São Roque aparece nas imagens como um peregrino de bordão na mão, a perna ferida à mostra e um cão ao lado, com um pão na boca. É o santo que a Igreja celebra em 16 de agosto, e é também a data em que os terreiros saúdam Omolu com um “Atotô!”. Não é coincidência.
Este guia conta quem foi São Roque de verdade, por que ele virou o protetor dos doentes e dos cães, e como a fé do povo de santo o ligou a Obaluaê. No fim, você entende a diferença dele para São Lázaro, o outro santo associado ao mesmo orixá.
Quem foi São Roque de Montpellier
Roque nasceu em Montpellier, no sul da França, por volta de 1295, em uma família nobre e rica. Ficou órfão ainda jovem. Ao receber a herança, fez uma escolha que decide o resto da história: vendeu tudo, distribuiu o dinheiro entre os pobres e partiu como peregrino rumo a Roma.
As datas exatas variam de fonte para fonte. A tradição fixa a morte em 16 de agosto de 1327, mas há registros que falam em falecimento por volta de 1379. Por isso o mais honesto é situá-lo entre os séculos XIII e XIV, sem cravar o ano.
O que as fontes concordam é no essencial: um jovem abastado que trocou o conforto pela estrada e pelo cuidado com os enfermos. O verbete sobre Roque de Montpellier reúne a biografia, as variantes de data e a iconografia com bom detalhamento.
O cão, a peste e a ferida na perna
Roque peregrinou pela Itália em plena peste negra, a maior epidemia da Idade Média. Em vez de fugir do contágio, entrou nos hospitais e cuidou dos doentes, com curas atribuídas ao sinal da cruz que fazia sobre eles. Em Piacenza, contraiu a própria peste.
Para não contaminar ninguém, isolou-se numa floresta, à espera da morte. Foi aí que entrou o personagem mais lembrado da história. Um cão passou a lhe trazer um pão todos os dias, roubado da mesa do dono. O dono, um nobre chamado Gottardo Palastrelli, seguiu o animal, encontrou o peregrino doente e se converteu, tornando-se seu companheiro. É por isso que São Roque nunca aparece sozinho: o cão com o pão é a marca dele.
Atenção à imagem. O santo é sempre retratado levantando a túnica para mostrar a ferida (o bubão da peste) na coxa ou na perna. Ao lado vêm o bordão de peregrino, a cabaça de água e a concha de vieira, símbolo de quem faz o Caminho. Reconhecer esses sinais ajuda a não confundir Roque com outros santos.
Curado da peste, Roque voltou a Montpellier. Sem ser reconhecido, foi preso como suposto espião e morreu no cárcere. O portal católico Aleteia explica por que ele é representado com um cachorro e como se firmou como protetor contra as doenças contagiosas.
O culto cresceu depois da morte. No Concílio de Constança (1414), uma epidemia teria cessado após preces ao santo, o que espalhou sua devoção pela Europa. No fim do século XVI, o Papa Gregório XIV concedeu privilégios à confraria de São Roque, e suas relíquias passaram a ser veneradas em uma basílica de Veneza. Hoje ele é padroeiro dos cães e dos animais, dos doentes, dos cirurgiões, do gado e, acima de tudo, protetor contra a peste e as epidemias.
Por que São Roque virou Obaluaê
Aqui entra a chave afro-brasileira. Sob a escravidão, o culto aos orixás era proibido e perseguido. Para continuar reverenciando suas divindades, os africanos e seus descendentes colocaram por trás de cada orixá a imagem de um santo católico de domínio parecido. Foi assim que Obaluaê, o orixá que rege ao mesmo tempo a doença e a cura, encontrou São Roque.
A ponte é direta. Roque cuidou de vítimas da peste, curou epidemias e venceu a própria doença. Obaluaê é o senhor da terra que traz a enfermidade, mas também guarda o remédio. Os dois falam a mesma língua: a da ferida que se conhece por dentro e, por isso, se sabe curar. A ferida exposta na perna do santo ecoa a palha que Omolu veste para cobrir o corpo.
Vale repetir, porque é fácil escorregar aqui: sincretismo não é igualdade. São Roque segue sendo São Roque para o católico. Obaluaê segue sendo Obaluaê para o povo de santo. A associação foi estratégia histórica de resistência, não uma afirmação de que os dois são a mesma entidade. Nunca se diz “São Roque é Obaluaê”, e sim que um “foi associado ao” outro.
No candomblé de nação ketu, Obaluaê é saudado com “Atotô!”, que pede silêncio e respeito diante do mistério. Ele veste a palha da costa, carrega o xaxará (o feixe de palha que varre as doenças) e tem na pipoca, o doburu, seu alimento sagrado. Na nação angola, a mesma energia aparece com outro nome, o inkice Kavungo. Citar a nação importa: cada casa tem sua liturgia, e tratar o candomblé como bloco único apaga essa riqueza.
