O xirê termina, os orixás se recolhem e o atabaque muda de toque. Entra outra gente na roda: chapéu de couro, cocar de penas, charuto aceso. E, pela primeira vez na noite, alguém fala português com todo mundo.
O candomblé de caboclo é o culto aos encantados da terra dentro da casa de santo. Não é umbanda, não é linha paralela: é a parte do candomblé em que os donos originais deste chão são chamados pelo nome.
Este guia explica o que é o candomblé de caboclo e por que ele nasceu nas casas de angola. Também mostra quem são os caboclos e o que separa esse caboclo do caboclo de umbanda.
O que é o candomblé de caboclo
Candomblé de caboclo é todo candomblé que, além de cultuar orixás, voduns ou inquices, cultua também os espíritos dos povos originários das Américas.
Os caboclos são encantados. O termo tem definição precisa na pesquisa de Reginaldo Prandi. São espíritos de homens e mulheres que morreram, ou que passaram direto deste mundo para um mundo mítico e invisível. Diz-se que se encantaram.
Eles não são orixás. São espíritos que viveram na terra, e cada caboclo é considerado filho de um Orixá. Filho de Oxum tem caboclo de Oxum, filho de Xangô tem caboclo de Xangô.
Fala-se hoje em “nação de caboclo”, e o termo circula nos encontros de nações. Na prática, porém, o candomblé de caboclo quase sempre funciona dentro de uma casa de angola, ketu ou jeje, e raramente sozinho.
Por que o caboclo nasceu nas casas de angola
A raiz é banto. Os povos que hoje chamaríamos de angolanos e congoleses cultuavam na África os inquices, divindades ligadas à terra, ao rio, à pedra de um lugar específico.
Aqui está o ponto: inquice não viaja. Ele é preso ao território. Sequestrado e trazido para outro continente, esse povo ficou sem o antepassado da terra em que passou a viver. E encontrou aqui outro dono do chão.
Os caboclos foram adotados como os verdadeiros e primeiros donos da terra brasileira. Cultuar o caboclo foi o jeito de refundar, no Brasil, uma relação com o lugar que a travessia havia rompido.
Prandi, Vallado e Souza situam a origem nos antigos terreiros de angola e congo da Bahia. Os dois nomes maiores são o Bate Folha e o Tumba Junçara, ambos em Salvador, ambos centenários. Sobre inquices e a lógica banto, vale o artigo sobre o que é um nkise.
A convivência entre as duas presenças foi estudada de perto. Miriam Rabelo e Ricardo Aragão pesquisaram como caboclos e orixás dividem o terreiro em casas de Salvador. Eles descrevem uma relação de simbiose, não de hierarquia: cada um mantém a sua natureza, e a casa organiza espaço e tempo para que os dois caibam.
Curiosidade que explica muita briga: a expressão “candomblé de caboclo” nasceu entre o povo de santo do ketu, para marcar distância dos terreiros que recebiam caboclo. O nome veio de fora, com carga de desqualificação. Hoje o caboclo está presente em casas de quase todas as nações.
Quem são os caboclos
As procedências mais conhecidas são três:
- Caboclo de pena: o caboclo indígena, que usa cocar e penachos em transe
- Boiadeiro: viveu no sertão na lida do gado, e vem de chapéu de couro
- Marujo: caboclo do mar, sempre cambaleante pelo tombo dos navios
Há ainda turcos e caboclos de lugares míticos como a Vizala e a Hungria. Os nomes seguem a natureza: Pena Verde, Sete Flechas e Jurema em Oxóssi; Cobra Coral em Oxumaré; Sete Ondas e Iara em Iemanjá; Pedra Branca e Pena Branca em Oxalá.
A saudação documentada no candomblé de caboclo é de raiz banto:
“Xeto marrumbaxeto! Xeto na Vizala! Xeto á!”
Antes de os caboclos chegarem, a mãe de santo entoa o Angoroci, o conjunto de rezas de louvor. Cada caboclo tem ainda o seu ilá, o grito próprio com que anuncia a chegada.
Como é a festa de caboclo
Há duas cerimônias diferentes, e confundir as duas é erro comum.
O toque é a sessão pública periódica em que os caboclos vêm trabalhar e dar consulta. A festa é a celebração anual em que eles vêm para ser homenageados, dançar e comer, sem atendimento ao público.
A sequência do toque começa com o padê, passa pelo xirê aos orixás ou inquices, segue no Angoroci e só então os caboclos chegam. Os três atabaques são tocados com as mãos, no jeito angola. As cantigas são em português, e é o único momento da noite em que se fala a língua de todo mundo dentro do barracão.
Na mesa, nunca falta moranga. Junto vêm milho cozido, farofa, frutas em profusão, fumo e mel. A bebida ritual é a jurema, preparada com a casca do arbusto, vinho doce, mel, noz-moscada, gengibre, cravo e canela. Em algumas casas ela recebe o nome de menga.
