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Catolicismo 8 min de leitura

São Lázaro e Obaluaê: o santo e o orixá da cura

São Lázaro e Obaluaê: por que o santo das chagas virou o orixá da cura, a diferença para São Roque e as datas de festa. Entenda o sincretismo de Omulu.

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Palha da costa cobrindo um assentamento com pipocas espalhadas, quartinhas de barro e velas acesas evocando a cura.

Resumo

São Lázaro, o amigo ressuscitado por Jesus que a piedade popular associou ao mendigo leproso do Evangelho coberto de feridas e lambido por cães, é sincretizado no Candomblé e na Umbanda com Pai Obaluaê/Omolu.

Ambos personificam a vitória sobre as piores doenças físicas e a superação da morte material através da misericórdia divina, sendo os maiores patronos da saúde e dos hospitais espirituais.

As preces a São Lázaro e Obaluaê pedem alívio de dores crônicas, cura de enfermidades de pele e libertação de cargas espirituais pesadas, acompanhadas por ofertas de pipoca (doburu) e velas brancas.

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São Lázaro e Obaluaê caminham lado a lado na fé brasileira: o santo católico coberto de chagas, cercado de cães, e o orixá que veste a palha da costa e domina as doenças e a cura. Nos dois, a mesma imagem se repete, a de quem conhece a ferida por dentro e, por isso, sabe curá-la.

Mas afinal, São Lázaro é Obaluaê? A resposta é mais rica do que um simples sim ou não, e envolve ainda um terceiro nome, São Roque. Este guia conta quem foi o santo, quem é o orixá, por que os dois foram associados e como isso vira devoção e festa no calendário afro-brasileiro.


Quem foi São Lázaro

Aqui mora a primeira surpresa: existem dois Lázaros no Novo Testamento, e a devoção popular fundiu os dois num só.

O primeiro é Lázaro de Betânia, irmão de Marta e Maria, amigo de Jesus. É aquele que Cristo ressuscitou depois de quatro dias no túmulo, uma das passagens mais fortes do Evangelho de João. Sua festa litúrgica cai em 17 de dezembro.

O segundo é o Lázaro da parábola contada por Jesus no Evangelho de Lucas. Um mendigo pobre, coberto de feridas, deitado à porta de um homem rico, com os cães lambendo suas chagas. Da fusão dos dois nasceu o São Lázaro do povo: o protetor dos doentes, dos leprosos, dos pobres e dos animais.

Por causa das chagas, ele virou o santo invocado contra as doenças de pele e as moléstias do corpo. A imagem clássica mostra o santo apoiado em muletas, com feridas nas pernas e dois cães a seu lado. É essa figura que vai encontrar o orixá.


Obaluaê, o orixá da doença e da cura

Obaluaê, também chamado Omulu, é o orixá que rege as enfermidades e, ao mesmo tempo, o poder de curá-las. Seu nome vem do iorubá e significa algo como “rei, senhor da terra”. É o médico dos pobres, aquele que traz a doença mas também guarda o remédio.

Aqui damos apenas o essencial, porque o blog já tem o perfil completo dele. Para conhecer a mitologia, as cores, as oferendas e o arquétipo, vale ler quem é Obaluaê (Omulu). O que nos interessa agora é entender por que esse orixá encontrou São Lázaro.

Alguns pontos ajudam a enxergar a ponte com o santo:

  • Saudação: “Atotô!”, que pede silêncio e respeito diante do mistério
  • Símbolo: o xaxará (ou íleko), o feixe de palha que varre a doença e a energia densa
  • A palha: Obaluaê dança coberto pela roupa de palha da costa, que esconde o corpo marcado
  • Oferenda: a pipoca estourada na areia, chamada doburu, a flor do Velho
  • Dia: segunda-feira

Repare que o orixá também carrega no corpo a marca da doença, assim como o santo das chagas. Não é coincidência que o povo tenha unido os dois.


Por que São Lázaro virou Obaluaê

O encontro não foi acaso, e também não foi escolha livre. Durante a escravidão, os africanos eram proibidos de cultuar seus orixás. A saída foi esconder o orixá atrás da imagem de um santo católico de domínio parecido. Assim os terreiros reverenciavam Obaluaê enquanto, aos olhos do senhor de engenho, rezavam a São Lázaro.

O elo que uniu os dois é a ferida que cura. São Lázaro é o santo coberto de chagas, ligado à doença e à volta da morte, já que um dos Lázaros ressuscitou. Obaluaê é o orixá que domina a peste e a saúde, senhor da terra e da passagem. Diante de domínios tão próximos, a associação foi natural.

Por isso o sincretismo não é fusão nem igualdade teológica. É uma estratégia de resistência, a forma que os africanos escravizados acharam de manter viva a sua fé. São Lázaro segue sendo São Lázaro para o católico, e Obaluaê segue sendo Obaluaê para o povo de santo. O mesmo mecanismo une Nossa Senhora Aparecida e Oxum e aparece nos santos juninos e os orixás.

O sincretismo não apaga nenhuma das duas religiões. Ele guardou o orixá vivo debaixo do manto do santo, num tempo em que cultuá-lo abertamente era proibido.