São Roque ou São Lázaro? A dúvida das duas faces
Quem começa a estudar o assunto logo esbarra num nó: afinal, Obaluaê é São Roque ou São Lázaro? A resposta honesta é que não existe correspondência única. Ela muda por casa, por nação e por região. Ainda assim, a distinção mais comum nas fontes de terreiro separa os dois santos por face do orixá.
O orixá tem duas faces que ganham nomes próprios. Omulu costuma nomear a face velha, curvada, das chagas e da passagem. Obaluaê costuma nomear a face jovem, que já domina a doença e cura de pé. A tradição encaixa cada santo em uma delas:
- São Roque: o peregrino que se curou da peste e seguiu andando. Puxa a face jovem, Obaluaê, o curador que vence a doença.
- São Lázaro: o mendigo coberto de chagas, com os cães lambendo suas feridas, e também o Lázaro que volta da morte. Puxa a face velha, Omulu, das chagas e da travessia.
Os dois têm cão e ferida na perna, o que explica a confusão. Mas a história de cada um leva a um lado diferente do mesmo orixá. Para aprofundar o outro lado dessa moeda, vale ler o artigo dedicado a São Lázaro e Obaluaê. O site umbandista Raízes Espirituais também reúne a lógica do sincretismo com os dois santos.
16 de agosto: o dia de São Roque e o Olubajé de Omolu
No calendário católico, 16 de agosto é o dia de São Roque. Nos terreiros, por sincretismo, virou o dia de Omolu e Obaluaê, dentro de agosto, que já é o mês do orixá. É quando muitas casas realizam o Olubajé, o grande banquete de cura do rei.
No Olubajé, a comunidade come junto os alimentos do orixá, servidos sobre a folha de bananeira, num gesto de partilha e cura coletiva. A pipoca estourada na areia quente é o centro da mesa. A data varia de casa para casa (algumas registram o Olubajé em outros meses), então não se deve cravar que é sempre 16 de agosto. Para entender a cerimônia por inteiro, veja o guia do Olubajé, o banquete sagrado de Omolu.
Para o devoto católico, a data se vive de outro jeito: com a bênção dos animais, a visita à igreja e a oração pedindo proteção contra as doenças. Duas fés, duas leituras da mesma data, cada uma inteira em si.
Perguntas frequentes
São Roque é padroeiro de quê?
São Roque é padroeiro dos cães e dos animais, dos doentes e dos inválidos, dos cirurgiões e do gado. Acima de tudo, é o santo invocado como proteção contra a peste, as epidemias e as doenças contagiosas. Essa fama nasce da própria vida dele, que cuidou de vítimas da peste negra e se curou da doença.
Por que São Roque tem um cachorro?
Porque, segundo a tradição, um cão salvou a vida dele. Ao contrair a peste, Roque se isolou numa floresta para não contaminar ninguém e teria morrido de fome. Um cão passou a lhe levar um pão todos os dias. O dono do animal seguiu o cachorro, encontrou o santo e se converteu. Por isso o cão com o pão é a marca de São Roque.
Qual orixá é São Roque?
No sincretismo afro-brasileiro, São Roque é associado a Obaluaê, o orixá da doença e da cura. Em muitas casas, ele puxa a face jovem do orixá, Obaluaê, o curador. Não é uma regra única: a correspondência muda por casa, nação e região, e o mesmo orixá também aparece ligado a São Lázaro.
16 de agosto é dia de quê?
16 de agosto é o dia de São Roque no calendário católico. Por sincretismo, é também o dia em que os terreiros de umbanda e candomblé saúdam Omolu e Obaluaê, dentro de agosto, o mês do orixá. Muitas casas realizam nessa época o Olubajé, o banquete de cura.
Qual a diferença entre São Roque e São Lázaro?
Os dois têm cão e ferida na perna, mas suas histórias são diferentes. Roque é o peregrino que cuidou de doentes e se curou da peste. Lázaro é o mendigo das chagas da parábola de Jesus, fundido na devoção popular com o Lázaro que Cristo ressuscitou. Por isso Roque costuma puxar a face jovem Obaluaê, e Lázaro, a face velha Omulu.
Onde comprar imagem de São Roque e artigos de Obaluaê
Na Joia Mística Laroyê, você encontra os artigos de devoção para 16 de agosto e para o altar de Obaluaê em casa:
- Imagens de São Roque: em resina e gesso, com o cão e o bordão, em vários tamanhos
- Velas preta e branca: as cores de Omolu, em palito, sete dias e velões
- Guias e contas de Obaluaê: para uso pessoal e para firmar o assentamento
- Pipoca e ervas do orixá: doburu e folhas ligadas a Omolu para banhos e defumação
- Palha da costa e artigos de altar: para montar o cantinho de devoção
Visite nossa loja física em Extrema-MG e enviamos para todo o Brasil. Se tiver dúvida sobre o que combina com a sua casa ou com a sua devoção, fale com a gente pelo WhatsApp.
Referências
- Wikipédia: Roque de Montpellier
- Aleteia: Por que São Roque é representado com um cachorro e invocado contra doenças
- Raízes Espirituais: O sincretismo de Omulu e Obaluaê