A pessoa sai do jogo com uma frase inteira na mão. Algo como “sua cabeça é Oxalá Obocum, com passagem em Oxum Pandá e os pés em Bará Agelú”. Entende o nome do orixá e não entende mais nada.
Este artigo destrava esse vocabulário. Você vai ver o que as passagens dos orixás no batuque são e os dois sentidos que a palavra carrega nas casas gaúchas. Depois vem a lista por orixá, com as variações de grafia, e o que muda de verdade quando a passagem é uma e não outra.
O que é uma passagem no batuque
Passagem é o caminho do orixá dentro dele mesmo. Não é outro orixá, é o mesmo em outro modo de existir e de trabalhar.
Bará Lodê e Bará Adague são Bará. Mudam a função, o lugar do assentamento, o preceito e às vezes a cor. O portal Reino dos Orixás descreve bem essa diferença: Lodê guarda a parte externa do templo e Adague trabalha por dentro, fazendo a frente de vários orixás.
É o mesmo fenômeno que o candomblé ketu chama de qualidade. As duas palavras nomeiam a mesma coisa. O que muda é a gramática de cada tradição, e o repertório de nomes, que não se importa de uma para a outra.
Vale notar uma curiosidade do vocabulário: as fontes escritas do próprio meio quase sempre grafam “qualidade”, mesmo quando falam de batuque. “Passagem” vive mais na boca do que no papel. O antropólogo Norton Corrêa levou anos de convívio nas casas até aprender a falar a linguagem batuqueira, como ele mesmo conta.
O segundo uso da palavra: cabeça, passagem e pés
Aqui mora a confusão que derruba muita gente. No batuque, passagem também nomeia uma posição no enredo do filho de santo.
Nessa leitura, o jogo confirma primeiro a cabeça, o orixá dono do ori. Depois vem a passagem, que pega o corpo. Os pés fecham a sequência. O Templo Jorge da Capadócia registra essa fórmula ao descrever o rito, falando de confirmar nos búzios a cabeça e as passagens, com corpo e pernas.
Por isso a frase do começo faz sentido interno: cabeça em Oxalá, passagem em Oxum, pés em Bará. Os três estão em posições diferentes do mesmo enredo.
Quando alguém falar de passagem com você, pergunte de qual das duas está falando. Uma é o caminho do orixá. A outra é o lugar dele no seu corpo. Ninguém está errado, são dois usos que convivem.
O eixo horizontal desse sistema, a relação entre cabeça e adjuntó, está detalhado em orixá de frente e de junto.
As passagens de cada orixá
A tabela abaixo reúne só os nomes que aparecem em fonte aberta do próprio meio. A grafia principal segue a mais frequente nas fontes gaúchas, com a variante entre parênteses.
| Orixá | Passagens registradas |
|---|---|
| Bará | Lodê (Olodê), Lanã (Onã), Adague (Adagbe, Adagui), Agelú (Jelú), Elegbará (Legba) |
| Ogum | Avagã, Onira (Onirê, Niria), Adiolá, Olobedé |
| Oiá | Oiá, Timboá, Dirá (Dirã) |
| Xangô | Agodô, Aganju (Aganjú), Aganju de Ibeji, Kamuká |
| Xapanã | Jubeteí (Jubeiteí), Belujá, Sapatá |
| Oxum | Adocô (Docô), Olobá, Demum (Ademun), Epandá (Ipondá, Pandá), Epandá Ibeje |
| Iemanjá | Bocí (Boci), Bomi, Nanã Borocum (Borocun) |
| Oxalá | Obocum (Obocun), Jobocum, Orumiláia (Oromiláia), Olocum, Dacum |
Duas travas importantes de leitura.
A primeira: Elegbará, Olobedé e Kamuká aparecem nas fontes marcados como repertório de Cabinda, não de Ijexá. O bloco de Oxum, Iemanjá e Oxalá acima vem marcado como Ijexá e Cabinda. O portal Só Axé separa esses conjuntos e mostra também as listas de candomblé, que são outra coisa.
A segunda: nomes como Ipondá, Opara, Ajagurá, Olufon e Ajaguna circulam na internet dentro de listas misturadas. São de ketu ou de nagô. Copiar essas listas para uma casa de batuque dá erro de fundamento.
Os quatro orixás sem lista pública de passagens
Odé, Otim, Obá e Ossanhe não têm passagens nomeadas em nenhuma fonte aberta que resista à checagem. As páginas do meio listam esses quatro sem subdivisão.
Isso não quer dizer que as casas não trabalhem caminhos distintos deles. Quer dizer que esse fundamento não está publicado, e é assim que deve ficar num texto honesto.
Existe um registro adjacente que ajuda a entender o sistema: quando Odé faz par com Iemanjá Bocí, o material do meio descreve que Otim entra na posição de passagem. Ou seja, Otim aparece como lugar no enredo, não como qualidade de si mesmo. Quem quiser o panorama dos doze pode começar pelos orixás do batuque.
