O Olubajé é a grande festa de agosto do candomblé: o banquete de cura em que Omolu, o orixá da terra e da saúde, partilha com a comunidade a comida que afasta a doença e distribui axé. Mais do que uma refeição, é um grande ebó coletivo, um rito de partilha em que ninguém come sozinho.
Este guia explica o que é o Olubajé, quando acontece, o que se come e por que se come com as mãos, o sentido do deburu (a pipoca de Omolu) e como o candomblé celebra o rito que a umbanda também homenageia no mês de agosto.
O que é o Olubajé
O Olubajé é o banquete ritual de cura e partilha dedicado a Omolu (também chamado Obaluaê), realizado uma vez por ano na maioria dos terreiros de candomblé. O nome é comumente traduzido do iorubá como “o banquete do rei” ou “comer juntos”, e os dois sentidos cabem: é a mesa do senhor da terra, aberta para que a comunidade coma da mesma comida.
Ele funciona em duas camadas ao mesmo tempo. É uma festa pública, com cantigas, dança e fartura, e é um grande ebó coletivo, uma oferenda de saúde que pede o afastamento da doença e da morte para todos os presentes. Como ensina o orixá Obaluaê (Omulu), senhor da cura, a doença e a cura caminham pelas mãos do mesmo orixá, e o Olubajé é o momento do ano em que essa cura se reparte como alimento.
O que é: banquete ritual de cura | Quando: agosto, em torno de 16/08 | Orixá: Omolu (Obaluaê) | Comida símbolo: deburu (pipoca) | Prato: folha de mamona | Saudação: Atotô! | Tradição: candomblé, nação ketu como referência
No rito, manifesta-se Omolu, e orixás como Oxumarê, o irmão arco-íris, e Nanã, a mãe de Omolu, podem fazer a corte. A oferenda central, porém, é dele: o rei que conhece a doença por dentro e por isso reparte a saúde.
Quando acontece o Olubajé
Agosto é o mês de Omolu nos terreiros, e o Olubajé é a sua grande festa. A data mais simbólica gira em torno de 16 de agosto, dia em que o catolicismo popular celebra São Roque, o santo protetor contra as pestes associado a Obaluaê no sincretismo. A reportagem da CNN Brasil sobre o dia de Obaluaê registra essa ligação entre o orixá da cura e a data de São Roque.
Na prática, não existe uma data única e fixa. Cada casa marca o seu Olubajé dentro do mês de agosto, conforme o calendário litúrgico do terreiro e a orientação do pai ou da mãe-de-santo. Quem quer participar de um Olubajé acompanha o anúncio da casa, não uma data nacional. Para entender como cada orixá tem o seu tempo no ano, vale conhecer o calendário das festas dos orixás.
Vale a distinção: o perfil de Obaluaê trata do orixá em si, das suas duas faces e do sincretismo de 16 de agosto. Aqui o protagonista é o rito, a festa em que esse orixá divide a mesa.
Deburu: a pipoca que é a flor de Omolu
A comida que melhor traduz o Olubajé é o deburu (também grafado doburu), a pipoca estourada sem sal, tradicionalmente na areia quente ou no azeite de dendê. Nos terreiros, ela é chamada de “flor de Omolu”.
O nome guarda um itan, um mito do orixá. Conta a tradição, registrada por pesquisadores como Reginaldo Prandi em Mitologia dos Orixás, que as feridas que cobriam o corpo de Omolu se transformaram em flores brancas estouradas da terra quente. A pipoca é a prova viva dessa história: da chaga pode nascer flor, da doença pode nascer cura. Por isso o deburu é, ao mesmo tempo, oferenda e símbolo de tudo o que o Olubajé celebra.
A pipoca de Omolu também é usada em limpeza espiritual, passada pelo corpo do pescoço para baixo. Não se trata de “jogar doença” em ninguém: é descarrego, o gesto de retirar o peso e devolver a leveza. Banhos e rituais de fundamento, porém, são da casa e do santo: quem sente o chamado procura a orientação de um pai ou mãe-de-santo.
O que se come no Olubajé (e por que com as mãos)
No banquete, as comidas votivas de Omolu são dispostas sobre folhas de mamona, que servem de prato natural. A Wikipédia, no verbete sobre o Olubajé, registra a tradição de no mínimo nove iguarias da culinária afro-brasileira servidas dessa forma, simbolizando o ciclo da vida e da morte que o orixá governa.
São pratos de preparo simples e popular, próprios da mesa de Omolu, como:
- Deburu, a pipoca sem sal, a estrela do banquete
- Feijão preto e outros grãos cozidos
- Aberém, acaçá e massas de milho
- Raízes e legumes cozidos, de fartura humilde
Os presentes comem um pouco de cada comida, com as próprias mãos, cantando e dançando em louvor ao orixá. Em muitas casas, os iniciados mais antigos servem a comunidade. Comer com as mãos e da mesma mesa não é falta de etiqueta: é o coração do rito. Ali não há talher que separe, não há prato individual, não há quem pague pela comida. Todos partilham a mesma fartura, como num grande gesto de oferenda aos orixás que volta em forma de bênção para quem come.