O caboclo bebe a jurema na cuia e a oferece aos presentes. A etiqueta manda que quem bebe se vire de costas para ele, herança dos tempos em que não se bebia diante dos mais velhos.
Caboclo de candomblé não é caboclo de umbanda
Esta é a confusão mais frequente, e ela tem raiz histórica. A umbanda nasceu no Rio de Janeiro, nos anos 30, do encontro do culto caboclo com o espiritismo kardecista. O caboclo veio antes; a moldura kardecista veio depois.
| Aspecto | No candomblé de caboclo | Na umbanda |
|---|---|---|
| Origem | Bahia, casas de angola e congo | Rio de Janeiro, anos 30, com o kardecismo |
| Nação | Declarada, angola em primeiro lugar | Não existe organização por nação |
| Ética | Sem a divisão kardecista de bem e mal | Entidade de luz, evolução, caridade |
| Assentamento | Tem, em ferramenta de ferro no alguidar | Firmeza com vela, guia e ponto riscado |
| Iniciação | Batismo de caboclo, rito curto e próprio | Desenvolvimento mediúnico na gira |
| Saudação | ”Xeto marrumbaxeto!" | "Okê Caboclo!” |
| Relação com o Orixá | O caboclo é filho do Orixá | O caboclo trabalha na linha do Orixá |
Uma diferença é bem concreta: no candomblé, o caboclo recebe sacrifício e tem assentamento. Na umbanda, não. Para o quadro completo das duas religiões, veja a diferença entre umbanda e candomblé, e para o caboclo umbandista, o artigo sobre caboclos na umbanda.
Vale registrar o que o próprio povo de santo diz sobre o alcance da consulta. O caboclo ensina banho e remédio, alivia e orienta. O que define fundamento continua sendo o jogo de búzios.
2 de julho: o caboclo da Independência da Bahia
Em 2 de julho de 1823, as tropas portuguesas foram expulsas da Bahia. No ano seguinte já havia cortejo, e sobre o carro ia a figura de um Caboclo, homem indígena adornado de folhas e frutas. Depois vieram as duas estátuas, o Caboclo e a Cabocla.
A escolha não foi casual. Segundo a Prefeitura de Salvador, a figura branca remetia ao opressor português e a figura negra carregava o estigma da escravidão. O indígena foi eleito para materializar a identidade brasileira no desfile, e a imagem já circulava na religião dos baianos.
Nos terreiros, a data virou festa de caboclo. O jornal A Tarde registra que os candomblés de tradição angola foram os primeiros a incorporar o culto aos caboclos. As estátuas recebem oferendas de abóbora com fumo e frutas, as mesmas que vão à mesa da casa de santo.
Perguntas frequentes
O que é candomblé de caboclo?
É todo candomblé que, além de cultuar orixás, voduns ou inquices, cultua também os caboclos, espíritos dos povos originários das Américas. Ele nasceu nas casas baianas de tradição angola e congo, e hoje aparece em terreiros de praticamente todas as nações, com festa, toque e assentamento próprios.
Caboclo é orixá?
Não. Caboclo é encantado, espírito de alguém que viveu nesta terra ou que passou direto para um mundo invisível. Orixá é divindade. Todo caboclo é considerado filho de um Orixá e, em muitas casas, funciona como mensageiro dele, dizendo aquilo que o Orixá não diz.
Qual a diferença entre caboclo de candomblé e caboclo de umbanda?
São cultos distintos. No candomblé o caboclo tem assentamento, recebe sacrifício, chega depois do xirê e é saudado com “Xeto marrumbaxeto”. Na umbanda, formada no Rio dos anos 30 com o kardecismo, ele trabalha na gira, sem sacrifício, e é saudado com “Okê Caboclo”.
O que é a jurema do candomblé de caboclo?
É a bebida ritual da festa, feita com a casca do arbusto da jurema, vinho doce, mel, noz-moscada, gengibre, cravo e canela. Em algumas casas se chama menga. O caboclo bebe na cuia e oferece aos presentes, que devem virar de costas para beber.
Por que o caboclo é festejado em 2 de julho?
Porque a data marca a expulsão das tropas portuguesas da Bahia, em 1823, e o cortejo cívico adotou a figura do Caboclo já em 1824 como símbolo da identidade brasileira. Os terreiros de tradição angola, que já cultuavam caboclo, incorporaram a data ao calendário de festa.
Onde comprar artigos para o culto de caboclo
Na Joia Mística Laroyê, você encontra:
- Charutos e fumo de rolo: o charuto acompanha o caboclo o tempo todo
- Cuias e alguidares: para a jurema e para as oferendas de fruta
- Pemba branca: usada no ponto riscado que dá origem ao assentamento
- Guias e contas: nas cores do Orixá a que o caboclo se filia
- Ervas e folhas frescas: para a junça e para os banhos indicados
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Quem quiser ir à fonte encontra o capítulo “Candomblé de caboclo em São Paulo”, de Prandi, Vallado e Souza, aberto no site do pesquisador na USP.