lázaro, no bairro da Federação. É um dos momentos mais fortes do sincretismo baiano. Em casas de umbanda, o 17 de dezembro também é data do orixá: a FUCESP a dá “em razão do sincretismo com São Lázaro”. As outras datas e a cor de Omolu na umbanda estão em Omolu na umbanda.
Nesse dia, a fé católica e a devoção afro se encontram na rua. Há missa, procissão e, do lado do povo de santo, o banho de pipoca ofertado por mães e pais de santo, um dos rituais mais marcantes ligados a Omulu. A pipoca estourada, a flor do Velho, cai sobre os devotos como pedido de limpeza e cura.
Para situar essas datas dentro do ciclo maior das celebrações afro-brasileiras, veja o calendário dos orixás. E vale lembrar: devoção não é fórmula mágica. Nem a reza nem o banho funcionam como garantia automática. São gestos de fé, de respeito e de pertencimento.
Como a devoção acontece hoje
Nos terreiros, Obaluaê é saudado com o silêncio de “Atotô”, com velas nas cores preta e branca e com a partilha de comida. O ritual mais conhecido em sua honra é o olubajé, o banquete sagrado em que os presentes comem juntos os alimentos do orixá, num gesto de cura coletiva. Explicamos esse rito em olubajé, o banquete de Omolu.
Do lado católico, São Lázaro é lembrado por quem sofre com doenças de pele, feridas que não saram e enfermidades longas. A tradição também faz dele o protetor dos animais, sobretudo dos cães, sempre presentes em sua imagem.
As duas devoções convivem no mesmo respeito. Quem reza a São Lázaro e quem saúda Obaluaê está, cada um a seu modo, pedindo a mesma coisa: saúde, alívio e a força para atravessar a dor. É a mesma lição das duas faces do orixá, a de que não existe cura sem antes conhecer a ferida.
Perguntas frequentes
São Lázaro é Obaluaê?
Para muitas casas, São Lázaro é o santo associado a Obaluaê; na leitura baiana, à face mais velha, chamada Omulu, e na TUCTVC, ao contrário, a Obaluaê. Mas os dois não são a mesma divindade: são figuras de religiões diferentes, aproximadas pelo domínio comum sobre a doença, a cura e as feridas do corpo.
Qual a diferença entre São Lázaro e São Roque no sincretismo?
Os dois santos aparecem com um cão e uma ferida na perna. No imaginário baiano, São Lázaro é ligado a Omulu, a face velha e das chagas, e São Roque a Obaluaê, a face jovem; a TUCTVC faz o inverso. A correspondência varia conforme a casa e a região.
Qual é o dia de São Lázaro e de Omulu?
A data litúrgica de São Lázaro é 17 de dezembro. A grande festa popular, porém, acontece no último domingo de janeiro, em Salvador, com missa, procissão e o banho de pipoca ofertado pelo povo de santo em honra a Omulu.
Qual a saudação de Obaluaê?
A saudação é “Atotô!”, que pede silêncio e reverência. Ela expressa o respeito diante da doença, da morte e da cura, domínios do orixá. Diferente de outros orixás, saudados com festa alta, Obaluaê é reverenciado com recolhimento.
Onde encontrar artigos para Obaluaê
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar Obaluaê e São Lázaro com respeito:
- Velas pretas e brancas: as cores do orixá da cura
- Guias e contas de Obaluaê: para quem é filho do Velho
- Imagens de São Lázaro e de Omulu: para o altar doméstico
- Pipoca e itens para banho: para os rituais de limpeza e saúde
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Referências
- Wikipédia: artigo sobre Lázaro de Betânia
- Reginaldo Prandi, Horizontes Antropológicos, 1995: Deuses africanos no Brasil contemporâneo
- Gildeci de Oliveira Leite, Fragmentos de Cultura (PUC Goiás), 2019: Omolu, Obaluaê, São Lázaro, São Roque
- Reginaldo Prandi, 2005: Nas pegadas dos voduns
- TUCTVC: Obaluaê e Omulu
- Santuário Nacional da Umbanda: Abaluaiê
- NUSS: Omulú
- FUCESP: página de Obaluaê
- Prefeitura de Salvador: cobertura da festa de São Lázaro no bairro da Federação