Filha de Iansã não entra em sala nenhuma sem que o ar mude. É assim que a frase circula nos terreiros, e ela diz mais sobre o vento do que sobre a pessoa. O retrato dos filhos de Iansã é dos mais repetidos na internet, quase sempre sem fonte.
Aqui você vê o que a tradição de fato registra sobre quem é de Oyá, em luz e em sombra, e quem confirma o dono da cabeça de verdade.
De onde vem esse retrato
O sociólogo Reginaldo Prandi, em Deuses africanos no Brasil, não usa a palavra arquétipo. Ele usa estereótipo, termo que a antropóloga Claude Lépine cunhou em 1981. E diz de onde veio o material: 60 terreiros paulistas de candomblé ketu.
Isso muda a leitura inteira, porque não é intuição de portal de astrologia e sim descrição colhida com povo de santo.
Sobre Iansã, ele escreve que as pessoas dela são brilhantes, conversadoras, espalhafatosas, bocudas e corajosas. Que detestam fazer pequenos serviços pelos outros, porque sentem que isso contraria sua majestade. E que dão a vida pela pessoa amada, mas jamais perdoam uma traição.
Para conhecer a divindade por trás do retrato, o texto é quem é Iansã.
Dois retratos que não combinam
As duas fontes canônicas do assunto descrevem filho de Iansã de formas bem diferentes, e quase nenhum site conta isso.
Prandi puxa para o brilho, a fala e a coragem. Pierre Verger puxa para outro lugar. Ele descreve mulheres audaciosas e autoritárias, de lealdade absoluta em certas circunstâncias, capazes da mais extrema cólera quando alguém atravessa seus projetos.
Vale ler os dois como retrato colhido noutra época, não como julgamento. O que a tradição celebra em Oyá é autonomia, e a leitura conservadora sempre reduziu autonomia de mulher a defeito.
Se dois pesquisadores sérios escrevem retratos que não se sobrepõem, o retrato não é laudo. É modelo de identidade coletiva, e serve para o povo de santo se reconhecer.
As características, em luz e em sombra
A lista de defeitos de quem é de Oyá é o mesmo material da lista de virtudes, visto pelo outro lado, e nenhum traço abaixo foi inventado.
| Em luz | O mesmo traço em sombra |
|---|---|
| Brilha e ocupa o ambiente sem esforço | Espalhafato, precisa da atenção para se sentir inteira |
| Fala tudo na cara, franqueza sem rodeio | Fere sem querer, e nem sempre revisa depois |
| Coragem, entra no que os outros evitam | Cólera extrema quando alguém atravessa seus planos |
| Lealdade que dá a vida pela pessoa amada | Nunca perdoa traição, e a porta fecha de uma vez |
| Senso da própria grandeza | Detesta pequeno serviço, sente que ofende sua majestade |
Nenhum orixá é nem inteiramente bom, nem inteiramente mau. A frase é de Prandi, e ele completa dizendo que as noções ocidentais de bem e de mal não organizam a religião dos orixás no Brasil.
Ninguém reúne tudo isso, e nada disso é destino. A virtude e a sombra de cada cabeça estão em o que o seu orixá diz sobre você.
O retrato vale para homens e mulheres, e filho de Iansã é tão franco e tão dono da própria decisão quanto qualquer filha da orixá.
O vento que só ela carrega: egum e eruexim
Este é o eixo que separa Iansã de todos os outros. Prandi a descreve como a orixá guerreira que leva a alma dos mortos ao outro mundo. Ela é a única iabá que conduz o egum, e dali nasce boa parte do resguardo de quem é dela.
Três pontos que a internet costuma errar:
- Oyá Igbalé não é orixá separado. É o conjunto de qualidades que lida com os mortos, e algumas delas vestem branco.
- O eruexim não é enfeite. O rabo de cavalo com cabo de metal é ferramenta de trabalho, usada em rito de limpeza e como marca de autoridade.
- Egum não é entidade do mal. É ancestral, gente que viveu, e o fundamento está em egum no candomblé.
O contraste com o irmão mais próximo do gênero é gritante: Xangô não lida com egum, e isso organiza o resguardo dele, como se vê em filhos de Xangô.
Uma ressalva firme: o resguardo de cada filho é matéria de casa, e quem diz o que você pode é o seu dirigente, nunca um artigo.
A quizila da abóbora e do carneiro
Duas comidas aparecem como quizila dos filhos de Iansã na tabela de tabus recolhida por Prandi: abóbora e carneiro.
O itan explica a primeira. Perseguida, Oyá se escondeu num abobral e a planta a acolheu, mas o carneiro, com o barulho, denunciou o esconderijo. Daí a abóbora sai do prato por respeito, e o carneiro por conta da traição.
Vale desfazer um boato comum: quiabo não é de Iansã. O quiabo é a marca de Xangô, no amalá, e o itan da orelha cortada é de Obá. A comida dela é o acarajé.
O conceito está em quizilas no candomblé, e o agrado doméstico em oferenda para Iansã.