São Lázaro ou São Roque? A dúvida das duas faces

Aqui está a parte que mais confunde. Obaluaê nem sempre sincretiza com São Lázaro. Como registra a Wikipédia sobre Obaluaiê, em muitas casas o santo associado é São Roque, e há ainda quem lembre de São Bento. A explicação está nas duas faces do próprio orixá.

O povo de santo costuma distinguir Omulu, a face mais velha, curvada, coberta de chagas e ligada à morte, de Obaluaê, a face jovem, que já venceu a doença e a domina de pé. Cada face puxa um santo:

Face do orixáSanto mais comumMotivo
Omulu (velho, das chagas)São Lázaroambos ligados às feridas e ao retorno da morte
Obaluaê (jovem, curador)São Roquesanto que se curou da peste e cura epidemias
Variação regionalSão Bentoprotetor contra pragas e venenos

São Roque, aliás, também aparece com um cão e uma ferida na perna, marca da peste de que se curou. Por isso os dois santos e as duas faces se misturam com facilidade na devoção popular. O importante é entender que não existe correspondência única: ela muda conforme a casa, a nação e a região.

Na nação angola, por exemplo, essa mesma energia da doença e da cura aparece como o inkice Kavungo (ou Kafunge), com seus próprios cânticos e fundamentos. Para entender essas diferenças entre tradições, veja as nações do candomblé.


As datas de festa de São Lázaro e Omulu

O calendário reflete essa riqueza de associações, com mais de uma data importante ao longo do ano.

A data litúrgica de São Lázaro é 17 de dezembro, ligada a Lázaro de Betânia. Já a grande festa popular de São Lázaro em Salvador acontece no último domingo de janeiro, na Igreja de São Lázaro, no bairro da Federação. É um dos momentos mais fortes do sincretismo baiano.

Nesse dia, a fé católica e a devoção afro se encontram na rua. Há missa, procissão e, do lado do povo de santo, o banho de pipoca ofertado por mães e pais de santo, um dos rituais mais marcantes ligados a Omulu. A pipoca estourada, a flor do Velho, cai sobre os devotos como pedido de limpeza e cura.

Para situar essas datas dentro do ciclo maior das celebrações afro-brasileiras, veja o calendário dos orixás. E vale lembrar: devoção não é fórmula mágica. Nem a reza nem o banho funcionam como garantia automática. São gestos de fé, de respeito e de pertencimento.


Como a devoção acontece hoje

Nos terreiros, Obaluaê é saudado com o silêncio de “Atotô”, com velas nas cores preta e branca e com a partilha de comida. O ritual mais conhecido em sua honra é o olubajé, o banquete sagrado em que os presentes comem juntos os alimentos do orixá, num gesto de cura coletiva. Explicamos esse rito em olubajé, o banquete de Omolu.

Do lado católico, São Lázaro é lembrado por quem sofre com doenças de pele, feridas que não saram e enfermidades longas. A tradição também faz dele o protetor dos animais, sobretudo dos cães, sempre presentes em sua imagem.

As duas devoções convivem no mesmo respeito. Quem reza a São Lázaro e quem saúda Obaluaê está, cada um a seu modo, pedindo a mesma coisa: saúde, alívio e a força para atravessar a dor. É a mesma lição das duas faces do orixá, a de que não existe cura sem antes conhecer a ferida.


Perguntas frequentes

São Lázaro é Obaluaê?

Para muitas casas de tradição afro-brasileira, sim, São Lázaro é o santo associado a Obaluaê, na sua face mais velha, chamada Omulu. Mas os dois não são a mesma divindade: são figuras de religiões diferentes, aproximadas pelo domínio comum sobre a doença, a cura e as feridas do corpo.

Qual a diferença entre São Lázaro e São Roque no sincretismo?

Os dois santos aparecem com um cão e uma ferida na perna. Em geral, São Lázaro é ligado a Omulu, a face velha e das chagas, enquanto São Roque é ligado a Obaluaê, a face jovem que já venceu a peste. A correspondência varia conforme a casa e a região.

Qual é o dia de São Lázaro e de Omulu?

A data litúrgica de São Lázaro é 17 de dezembro. A grande festa popular, porém, acontece no último domingo de janeiro, em Salvador, com missa, procissão e o banho de pipoca ofertado pelo povo de santo em honra a Omulu.

Qual a saudação de Obaluaê?

A saudação é “Atotô!”, que pede silêncio e reverência. Ela expressa o respeito diante do mistério da doença, da morte e da cura, domínios do orixá. Diferente de outros orixás, saudados com festa alta, Obaluaê é reverenciado com recolhimento.


Onde encontrar artigos para Obaluaê

Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar Obaluaê e São Lázaro com respeito:

  • Velas pretas e brancas: as cores do orixá da cura
  • Guias e contas de Obaluaê: para quem é filho do Velho
  • Imagens de São Lázaro e de Omulu: para o altar doméstico
  • Pipoca e itens para banho: para os rituais de limpeza e saúde

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Referências

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