A comida que cura: a partilha do axé
Aqui está o sentido mais fundo do Olubajé, e o ponto que pede respeito ao escrever sobre Omolu. Este não é um rito mórbido nem uma “festa da doença”. É exatamente o contrário: é a festa em que a comunidade come junta para afastar a doença, reconciliar conflitos e celebrar a vida que continua.
A antropologia já olhou para esse banquete como um exemplo vivo da lógica da dádiva: a comida que circula sem preço, que se dá para criar laço, que distribui axé em vez de lucro. Onde o mundo conta moedas, o Olubajé conta partilha. Quem come do banquete de Omolu sai dali ligado à comunidade e ao orixá, carregando um pouco da saúde que foi repartida na mesa.
É também por isso que Omolu, um orixá tantas vezes estigmatizado por sua ligação com a doença, é na verdade o senhor da cura. O Olubajé é a prova anual disso: a mesa farta do orixá que conhece a dor e, justamente por conhecê-la, sabe o caminho de volta dela.
Olubajé no candomblé e Obaluaê na umbanda
O Olubajé como banquete é uma cerimônia do candomblé, com raiz iorubá-nagô e a nação ketu como principal referência. É no terreiro de candomblé, dentro do seu calendário litúrgico, que o rito acontece com toda a sua estrutura de cantigas, comidas e fundamento. Para entender o contexto dessa religião e suas festas, veja o que é o candomblé.
Na umbanda, Obaluaê também é muito cultuado e homenageado no mês de agosto, especialmente em torno de 16/08, como orixá da saúde e chefe de linha. Mas o Olubajé, o banquete ritual servido na folha de mamona, é prática do candomblé. Um leitor de umbanda honra Obaluaê de outras formas, com velas, ervas como a losna, erva de Omulu, e pontos cantados, sem reproduzir em casa o banquete de fundamento do terreiro de candomblé.
Diferenciar as duas tradições é respeito: elas compartilham orixás, mas têm liturgias próprias, e cada uma honra Omolu no seu jeito.
Perguntas frequentes sobre o Olubajé
O que é o Olubajé?
O Olubajé é o grande banquete ritual de cura dedicado a Omolu (Obaluaê), celebrado uma vez por ano nos terreiros de candomblé. É ao mesmo tempo uma festa pública de partilha e um ebó coletivo, em que a comunidade come da mesma mesa para afastar a doença e repartir o axé do orixá da terra e da saúde.
O que significa Olubajé?
O termo iorubá é comumente traduzido como “o banquete do rei” ou “comer juntos”. As traduções variam um pouco entre as fontes, mas o sentido é consistente: é a mesa do senhor da terra, Omolu, aberta para que toda a comunidade coma junta da comida sagrada do orixá.
Quando acontece o Olubajé?
O Olubajé acontece no mês de agosto, com pico simbólico em torno de 16 de agosto, dia de São Roque no sincretismo. Não há data nacional fixa: cada terreiro marca o seu Olubajé dentro de agosto, conforme o calendário litúrgico da casa e a orientação do pai ou mãe-de-santo.
O que se come no Olubajé?
Servem-se comidas votivas de preparo simples sobre folhas de mamona, com destaque para o deburu, a pipoca sem sal chamada “flor de Omolu”. Também aparecem feijão, massas de milho como aberém e acaçá, raízes e legumes. Os presentes comem um pouco de cada prato com as próprias mãos, cantando e dançando.
Por que a pipoca é a comida de Omolu?
Porque, no itan do orixá, as feridas que cobriam o corpo de Omolu se transformaram em flores brancas, as pipocas. O deburu, milho estourado sem sal, é por isso chamado de “flor de Omolu”: o símbolo de que da chaga nasce flor e da doença pode nascer cura. É a oferenda central do Olubajé.
Onde honrar Omolu em agosto
Na Joia Mística Laroyê, você encontra os artigos para acender uma luz a Omolu no mês do Olubajé, sempre com respeito ao fundamento:
- Velas preta, branca e vermelha: as cores rituais de Obaluaê para a segunda-feira
- Milho para deburu: para a pipoca de oferenda e para o banho de limpeza
- Guias e fios de contas nas cores de Omolu
- Losna e ervas de Omulu: frescas ou secas, para banhos de proteção
- Imagens com a palha tradicional: representações respeitosas, sempre com o rosto coberto
Visite nossa loja em Extrema-MG ou fale com a gente pelo WhatsApp e enviamos para todo o Brasil. Em agosto, mês de Omolu, acenda uma vela branca pela saúde de quem você ama.
Atotô, Omolu!
Referências
- CNN Brasil: Dia de Obaluaê, conheça a história do orixá da cura e das doenças
- Wikipédia: verbete sobre o Olubajé