A qualidade reescreve o filho de santo
Iansã não é uma só. Ela corre em qualidades, também chamadas de caminhos, e a qualidade muda o perfil por inteiro.
- Oyá Igbalé: a que lida com egum, de culto silencioso. Algumas vestem branco, e o filho puxa para o contido.
- Oyá Onirá: rainha de Irá, a guerreira doce ligada às águas de Oxum, veste rosa. O filho puxa para o encanto.
- Oyá Bagã: fundamento com Ogum, Oxóssi e Exu, a guerreira dos ventos e do eruexim.
- Oyá Ijibé: veste branco, ligada a Oxalá e ao vento frio, e o filho tende ao sereno.
Um filho de Igbalé, de branco e silêncio, quase não lembra um filho de Onirá, e se o retrato genérico bastasse os dois dariam a mesma pessoa.
Na ficha dela as cores são marrom, vermelho escuro e coral, com branco nos caminhos de Igbalé, e o número é nove. O dia é quarta-feira, a saudação é Eparrei e as ferramentas são a espada e o eruexim. A comida é o acarajé e a quizila dos filhos são a abóbora e o carneiro, e o sincretismo aparece em Santa Bárbara e Iansã.
Na nação angola a energia correspondente aparece como Matamba, que é inquice e tem culto próprio. No batuque gaúcho ela é Oiá, com fundamento próprio.
Como o orixá de cabeça se confirma
Existe uma resposta única, e ela não está em site nenhum: quem descobre a cabeça de alguém é o babalorixá ou a ialorixá, pelo jogo de búzios, e a confirmação vem depois no bori.
Some a isso o segundo orixá. Prandi registra que cada pessoa tem uma divindade associada, o juntó, com papel importante no comportamento. Cruzando o de frente, o de junto, a qualidade e o odu, ele conclui que as variações são quase inesgotáveis. O assunto está em orixá de frente e de junto.
Existe ainda um dado pouco citado: Monique Augras e Angela Correa testaram esse retrato contra exame psicológico clássico num estudo de 1979, em terreiro queto do Rio de Janeiro. Elas olharam 15 pessoas, e exatamente uma era de Iansã. Houve concordância, e as próprias autoras avisaram que com essa amostra não se fala em correlação.
As autoras deixaram ainda a observação mais útil de todas: quanto mais a pessoa sobe na hierarquia do terreiro, menos ela arrisca palpite sobre o orixá alheio.
Como ponto de partida honesto, use descubra seu orixá e leve o resultado para uma casa séria. O caminho completo está em como saber qual é o meu orixá.
Perguntas frequentes
Quais são as características dos filhos de Iansã?
A tradição descreve gente brilhante, conversadora, corajosa e de franqueza direta, que decide rápido e encara o que os outros evitam. Os mesmos traços aparecem em sombra como espalhafato, cólera diante de quem atravessa seus planos e uma porta que fecha de vez depois de uma traição.
O que os filhos de Iansã não podem comer?
A tabela de tabus recolhida em terreiros paulistas registra abóbora e carneiro como quizila dos filhos de Oyá. Cada casa pode ter resguardos próprios, e alguns aparecem só depois do jogo. Quem confirma a sua lista é o dirigente da sua casa, nunca uma página de internet.
Por que filho de Oyá não come abóbora?
O itan conta que Oyá se escondeu num abobral quando era perseguida, e a planta a protegeu. O carneiro, com o barulho, entregou o esconderijo. Por isso a abóbora sai do prato em sinal de respeito, e o carneiro sai por conta da traição.
Como saber se sou filho de Iansã?
Por lista de características, não se sabe. Reconhecer-se num retrato serve como pista, nada além disso. Quem define o dono da cabeça é o babalorixá ou a ialorixá, pelo jogo de búzios, e o bori confirma depois. Qualidade e orixá de junto ainda mudam bastante o perfil.
Onde comprar o material de Iansã
Na Joia Mística Laroyê, você acha o material da senhora dos ventos:
- Guias em vermelho, coral e marrom: montadas ou em miçanga avulsa
- Eruexim: o rabo de cavalo com cabo de metal
- Velas vermelhas e brancas: avulsas, de sete dias e em par
- Alguidares e quartinhas de barro: para o assentamento
- Feijão-fradinho, dendê e pemba: para o acarajé e para a firmeza
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
O estereótipo de Iansã serviu, na pesquisa de Prandi, como modelo para o povo de santo se reconhecer, e ele nunca foi sentença nem substituiu o búzio da sua casa.
Referências
- Reginaldo Prandi: o estereótipo de Iansã e a nota dos 60 terreiros paulistas, capítulo de Herdeiras do Axé, na página do autor na USP
- Reginaldo Prandi: a versão em periódico, que credita Lépine, Horizontes Antropológicos, 1995
- Augras e Correa: o estudo com 15 filhos de santo e a hierarquia que evita palpite, Arquivos Brasileiros de Psicologia, 1979
- O Candomblé: as qualidades de Oyá, de Igbalé a Ijibé
- Wikipédia: o verbete de Iansã, com o eruexim e o acarajé