O que muda na prática quando a passagem muda
Saber que a cabeça é Oxum ainda é leitura grossa. Saber que é Oxum Pandá, Demum ou Docô muda quatro coisas concretas.
- A idade e o temperamento. As fontes gaúchas descrevem Pandá como a moça vaidosa e Docô como a que cuida das crianças e faz frente com Oxalá
- A cor do fio de conta. Ogum sai do vermelho e verde para verde e branco na passagem Mejê. Xapanã troca o vermelho e preto pelo lilás na passagem Sapatá. O detalhamento está em fios de conta no batuque
- A comida e o preceito. Cada passagem tem o que aceita e o que recusa, e isso não se deduz por analogia
- O adjuntó possível. As fontes listam pares como Xangô Aganju com Oiá, com Oxum Pandá ou com Iemanjá Bocí, e Ogum Avagã com Oiá Timboá ou Oiá Dirã
Bará é o orixá com mais passagens registradas, e por isso o melhor exemplo para estudar o sistema inteiro. O perfil completo está em quem é Bará.
Por que o repertório muda de casa para casa
O batuque não é bloco único. O antropólogo Ari Pedro Oro registra os lados ou nações Oyó, Ijexá, Jeje, Cabinda e Nagô em estudo publicado na revista Estudos Afro-Asiáticos. Hoje a Ijexá predomina, e Oyó e Nagô quase desapareceram.
Cada lado carrega o próprio repertório de nomes. Some a isso o fato de que as diferenças entre casas são, no dizer do próprio meio, de natureza familiar: mudam as passagens cultuadas, os métodos de iniciação e a ordem de saudação. O quadro das nações está em as nações do batuque.
Esta lista serve para você entender o que ouviu na sua casa, não para corrigir a sua casa. Duas casas Ijexá vizinhas podem grafar e cultuar diferente, e nenhuma das duas está errada.
Quem confirma cabeça, passagem, adjuntó e pés é o babalorixá ou a ialorixá, pelo jogo de búzios. Não existe teste caseiro, lista da internet nem quiz que substitua isso.
Perguntas frequentes
O que é passagem de orixá no batuque?
É o caminho do orixá dentro dele mesmo, o mesmo orixá em outro modo de trabalhar, com função, preceito e às vezes cor próprios. Bará Lodê e Bará Adague são o exemplo mais citado. Nas casas gaúchas o termo também nomeia a posição do orixá no corpo do filho de santo.
Qual a diferença entre qualidade e passagem?
Os dois termos nomeiam o mesmo fenômeno. Qualidade é a palavra do candomblé ketu, passagem é a palavra corrente na fala do batuque gaúcho. O que não se pode fazer é importar a lista de nomes de uma tradição para a outra, porque o repertório é diferente.
Como saber qual é a minha passagem?
Pelo jogo de búzios, feito pelo babalorixá ou pela ialorixá da sua casa, e confirmado nas obrigações. Nenhuma lista publicada, nenhum teste e nenhum artigo de blog resolve isso. O texto que você está lendo serve para entender o vocabulário, não para descobrir fundamento sozinho.
Quantas passagens tem cada orixá?
Varia por orixá e por nação. Bará é o mais numeroso nas listas públicas, com cinco passagens registradas. Odé, Otim, Obá e Ossanhe não aparecem com passagens nomeadas em fonte aberta. Nenhum número deve ser tratado como definitivo.
A passagem muda a cor do fio de conta?
Muda em vários casos. Ogum passa de vermelho e verde para verde e branco na passagem Mejê, e Xapanã troca o vermelho e preto pelo lilás na passagem Sapatá. Antes de mandar montar qualquer fio, confirme a cor com a sua casa.
Onde comprar o material do seu orixá
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o material de batuque com procedência:
- Fios de conta: montados na cor da passagem ou em miçanga avulsa para a casa consagrar
- Ferramentas de orixá: em metal e em madeira, para cada linha
- Alguidares, quartinhas e louça de barro: para o assentamento e para a comida de santo
- Dendê, mel, farinha, camarão e pemba: o básico que toda casa consome
- Velas nas cores dos orixás: avulsas, em par e de sete dias
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Uma última palavra. Nome de passagem não é senha, é fundamento vivo, e vive dentro de uma casa com uma raiz. Leve esta leitura para o seu dirigente e deixe que ele diga o que vale para você.
Referências
- Ari Pedro Oro: religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul, com os lados Oyó, Ijexá, Jeje, Cabinda e Nagô e os doze orixás do batuque, Estudos Afro-Asiáticos v. 24 (SciELO, 2002)
- Instituto Humanitas Unisinos: entrevista com o antropólogo Norton Corrêa sobre o batuque e a linguagem batuqueira
- Só Axé: listagem das qualidades por orixá no batuque, com marcação de Ijexá, Cabinda e Nagô e separação do repertório de candomblé
- Templo Jorge da Capadócia: descrição do rito gaúcho, com a fórmula de confirmar nos búzios a cabeça e as passagens
- Reino dos Orixás: função de cada passagem de Bará no batuque do Rio Grande do Sul