Tem uma conta que quase ninguém faz nas casas do Sul. Antes de qualquer obrigação, alguém precisa ir à mata buscar folha. Sem essa folha, o resto não acontece.
Ossanha no Batuque é o dono desse segredo. Ele rege as ervas, as matas e a cura, e é dele o axé que vive no banho de folhas maceradas. Nenhum outro orixá é assentado, nenhuma cabeça é feita, sem que as folhas dele entrem antes.
Este guia reúne a ficha de Ossanha no Batuque gaúcho: posição na linha, cores, dia, saudação, comidas, ferramentas e sincretismo. E registra, sem maquiar, tudo que muda de nação para nação.
Quem é Ossanha na linha do Batuque
No Batuque, os orixás são chamados numa sequência fixa chamada linha. Ossanha entra depois de Obá e antes de Xapanã, no ponto em que a linha deixa os orixás novos para trás.
Essa posição é de passagem. Ele fica entre a classe dos novos e a dos velhos, e o lugar intermediário combina com a função dele: servir a todos os outros.
Vale a ressalva desde já. Algumas fontes colocam Ossanha antes de Obá, e a ordem varia por casa. Quem quiser o panorama completo encontra a sequência usada aqui em os orixás do Batuque.
O domínio dele é bem delimitado. Ossanha rege as folhas litúrgicas e medicinais, as matas, o segredo da planta e a cura. No corpo humano, a leitura corrente no Sul entrega a ele os ossos, os nervos e os músculos.
Diz o fundamento que sem folha não há orixá. É a forma mais curta de explicar por que Ossanha atravessa todo o culto, mesmo sem ser o primeiro da linha.
Ficha técnica de Ossanha no Batuque
| Item | No Batuque |
|---|---|
| Nome | Ossanha (também Ossânha, Ossãe) |
| Regência | folhas, ervas, matas, cura, segredo da planta |
| Posição na linha | depois de Obá, antes de Xapanã |
| Classe | orixá de meio de linha |
| Cores | verde e amarelo na Ijexá |
| Número | 7 e seus múltiplos |
| Guia | contas verdes e amarelas alternadas |
| Dia | segunda-feira na maioria das casas |
| Saudação | Eu-Eu |
| Comidas | pipoca branca, linguiça de porco frita, figos e apetê de batata |
| Ferramentas | coqueiro de metal, muleta, bisturi, cágado, moedas e búzios |
| Adjuntó | Oxum Demum na maioria dos registros |
| Sincretismo | varia por casa: São Roque, São Cristóvão, São Judas Tadeu, São José |
O assentamento se faz sobre a otá, a pedra que guarda o axé do orixá. O detalhe da louça, das ferramentas e do que vai dentro é fundamento de casa, e não se aprende pela internet.
A muleta é a ferramenta mais reconhecível dele. Ela vem do atributo mítico da perna única, e reaparece na dança, quando o orixá se apoia de um lado só.
O dono do omieró: por que nada começa sem Ossanha
Aqui mora o ponto que a maioria dos textos deixa passar. O omieró, também chamado de abô, é a água sagrada feita com folhas maceradas. Ele lava a cabeça, lava o assentamento e lava as ferramentas.
Essa água é a base material de quase toda obrigação. Sem ela não se faz cabeça, não se assenta orixá e não se cumpre iniciação. E quem responde pelas folhas é Ossanha.
Por isso os antigos dizem que ele não é o sétimo item de uma lista de doze. Ele é a condição para que os outros onze recebam o que precisam.
Na prática do dia a dia, isso aparece em três lugares:
- Nas obrigações de cabeça: o amaci e o omieró abrem o processo
- Nos assentamentos: as ferramentas e a otá são lavadas em folha antes de tudo
- Nos banhos e defumações: cada erva pertence a um orixá, e o conjunto pertence a Ossanha
Se você quer entender como as ervas se organizam por orixá fora do quarto de santo, o banho de sete ervas mostra essa lógica de forma acessível.
Uma ressalva honesta fecha a seção. O preparo do omieró é matéria de iniciado, com corte, reza e ordem próprios de cada casa. Este artigo explica o que a coisa é, não ensina a fazer.
Comidas, ferramentas e adjuntó
A comida votiva mais citada para Ossanha reúne pipoca branca, linguiça de porco frita e figos. Aparece também o apetê, batata inglesa amassada com dendê, chamado no Sul de epô.
Algumas casas registram couve refogada no dendê com farofa. Como quase tudo no Batuque, o cardápio segue o fundamento da casa.
As ferramentas formam um conjunto reconhecível:
- Coqueiro de metal: representa a mata e as folhas
- Muleta: o apoio da perna única
- Bisturi: a faca do corte da folha e da cura
- Cágado: o bicho ligado ao segredo e à paciência
- Moedas e búzios: presentes em quase todos os assentamentos
Adjuntó é o termo do Batuque para orixás cultuados juntos, assentados no mesmo espaço e recebendo obrigação em conjunto. Ossanha faz adjuntó com Oxum Demum na maior parte dos registros gaúchos.
Há casas que registram outra combinação, com Iemanjá Bocí. Nenhuma das duas anula a outra, porque adjuntó é arranjo de casa e não regra geral.
O que muda de nação para nação
O Batuque tem cinco nações historicamente relevantes: Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda e Nagô. O antropólogo Ari Pedro Oro, da UFRGS, registra a Ijexá como predominante hoje e a Oyó como quase extinta no estado.
Quem procurar uma resposta única sobre Ossanha vai achar informação conflitante. O conflito é real, e faz parte da religião.
| Item | Versões registradas |
|---|---|
| Cores | verde e amarelo na Ijexá; verde e branco na Cabinda e em casas Jeje-Ijexá |
| Dia | segunda-feira na maioria; sexta-feira em casas Jeje-Ijexá |
| Posição na linha | depois de Obá na leitura mais usada; antes de Obá em outros registros |
| Sincretismo | São Roque, São Cristóvão, São Judas Tadeu, São José |
O sincretismo merece um cuidado extra. Ele nasceu como estratégia de sobrevivência do culto diante da repressão, e não como equivalência teológica.
Ou seja, Ossanha não é São Roque. Ossanha é orixá do Batuque, e São Roque é santo da Igreja Católica. A associação protegeu o culto num tempo de perseguição.
A Sociedade Africana Reino de Xangô, casa gaúcha tradicional, registra o sincretismo com São Roque e a cor verde. Outras casas registram outros santos, e cada informação vale dentro do seu fundamento. Para entender por que isso acontece, vale ler as nações do Batuque.
Ossanha no Batuque e Ossaim no candomblé ketu
Esta é a confusão mais comum, e ela tem explicação simples. O Batuque é uma religião própria do Rio Grande do Sul, formada no século XIX. Ele não é candomblé nem umbanda, como mostra o trabalho de Oro sobre as religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul.
O mesmo orixá aparece com nome e ficha diferentes em cada tradição. A Wikipédia registra as variações de grafia, incluindo Ọ̀sányìn em iorubá, Agué no jeje e Katendê entre os bantos.
| Item | Batuque (RS) | Candomblé ketu |
|---|---|---|
| Nome | Ossanha | Ossaim, Ossãe |
| Saudação | Eu-Eu | Ewé ó, Ewê Assá |
| Cores | verde e amarelo | verde e branco |
| Símbolo | coqueiro de metal e muleta | haste de ferro com sete pontas e um pássaro |
| Sincretismo | varia: São Roque, São José, São Cristóvão | São Benedito na leitura mais difundida |
Repare no detalhe da saudação, porque é o erro mais frequente. “Ewé ó” é do candomblé baiano. Num terreiro de Batuque, a saudação é Eu-Eu.
O mito da perna única e o segredo das folhas
Ossanha aparece na tradição como figura de uma só perna, apoiada numa muleta. Quando se manifesta, dança sobre essa perna, e quem frequenta a casa reconhece o gesto de imediato.
O mito mais contado explica por que as folhas deixaram de ser posse exclusiva dele. Ossanha guardava todas as ervas numa cabaça e não dividia o segredo. Iansã levantou um vento forte, a cabaça se abriu, e as folhas se espalharam entre os orixás.
Desde então, cada orixá tem suas ervas. Mas o segredo do uso ficou com Ossanha, e por isso ele é consultado antes de qualquer trabalho com folha.
Duas leituras erradas circulam por aí. A perna única não é defeito nem castigo: é atributo mítico, tratado com naturalidade na religião. E a folha de Ossanha não substitui remédio nem tratamento médico, porque o campo dele é o preparo espiritual.
Perguntas frequentes
Qual o dia de Ossanha no Batuque?
Na maioria das casas gaúchas, o dia é segunda-feira. Em casas de Jeje-Ijexá aparece o registro de sexta-feira. Não existe resposta única, porque o dia acompanha o fundamento da nação. Confirme sempre com seu pai ou mãe de santo antes de firmar qualquer vela.
Qual a saudação de Ossanha?
No Batuque do Rio Grande do Sul, saúda-se Eu-Eu, também grafado Eueu. A forma “Ewé ó” que circula na internet vem do candomblé ketu, e significa algo próximo de “salve as folhas”. As duas são corretas, cada uma dentro da sua tradição.
O que Ossanha come?
As comidas mais citadas são pipoca branca, linguiça de porco frita, figos e apetê, que é batata inglesa amassada com dendê. Algumas casas incluem couve refogada no dendê com farofa. O cardápio exato faz parte do fundamento de cada casa e varia bastante.
Qual a diferença entre Ossanha e Ossaim?
É o mesmo orixá lido por tradições diferentes. Ossanha é a forma do Batuque gaúcho, com saudação Eu-Eu e ferramenta de coqueiro e muleta. Ossaim é a forma do candomblé ketu, com saudação Ewé ó e a haste de ferro com sete pontas e um pássaro.
Por que Ossanha tem uma perna só?
A perna única é atributo mítico do orixá, ligado ao segredo e à mata. Ela aparece na muleta entre as ferramentas e no gesto da dança, quando o orixá se apoia de um lado. Não é deficiência nem punição, e sim marca de identidade dentro da tradição.
Onde comprar artigos para Ossanha
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que a casa pede para firmar e cuidar de Ossanha:
- Ervas frescas e secas: guiné, arruda, alecrim, espada-de-são-jorge e folhas de mata para banho
- Guias de contas verdes e amarelas: montadas no padrão do orixá, prontas para o pai ou mãe de santo cruzar
- Ferramentas em metal: coqueiro, muleta e bisturi no tamanho de quarto de santo
- Alguidar de barro e quartinha: para assentamento e para arriar comida
- Velas verdes e brancas: e dendê, pipoca e milho para as obrigações
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Com este artigo, a série dos doze orixás do Batuque fica completa no blog. Para quem quer se aprofundar na religião afro-gaúcha, a obra de fundamento segue sendo O Batuque do Rio Grande do Sul, de Norton F. Corrêa.
Referências
- Sociedade Africana Reino de Xangô: ficha de Ossanha, sincretismo e cor verde
- Ari Pedro Oro (SciELO): as religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul
- Wikipédia: Ossanhe, variações de nome e grafia entre as tradições